quarta-feira, 22 de setembro de 2021
Colunistas / Causos & Lendas
Lobisomem de Serrinha

VELHINHOS TRANSVIADOS JÁ RETORNARAM A SERRINHA APÓS A CORONAVAC

Crônica narra como grupo de velhinhos transviados de Serrinha foi a SP tomar a coronavac e retornou em paz
20/12/2020 às 19:21
Alguns leitores sugeriram que complementasse a crônica da semana passada em que narro a trajetória dos velhinhos transviados que saíram de Serrinha em direção a São Paulo para se vacinarem contra o coronavirus, missão que foi completada com êxito parcial, uma vez que a coronavac ainda não pode ser aplicada diante da briga entre o Messias e o Dória. A área científica, portanto, foi prejudicada, porém, as partes cultural e de lazer obtiveram pleno êxito.

  Evidente que não posso contar tudo o que se passou no decorrer da viagem, retornamos ontem, a Serrinha, até porque alguns integrantes da barca etílico-cultural são senhores de alto coturno, alguns casados, outros aposentados, dedicados e com legados importantes à nossa comunidade.

  Posso narrar fatos relacionados aos serelepes, aos solteiros e aos viúvos. Revelo que o Anacleto se enroscou e se enrabichou com uma viúva de Limeira, a qual estava em compras na 25 de março, e por lá ficou mais uma semana a convite da esbelta, que o levou consigo para um retiro espiritual na terra da laranja.

  Diria que, na largada da viagem, na Churrascaria Trilha do Sul, em Conquista, onde paramos para almoçar, o Feitosa, repetiu na gulodice cortes de picanha de dois pelos, na gordura, que a marinete seguindo na direção de governador Valadares, veículo sacolejando, foi o primeiro a correr ao banheiro.

   E, ao demorar no local, o poeta Serafim Alves, organizador da comitiva, bateu na porta perguntando se o tal havia morrido, já tinha dois outros na fila de espera se segurando, e o Feitosa nada de responder obrigando o lider a usar a chave mestra deparando-se com o sujeito salpicado e dormindo no vaso.

   Fora esse incidente, a viagem transcorreu normal até Valadares onde pernoitamos.

   Noite agradável no Hotel Real Minas. No jantar a luz de velas, o Oliveira se apaixonou pela cantora acompanhada por um harpista, um brilhantina vestido a caráter, de smoking, e depois de ouvir 'Dio Como Te Amo' levantou-se e ofereceu-lhe uma rosa rubra convidando-a para se juntar a ele e seus amigos, o Valter e o Munduca, que seria muito benvinda.

   A senhora, em longo verde com parte dos seios à mostra, agradeceu o convite, mas disse que estava trabalhando com seu esposo e não poderia aceitar o convite.

   O Oliveira contentou-se com doses de red e um spaghetti ao alho e óleo para jantar retornando ao seu apartamento cheirando uma segunda rosa que havia comprando sendo arreliado pelo Munduca. 

   Mais divertida ainda foi a noite em São José dos Campos, no segundo pernoite, durante um show numa casa de strip quando uma moça dessas que a gente só vê no cinema, beleza de Hollywood, se apresentou numa dança do poste, a tal de pole dance, com um biquini minúsculo fio dental.

  Quando a distinta realizou a manobra ‘eye openex’, meu nobre leitor, aquele movimento com as pernas abertas foram intensos aplausos da plateia. Em mais um movimento, o ‘full moon’, na descida da pole, fez topless mostrando os seios hirtos mais duros que bagos de jaca, mesmo a moça de cabeça para baixo, e o Martins não resistiu, entendendo que aquelas luminárias piscavam para ele, levantou-se, apoiou-se na bengala dando vivas, bravo e já tirando uma pelega de um guará para colocar no biquini da moça assim que ele veio cumprimentar a plateia na beira do palco. 

  Findo o espetáculo, a tal, que se chamava Dolores, sentou-se no colo do Martins, furtivamente, deu-lhe um selinho e colocou discretamente o cartão em sua mão com o nome e telefone. Seus companheiros de mesa exultaram, dando nome aos bois, o aposentado Nicolau, o fazendeiro Anatólio, o causídico Dantas, que fizeram selfies com a distinta para seus álbuns.

  Noite agradável. O Martins, ao chegar ao apartamento, telefonou várias vezes para a Dolores, porém, o telefone só dava mensagem de ocupado, deixe seu recado. Impaciente, atirou a bengala na parede e foi dormir.

  No outro dia, no café da manhã, os amigos de mesa quiseram saber como foi a noitada intima com a Dolores e ele contou loas, que se deu bem, selinhos duradouros com sabor de morango, várias vezes foi a urna votar e estava exausto.

  A comitiva, finalmente, chegou a São Paulo. O combinado era ir a um posto de vacinação em Higienópolis, mas, a vacina, como se sabe ainda não estava liberada. O grupo não se apavorou. O poeta Serafim Alves disse que o Dória fez de tudo para conseguir a vacinação do grupo, mas, não conseguiu, e já que estavam na capital paulistas iriam a 25 de março para compras e depois ao centro italiano de gastronomia.

  A visita a 25 de março foi espetacular. O Praxedes, no alto dos seus 83 anos, descobriu uma loja de vendas de produtos ortopédicos e afins e comprou logo um corretor postural de coluna, uma cinta lombar com haste e um andador top. 

  O Vicente, decano da turma, sem um fio de cabelos brancos na barba, no bigode e na juba - dizem tintura Surya Henna de primeira qualidade - ao que se comenta contemporâneo do Barbosa, do Ribeiro, beirando os 90 anos, saiu do maior sex shop do Brasil com uma sacola parruda repleta de secret loves - óleo lubrificante beijável, gel corporal adstrigente, gel trepsemia com efeito frio e quente, sabonete com fragancia afrodisíaca barbatimão, vela beijável, bomba peniana e uma boneca inflável. Era só alegria.

  Outros, mais discretos, como o Dermeval, preferiu comprar um computador de mesa e uma impressora Epson XP-231; e o Darlan, mais compulsivo, adquiriu uma TV Led Sansung 32"; enquanto o Pancrácio adquiriu um fogão 4 bocas Consul com acendedor automático. 

  Eu mesmo não adquiri nada de grande importância salvo uma luva protetora contra o sol com tecnologia UV, baratíssima, o poeta Serafim adquiriu uma calça de treking e o ilustrador Seramov um belíssimo estojo de caneta ponta pincel. O filósofo Pato de Almeida, murrinha, nada comprou.

  À noite, a barca se dirigiu para o Eataly, o centro gastronômico na Av Presidente Juscelino Kubitschek para saborear o melhor da Toscana. Caíram de boca no Prazo Veloce e a uma parte do grupo se deliciou no Pasta & Pizza. Dia seguinte, visita ao MASP e a uma cantina do Bexiga.

  No retorno, a primeira parada foi no bairro Savassi em Belo Horizonte com ceia no restaurante da Tia Lucinha e noite boêmia livre quando alguns dos nossos foram a uma casa com Go Go Girls e o que se passou pouco se sabe, apenas um dos conselheiros que integra a Confraria da Serra Sex - que prefiro não declinar o nome - se atracou com uma mineira de Nanuque, uma truncuda do Vale do Murici, descendente dos aimorés, a qual deu-lhe uma chave de coxas que quase mata o véi, ele batendo no tatame pedindo arrego, vencido estava, e a rapariga querendo mais, com os pés cruzados e o camarada preso, como naquelas lutas de UFC, precisando de um juiz para apartar.

  Depois de passar numa UPA para os primeiros socorros chegou no hotel toda amassado, mas está bem e seguiu viagem numa boa.

  De BH, rumamos para Porto Seguro, a terra santa descoberta por Cabral, da primeira carta de Caminha, e permita-me dizer, que, até então, muitos desses fatos narrados foram-me repassados pelo Serafim, pelo Seramov, uma vez que havia feito um pacto federativo com a Ester de não ir a esses locais de ousadia, mas, estive presente na passarela do álcool com um grupo e tomei meu banho de mar na prainha de Cabrália.

  O que se passou na passarela foi emblemático, o grupo em mesa de pista, mascarado diante da pandemia, buliçoso, assistindo um poket show numa tenda onde havia um cantor de pagode, voz e violão, e mais um batera e um baixista, e na performance umas tupinambás peladas ou assim me pareceu, salvo minhas vistas turvas, tomando banho em pequenas tendas com chuveiro e elas acomodadas dentro daqueles invólucros de plásticos fazendo meneios com o corpo.

  Vovô Edésio, permita-me essa intimidade, um dos integrantes de nossa nau, se aproximou de uma das tendas para verificar se a tupinambá molhada dos pés a cabeça, nua como viviam no tempo de Caminha, era real ou se plástico, e a moça soprou uma lufada d'água com a boca molhando o véi todo.

  No banho de mar, eu com minha sunga colorida, dei um mergulho nas águas límpidas de Cabrália e foi paquerado por uma sereia, confesso que estava sem óculos e vi as coisas embaçadas embaixo d'água, a vistosa chamando-me para nadar, uma beleza de mulher, mais bonita do que a Iara que encantou Abaeté na lagoa de Salvador, e eu temendo que ela me levasse para Saint Malo, na França, pensando que eu fosse Caramuru, sai correndo de dentro d'água e mandei o Seramov me representar nessa missão.
  
  O ilustrador teria se dado bem, porém, ouvindo o canto mavioso da sereia desceu nas profundezas do mar e quase morre afogado.

  Precisei chamar uns bombeiros malhados para retirá-lo de dentro d'água com a barriga estufada de líquido salgado e os olhos revirados. Um dos atletas salva-vidas sem querer fazer o boca-a-boca para salvá-lo visto que perdera a dentadura no mergulho dei uns dois sopapos na sua pança e ele esguichou água até pelos ouvidos, salvando-me. E vivo está, forte, saudável.

  Daí rumamos para Ilhéus, a terra da Gabriela e passamos uma noite no Vesúvio saboreando quibes e chopes. Pena, como disse o nosso orador do grupo, o filósofo Pato de Almeida, não haver mais o Bataclã na terra do cacau, pois, as quengas haveriam de ver o que são homens de resolução, espadas, endinheirados.

  No final da viagem, no outro dia, almoçamos no Casarão de Pedra da senhora Di Maria e Elinor, o professor Enéas querendo comprar uns pratos que enfeitavam as paredes da casa e levando consigo dois potes de cocadas. 

  Assim, acomodados no ônibus, alegres, só fomos despertados na altura da entrada do Lamarão, Serrinha à vista, Serafim Alves pedindo a Bule-Gule que puxasse a trova musical "A Máquina de Lavar Roupa” e o barbudo sacou do pandeiro e começou: A máquina de lavar roupa/Eu troquei numa gamela/Deixe quem quiser falar/Mamãe se dá bem com ela..

  Os velhinhos transviados exultaram: alguns seguiam o ritmo do pandeiro de Bule com palmas, outros batendo a ponta da bengala no assoalho da marinete e Serafim, tocando um prato com um garfo, repicou: Troquei a geladeira numa talha/Minha blusa de nylon num gibão/O meu filtro chinês por um purrão/Meu chapéu de baeta num de palha.

  E assim chegamos a Morena Bela, nossa praça do Ginásio, felizes da vida com missão cumprida. Viva a Serra... Viva a Serra...espocaram foguetes a medida em que cada um descia da marinete.
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*** Esse é um texto de ficção qualquer semelhança de nomes na real com possíveis personagens da Serra é merca coincidência.