Esporte

HISTORIANDO COPAS 12: ALEMANHA CAMPEÃ 1974 DERROTA CARROSEL HOLANDES

A série historiando as copas tem texto de ZédeJesusBarreto
ZedeJesusBarrêto , Salvador | 15/05/2026 às 18:14
Alemanha campeã de 1974
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   Está dito e escrito nos chavões do mundo da bola: “nem sempre vence o melhor; o futebol é uma caixinha se surpresas”. Na Copa do Mundo, que é um torneio de mangas curtas, temos exemplos marcantes disso. 
 - O Brasil de 1950 - com Zizinho, Ademir, Jair da Rosa Pinto...-, depois de uma campanha irretocável, em pleno Maracanã, perdeu a copa, de virada (1 x 2) na final para o Uruguai de Giggia e Obdúlio Varela, que diria depois “jogaríamos 10 partidas contra o Brasil e perderíamos nove, mas naquele dia não podíamos perder’. 

 - Citaríamos, na sequência, em 1954, a derrota da ‘invencível Hungria’ de Puskas, Czibor, Hidegkuti, Kocsis..., uma máquina de fazer gols, para uma apenas obstinada Alemanha de birros (travas) altos e um tal Fritz Walter (quem lembra dele?), na histórica final no lamaçal de Berna, 3 x 2 de virada. Os húngaros acertaram as traves alemãs e chegaram a fazer 2 x 0. 

- Ou ainda, mais tarde, em 1982, lembramo-nos até hoje, com amargor,  da ‘tragédia de Sarriá’, na Espanha, quando o timaço brasileiro de Telê Santana – com Zico, Sócrates, Falcão, Junior, Leandro... – caiu para a tinhosa Itália (3 x 2) com três gols de Paolo Rossi, que não tinha marcado nenhum até então. Tem brasileiro que chora até hoje. Pois bem, é assim. Futebol não se explica, se joga, às vezes espanta. 

  E os alemães chuparam a Laranja 

  Assim foi também em 1974, em gramados alemães. A Holanda dirigida por Rinus Michels, comandada em campo pelo gênio Cruyff, assombrava e encantava o mundo com o seu Carrossel – um estilo coletivo de jogo arrasador, nunca visto, que parecia uma baba de criança, todos feito um enxame atrás da bola onde ela estivesse, correndo famintos e incansáveis pelo campo inteiro, o tempo todo. Ninguém tinha posição fixa, até o goleiro Jongbloed saía pro jogo, dando uma de beque (Yashin, o Aranha Negra russo foi o pioneiro nessas ações). A defesa holandesa avançava inteira pondo os adversários em impedimento, todos se movimentavam trocando de posição, desmarcando-se, com um ou dois toques apenas na bola, uma equipe vertiginosa. 

  A tal ‘Laranja Mecânica’ (por conta da cor do uniforme e uma referência ao famoso filme de Stanley Kubrick), era um time objetivo quando tinha a bola e era pura garra e aplicação de todos para retomar, ter de novo a posse, num ardor ímpar de exibição física e eficiência. E que timaço! 

  Além de Cruyff, um dos melhores jogadores da história, a ‘Laranja’ tinha os habilidosos defensores Kroll e Rijsbergen, os velozes avantes Rep e Rensenbrink, e mais o cerebral meia Neeskens... Nunca mais, nenhum time, nem mesmo eles, os holandeses conseguiram jogar daquela maneira, com a intensidade e sincronia do Carrossel de 74. “Jamais repetiríamos aquilo”, diria depois Cruyff, o astro de uma só Copa, do grande Ajax, que depois foi jogar, ganhar títulos e tornar-se técnico do Barcelona, onde fez escola. 

  Mas, naquela Copa, no auge, depois de uma campanha assombrosa (meteram 4 x 0 na Argentina e 2 x 0 no Brasil, com superioridade) os  holandeses perderam a final, de virada, para a aplicada e também talentosa Alemanha (2 x 1). Os alemães tinham uma geração de craques inesquecível, como o goleiro Maier, o zagueiro Vogts, o lateral canhoto Breitner, o veloz Holzenbein, o artilheiro Müller, o notável camisa 10 Overath e o extraordinário Beckenbauer, certamente o maior jogador alemão da história. Os alemães se impuseram, em casa, Campeões do Mundo, como em 1954.  
      
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  Um ‘velho lobo’ caduco 

 O Brasil, ainda sob os louros do TRI no México, chegou na Alemanha de salto alto, nariz empinado, sob o comando do ‘velho lobo’ Zagallo, que dizia ignorar a evolução dos europeus, desconhecia o ‘Carrossel’, Kruyff e os alemães do treinador Helmut Schoen. Chegamos à Europa com uma seleção de atletas vaidosos, alguns bem mascarados, o elenco dividido, sem liderança, e uma comissão técnica sem noção do que estava acontecendo. Daí, fizemos uma campanha medíocre, com dois empates sem gols (contra Iugoslávia e Escócia, nos primeiros jogos) e duas derrotas acachapantes contra a Holanda (2 x 0) e Polônia (1 x 0) na disputa do terceiro lugar. 

 Tínhamos até bons jogadores, como Zé Maria, eleito o melhor lateral da Copa; o zagueirão Luiz Pereira (baiano, de Juazeiro, ídolo no Palmeiras e depois no Atlético de Madri); o lateral Marinho Chagas (a bruxa), o meio-campista Carpeggiani, o meia-atacante Leivinha, o grande Ademir da Guia (que Zagallo pouco usou), mais os consagrados Rivelino, Jairzinho, Paulo Cesar Caju, Piazza, o jovem Edu (outro diferenciado que pouco atuou)...  e muita ‘marra’. Não tínhamos time, equipe, conjunto, união nem unidade. A cada jogo era uma escalação diferente. Um vexame. Os holandeses nos atropelaram e os poloneses, no adeus, nos tomaram a medalha de bronze.  
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 Curiosidades
 
 - Depois do ataque terrorista com sequestro de atletas israelenses ocorrido na Olimpíada de Munique, em 1972, a Copa de 74 aconteceu sob forte e ostensivo esquema de segurança. 

- Cruyff foi eleito o craque da Copa, mas o artilheiro foi o polonês Lato, com sete gols marcados, um deles contra o Brasil, na disputa do bronze. 

= Os gols da final, 2 x 1 Alemanha, de virada, aconteceram no primeiro tempo. Neeskens, de pênalti, com um minuto de jogo; Breitner, também de pênalti, aos 26min, e Müller aos 44. O jogo foi no Estádio Olímpico de Munique, com mais de 79 mil presentes.

- O mundial da Alemanha teve 97 gols marcados em 38 partidas (média de 2,5 gols por jogo). A média de público foi de 46.684/jogo) 
     
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Nota: Tem mais.

           “Historiando as Copas’, de zedejesusbarreto, lançado em 2023 pela OjuOBá Editora, à venda pela Amazon, é uma resenha contextualizada de todas as 22 edições da Copa do Mundo de futebol, da primeira (no Uruguai, em 1930) à derradeira, em 2022, a Copa de Messi no Catar/Mundo Árabe. 
Recomendamos. É uma obra indispensável aos que gostam e lidam com o futebol.