ter�a-feira, 26 de outubro de 2021
Colunistas / Crônicas de Copacabana
Nara Franco

O faroeste nosso de todo dia

Deviam pensar em resolver a violência no Brasil e não apenas no Rio. Aqui, a meu ver, não tem solução. Pode ter na Bahia, no Ceará ou no Rio Grande do Norte. No Rio ... sei não.
27/10/2017 às 18:22
O Rio de Janeiro chega hoje, 26 de outubro, a incrível marca de 112 Policiais Militares mortos. Como diria Caetano Veloso, alguma coisa está fora da ordem. Nesta mesma semana, um Policial Militar atirou em um carro onde estava uma turista espanhola. O carro estava na favela da Rocinha. A turista morreu. 

A culpa agora é da guia de turismo. Como sempre, fecha-se a porta quando o ladrão já entrou e levou tudo. Logo surgiu na Assembleia Legislativa uma proposta de lei regulamentando a atividade turística nas favelas. Seria cômico se não fosse trágico.

O problema da segurança na cidade é tão complicado quanto uma tese de física quântica para uma leiga como eu, que da aula de Física lembro nada. Tem tantas variáveis que fico com certa pena da Força-Tarefa que a Procuradoria Geral da União está propondo para solucionar o problema. É tipo ver para crer. E eu não creio. 

Deviam pensar em resolver a violência no Brasil e não apenas no Rio. Aqui, a meu ver, não tem solução. Pode ter na Bahia, no Ceará ou no Rio Grande do Norte. No Rio ... sei não. 

A morte da turista não foi novidade. Outros já morreram e vão continuar morrendo até que esse absurdo chamado "turismo em favela" continue. Não vou chamar de comunidade como manda o politicamente correto. Favela é favela. 

Na minha humilde concepção, turismo em favela é conhecer o que a favela tem de interessante. Conhecer um restaurante legal, um bar, um centro cultural, um sítio histórico. Ficar andando pela favela de jipe como se os moradores fossem animais em uma savana africana, não dá. Europeus e americanos têm essa curiosidade que eu considero mórbida. Na falta de pobres em seus respectivos países, resolvem apreciar os nossos. Alguns eventos recentes nestes países mostram que a pobreza por lá tem diversas caras e também precisa de atenção. 

Não vou negar que as favelas tenham seu lado "sui generis". A arquitetura local é desafiadora. O jeito favela de ser é antropologicamente muito legal. Tudo isso tem seu valor. Mas safari não dá. Madonna, a estrela pop, foi a Providência na cara e na coragem (nem tanto), vestida de savana africana. É preciso dizer mais?

Por conta da minha profissão já estive em algumas favelas. São medievais. Dentro das casas, TVs de LED, geladeiras de última geração, máquina de lavar. Do lado de fora, esgoto a céu aberto, postes carregados com tantos fios que mal ficam em pé e marcas de tiros para todos os lados. É degradante. 

A equação favela +asfalto + PM + tráfico não tem fim. Favelas são bunkers onde a PM só entra para atirar e morrer. O favelado vive sob a lei do crime e nem sabe o que é lei. No auge das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPP), entrevistei uma PM que me disse que o maior problema que ela tinha na favela era justamente fazer com que os moradores entendessem o que são direitos e deveres. Ela não era policial: era a síndica. 

E a PM? Enxuga gelo há mais de 20 anos. São despreparados, mal equipados e seu treinamento é de guerra. Atira-se primeiro, pergunta-se depois. Outra dos tempos da UPP: quando soube que não iria mais carregar um fuzil na favela, um outro PM olhou pra mim e disse: "eu vou impor respeito como?". 

Segurança Pública no Rio de Janeiro é faroeste. Ninguém escapa. E digo mais: já foi pior.