Esporte

ITAJAÍ, O XERIFE DE DUAS SELEÇÕES - ILHÉUS E ITABUNA, p WALMIR ROSÁRIO

Walmir Rosário é cronista
Walmir Rosário ,  Salvador | 12/06/2026 às 10:08
Seleção de Itabuna
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    Pouquíssimos jogadores de futebol foram aquinhoados com a felicidade de serem convocados para duas seleções, e dentre os notáveis estão Ferenc Puskás (Hungria/Espanha), Mazzola (Brasil/Itália), Robert Prosinečki (Iugoslávia/Croácia), Thiago Motta (Brasil/Itália) e Diego Costa(Brasil/Espanha). 

  Eles aproveitaram a dupla nacionalidade ou a dissoluçãode países. Eu ainda incluo Evaristo Macedo no Barcelona e Real Madrid. Mas não só exemplos famosos do futebol internacional podem ser incluídos nesta seleta lista. Um grapiúna – itabunense de quatro costados –tem lugar entre os especiais: José Itajaí Andrade Teixeira, nos campos de futebol simplesmente Itajaí, que jogou pela Seleção de Ilhéus e, em seguida foi convocado para a Seleção de Itabuna, a Hexacampeã baiana.

  Sem qualquer paixão ou proselitismo, podemos considerar a participaçãod e Itajaí nesta seleta lista – guardada as devidas proporções –, por se tratar de um jogador amador, portanto exposto à paixão dos torcedores devido à rivalidade entre as duas cidades. 

  A convocação nas duas seleções foi motivada pelo futebol técnico e sério que jogava. Vou logo alertando ao torcedor mais jovem que para enfrentar a vibrante, numerosa e apaixonada torcida daquela época era preciso que o jogado rpossuísse domínio dos nervos, em campo ou fora dele. 

  A primeira palavra que saia da boca de um apaixonado – melhor dizendo, fanático – torcedor, era traidor da pátria, seguida de xingamentos nada amistosos. No caso de Itajaí, pelo seu comportamento durão, daqueles que não levades aforo para casa, o oponente pensava duas vezes antes de atacá-lo, pois a resposta vinha pronta, sem pestanejar. 

  Mas os explosivos torcedoresaguardavam outras oportunidades para lançar os impropérios, principalmente quando separados pelo alambrado que divide o gramado da torcida.

  Itabunense, Itajaí foi morar em Ilhéus por decisão da família para estudar o ginásio, no final da década de 1950. É aí que o um tio morador em Ilhéuse diretor do Vitória ilheense, o convida para residir com ele na vizinha cidade. Convite aceito por ele e a família, Itajaí nem bem se ambienta na nova cidade, recebe o convite para treinar no time, ocupando a mesma posição da equipe anterior: zagueiro.

  No Vitória, inicia o treinamento e no primeiro jogo – num domingo –, na primeira bola em que pega um jogador adversário lhe dá um violento pontapé no tornozelo, que virou o pé. Ao voltar pra casa sua tia Djalma, que era muito enérgica disse que iria tratá-lo, mas quando estiverrestabelecido, teria que fazer a mesma coisa com ele, se não irá apanhar.

  Após passar 20 dias imobilizado (no gesso) Itajaí retorna aos treinamentose ao disputar uma bola com o mesmo adversário não se contem e vai a forra, numa disputa mais enérgica e aplica um leve bico de chuteira no joelho do colega, tirando a rótula de lugar. 

  E Itajaí diz que ele pagou na mesma moeda. Em seguida se arrepende de ter ido à forra, mas ressaltaque serviu como lição. Meses depois, num treino do Vitória, o técnico escala oito aspirantes paraj ogar contra o quadro titular, no qual jogava Sílvio Mário.

   “Marquei ele que não andou em campo”, lembra Itajaí. E essa partida foi fundamental para que iniciasse a jogar de quarto zagueiro no time titular.

   Daí foi um pulo para ser convocado para a Seleção de Ilhéus, na qual jogou de 1960 a 1962.

  De volta a Itabuna, Itajaí é convidado para jogar no Fluminense e fecha umcontrato no valor de Cr$ 50 mil (Cinquenta mil cruzeiros), com o diretor Davi Pinheiro, o que era considerada uma boa fortuna.

   O compromisso era jogar um ano pelo Fluminense amador. Cheque na mão procura o tio Zelito Fontes e comprou 83 bezerros, com direito a pasto grátis. E não deu outra, também foi convocado para a Seleção de Itabuna, o que despertou a ira dos torcedores ilheenses, logo na primeira partida disputada entre as duas seleções rivais. 

  E como o noticiário da imprensa –jornais e rádios – era motivo de discussão entre os torcedores, a primeira partida “pegou fogo” com Itajaí na quarta zaga da seleção itabunense. Embora os debates entre os torcedores “incendiavam” as duas cidades, no meio dos jogadores o clima era ameno, pois eram amigos fora de campo,embora não houvesse regalias dentro de campo. Eram adversários. 

  Certa feita um jogador ilheense chegou a lhe confidenciar que alguns torcedoreslhe procuraram em particular, oferecendo uma boa soma em dinheiro para que quebrasse a perna do “traidor” Itajaí. E tudo terminou em risadas.

  Na Seleção de Itabuna e nos clubes Itajaí era titular e jogou as grandes decisões do Campeonato Intermunicipal, no qual o selecionado itabunense foi hexacampeão baiano de amadores. 

  E Itajaí diz com toda a tranquilidadeque eles entravam para decidir o jogo, em Itabuna e nos campos dos adversários, pois eram os melhores da Bahia.Aos 26 anos Itajaí resolve se aposentar do futebol quando jogava para oItabuna Esporte Clube, já profissional. Daí se dedicou à carreira debancário e, posteriormente, empresário da comercialização de cacau,cacauicultor, pecuarista e industrial do leite. Itajaí lembra com satisfação o período em que jogou futebol e foi um dos líderes daquelas equipesvencedoras que tantas alegrias proporcionaram à torcida itabunense