ZédeJesusBarrêto é o autor da série e destaca Argentina em 1942 como provável campeã se a Copa tivesse acontecido em Buenos Aires
ZedeJesusBarrêto , Salvador |
21/04/2026 às 09:51
O Brasil era considerado a terceira força do futebol na América Latina
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Com Hitler invadindo a Polônia, em 1939, a guerra alastrou-se por quase toda a Europa, envolvendo mais tarde as Américas, a África, a Ásia ... E o conflito tornou-se mundial, por assim dizer, até por seus reflexos em todo o planeta. Como consequência, as Copas do Mundo de futebol, que estariam programadas pela FIFA para 1942 (na Argentina) e em 1946 (provavelmente em Portugal) não aconteceram. A competição só seria retomada em 1950, a primeira no Brasil, a segunda realizada na América do Sul.
O terror do III Reich Contextualizando, de forma resumida, a Segunda Grande Guerra (de 1939 a 1945) foio maior conflito da humanidade, ocorrido no século XX. Uma expansão, absurda, do que já acontecera na segunda década do século, a Primeira Grande Guerra (de 1914 a1918). Calcula-se, grosseiramente, que dessa vez, teriam sido sacrificadas mais de 50 milhões de vidas em todo o planeta - entre os cerca de 20 milhões de soviéticos e mais de seis milhões de judeus assassinados em câmaras de gás.
A guerra era a sequência da sanha imperialista dos alemães durante o período chamado de III Reich, de 1933 a1945, o governo ou ‘reinado’ nazista sob o comando do Fürher (o comandante) Adolf Hitler. Aos fatos:- Os alemães ocuparam a Polônia em setembro de 1939 e fecharam alianças com a Itália fascista de Mussolini e o Japão imperialista, na Ásia - então em conflito sangrento com a China, que ainda não era nem sombra da potência que é hoje.
Alemanha, Itália e Japão formaram, então, o que se chamou de ‘Eixo’, bloco que teve o comando bélicodas ações num primeiro momento de avanços e ocupações vitoriosas que durou até 1942. Nesse período, os alemães ocuparam a França, em 1941, e invadiram a URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas / a Rússia e os agregados soviéticos stalinistas.
Em dezembro desse mesmo ano os japoneses atacaram de surpresa a frotanorte-americana no porto de Pearl Harbor, no Havaí - em resposta ao embargo imposto pelos norte-americanos e conquista dos mares do Pacífico.
Enquanto isso, a potente aviação alemã bombardeava impiedosamente a Inglaterra de Churchill, Londres quase devastada, mas suportando heroicamente os ataques aéreos.- Com o ataque dos japoneses e a pressão diplomática de Churchill, pedindo socorro, os Estados Unidos entraram de vez e de vera na guerra, formando o grupo dos Aliados, ao lado do Reino Unido (Inglaterra e agregados das ilhas britânicas) e da URSS de Stalin, que tinha sido invadia pelas tropas alemãs.
O Brasil de Getúlio Vargas – caudilho gaúcho que implantou a ditadura do Estado Novo em 1937 -, estrategicamente útil às manobras dos Aliados pelo Atlântico Sul e norte da África, somou-se ao grupo, em 1942. Getúlio, pressionado pelos EUA, negociou e aderiu aos Aliados, entramos em guerra. O panorama do conflito mudaria, a partir daí, com o avanço das forças aliadas, fechando o cerco sobre o Eixo, na Europa, a partir de 1943, subindo da África, Mediterrâneo e chegando pesado pelo litoral atlântico.
Vale ressaltar a resistência de países europeus (França e Inglaterra sobretudo) e também, pelo oeste, a tenaz e heroica reação terrestre dos soviéticos. Logo aconteceram a queda da Itália, com participação significativa de brasileiros, da Força Expedicionária Brasileira em combates terrestres e aéreos.
Os aliados ganhavam terreno, recuperavam espaços e faziam o cerco provocando o recuo dos alemães, cadavez mais encurralados e esgotados. A Alemanha de Hitler caiu, com Berlim destruída e tomada pelas tropas aliadas, em maio de 1945. Em agosto, os Estados Unidos jogaram duas bombas atômicas – uma em Hiroshima e outra em Nagasaki – obrigando a rendição do Japão, arrasado e horrorizado com o poder de destruição dos ‘cogumelos’ atÓmicos, gerações sacrificadas.
- Vitória total dos aliados, fim do conflito. Reconstrução seria a palavra de ordem, mesmo com a “guerra fria” que se instala entre as duas grandes potências mundiais que se impuseram na guerra: - os EUA (à frente da OTAN /Organização do TratadoAtlântico Norte) e os Soviéticos (o Pacto de Varsóvia). Capitalistas e Comunistas, de visões opostas, formaram blocos de defesa, a disputar espaço, influência e poder não só na Europa, mas em todo o planeta, pelos ares, territórios, mares e até conquistas no espaço sideral, os voos espaciais.
Um novo mundo, pós-guerra, sem dúvida.
Bombas e babas
Acreditem, naquele clima de guerra sangrenta, entre um bombardeio e outro, uma batalha e outra rolavam uns babas (as peladas, os rachas) entre tropas amigas, na Europa, para aliviar as tensões. Há registro de disputas pebolísticas, nesse período, em Portugal (pouco afetado diretamente pelo conflito), Espanha (que vivia as sequelas da guerra civil, de 1936 a 1939), na quase neutra Suécia e até na Itália de Mussolini, um dos epicentros de batalhas, país que preservou atletas, times, alguns campos de jogo eonde aconteceram até competições, mesmo sob tensão, medos e sustos.
Há relatos de uma partida realizada em abril de 1945, em Florença / Itália, dias depois de uma vitoriosa batalha dos aliados contra uma poderosa divisão alemã, cerca de 300km ao norte. A peleja, entre aliados ‘amigos’, foi entre os times do 8º Exército Inglês e do 5º Exército dos EUA que, dos 11 jogadores de seu elenco na pugna esportiva, oito eram brasileiros – mais conhecidos o goleiro Bráulio (que jogou no Atlético MG), Geninho (foi treinador, depois que pendurou as chuteiras) e Walter (Botafogo/RJ), Soares (Internacional RS), Bidon (do Madureira) e o craque Perácio, que foi titular da Seleção Brasileira na Copa de 1938. Os atletas faziam parte da Força Expedicionária Brasileira, de atuação marcante nas batalhas em território italiano.
Com a cobertura de quatro bombardeiros, três dos EUA e um do Brasil, o time americano venceu, 5 x 2, com gols de Bidon (3), Geninho e Walter.- O técnico Flávio Costa, que comandou a seleção na Copa de 1950, contava que ojogador Perácio, craque de bola, só foi parar na guerra porque era um ‘falastrão’. Dizia o treinador: “Chegamos a conversar com o general Dutra, então Ministro da Guerra, que prometeu livrá-lo. Mas Perácio, língua solta, espalhou pra todo mundo que era protegido e não iria mais pra guerra. Chegou aos ouvidos do comando e os militares decidiram puni-lo, convocando-o, mandando-o pra o campo de batalha’.
Perácio alegou doença, dores, mas terminou embarcando na tora pra Europa. Lá serviu como motorista e treinava, batia sua bolinha nas horas vagas.
No Brasil, como em toda a América do Sul, a bola não parou de rolar; os campeonatos estaduais, as competições nacionais e internacionais realizados.
Jogo, brinquedo e sobrevivência- Calcula-se que os ingleses, tidos com os pais, os criadores ou estruturadores do futebol foram os que mais sofreram perdas de atletas com a guerra. Pelo menos 75 jogadores britânicos, integrantes de elencos dos grandes clubes britânicos teriammorrido em combate ou em decorrência de ferimentos graves sofridos no front das batalhas.
Alguns estádios, propriedade dos grandes clubes, foram parcial ou totalmente destruídos pelos bombardeios constantes, quase diários, da aviação alemã. Mas consta que, quando os céus aliviavam, o jogo de bola corria livre e solto, pra espantar o medo, aliviar as tensões.
- Stanley Matthews, ídolo e uma lenda do futebol inglês, primeiro jogador a receber otítulo de ‘Sir’ enquanto atuava, passou três anos de guerra dando aulas de educação física para recrutas da RAF – Royar Air Force, a força aérea britânica.
Dizia, “Eu não tinha formação teórica, mandava o pessoal correr e repetir alguns exercícios que aprendi quando era jogador. Eles não tinham preparo nenhum, eramr ecrutados à toa e a preparação para o combate durava seis semanas. Depois do aquecimento rolava um futebol, pra relaxar”.
Sir Stanley Matthews sobreviveu, ileso, aos bombardeios alemães.
A mesma sorte não teve, por exemplo, o meio-campista escocês Bob Thyne. Sargento, foi parar na linha de frente de combate, participou do desembarque da tropas aliadasno litoral da França, no famoso Dia D da guerra (6 de junho de 1944), a invasão da Normandia (litoral francês), um dos episódios mais importantes da virada contra os nazistas.
Em ação, Bob terminou ferido numa trincheira, a estilhaços de granada. Foi dispensadoe voltou a Londres. Meses depois, entrou em campo para defender a Escócia num amistoso com a Inglaterra, em Wembley, com 90 mil pessoas presentes. Estava feliz no retorno aos gramados, mas levou uma goleada de 6 x 2 na partida.
Na Itália, o treinador William Garbutt perdeu a esposa num bombardeio, quase pirou. Mudou de nome, fugindo da raia, ficou um tempão escondido, protegido por amigos, temendo ser preso pelas forças fascistas. Certo dia, numa abordagem policial ocorrida num vilarejo italiano chegou a ser preso para averiguação com outros suspeitos, mas conseguiu escapar, aproveitando-se do descuido dos soldados que foram tentar pegarum porco pra comer.*
- O caso mais chocante, e de maior repercussão no futebol europeu, por conta das ações bélicas de Hitler, aconteceu antes de a guerra ter se espalhado, quando a Áustria(país natal do ditador alemão) foi anexada, pouco antes da Copa de 38. Hitler mandou reforçar o escrete alemão com os melhores atletas austríacos, para a disputa da Copa, sonhava vencê-la.
O atacante Mathias Sindelar, craque e maior ídolo do futebol austríaco, não acatou a invasão nem aceitou a convocação feita pelos alemães. Ficou marcado, foi patrulhado e perseguido pelos nazistas, entrou em pânico e, depressivo, suicidou-se, em 1939. E o que consta, versão oficial. No funeral, com mais de 20 mil pessoas numa comoção nacional, rolavam rumores, nunca confirmados, de que ele, na verdade, teria morrido (sido morto) num campo de concentração nazista.
A Taça debaixo da cama
Logo que a guerra começou, com a Polônia invadida, sabia-se que a intenção de Hitler era levar a FIFA e a Taça, o Troféu em ouro maciço da Copa para Berlim. Tinha o propósito de comandar também o futebol. Então, Jules Rimet, o presidente da entidade, determinou a mudança da sede/FIFA, de Paris (que logo adiante seria invadida pelo exército do IIIº Reich) para Zurique, na Suíça, então país neutro noconflito.
A Taça, o rico troféu ficou nas mãos, ou sob a responsabilidade do vice-presidente da entidade, o italiano Ottorino Barassi, dirigente da Federação Italiana, o país vencedor da Copa de 1938. Barassi, em princípio, pôs o troféu no cofre de um banco, mas com o avençod esenfreado e as ações sem controle de Hitler logo percebeu que não era seguro, os bancos estavam vulneráveis.
Então, o italiano guardou, escondeu a Taça numa caixa de sapatos, de papelão, sob a cama onde dormia. Salvou o troféu, como fosse um penico.
Favoritismo dos argentinos
Se a copa tivesse acontecido na Argentina, em 1942, como estava previsto no calendário da FIFA, a equipe da casa seria certamente a grande favorita ao título. À época, jogava-se na Argentina o melhor futebol sul-americano, quiçá do planeta. Os ‘hermanos’ tinham se organizado melhor, e chegaram a um nível de profissionalização superior aos uruguaios, principais rivais e primeiros campeões mundiais.
Tinham também evoluído tecnicamente e produzido uma geração de craques até hoje lembrada pelos argentinos e todos os estudiosos do futebol no continente.
A Argentina fora escolhida pela FIFA para abrigar a copa de 1942 por bons motivos estratégicos, políticos e esportivos. Era um país dos mais desenvolvidos na América doSul, neutro, longe dos combates e embates que aconteciam na Europa. Tinha tradição no futebol, geria a profissionalização do esporte desde 1931.Existiam em atividade no país três bons e grandes estádios, bem localizados, na Grande Buenos Aires: – o La Bonbonera, do Boca Juniors, com capacidade para 45 mil pessoas; o Monumental, do River Plate, para 80 mil pessoas, e o Gasômetro, do SanLorenzo, para 60 mil pessoas.
Na década de 40, século passado, os argentinos sobravam nos gramados, viveramuma época de ouro. Além da boa estrutura organizacional, tinham craques como Pedernera, Sastre, Moreno, Labruna, Loustau... até hoje lembrados. A seleção mantinha como base ‘La Máquina’, do River Plate.
Assim venceram, com superioridade, os acirrados torneios sul-americanos de 1941, 45, 46 e 47. Juram qu evenceriam também a Copa de 1946, onde quer que acontecesse.
Fala de goleador
No Sul-americano de 1945, a Argentina venceu o Uruguai, na final, com um gol do atacante Rinaldo Martini, ídolo do San Lorenzo e titular da Seleção, que tinha como base o River Plate. Martini marcou cinco gols na competição. Já idoso, na virada doséculo XX, Rinaldo Martini daria uma entrevista, dizendo:- Naqueles anos dos quarenta, jogávamos aqui na América do Sul o melhor futebol do mundo. Éramos melhores que os europeus, venceríamos com certeza as copas de 42 e, sobretudo, a de 46, copas que infelizmente não aconteceram.
- A Argentina daqueles anos era melhor do que a Argentina que venceu em 1978 e1986. Nos entravamos em campo para ganhar. Hoje, os atacantes veem cada vez mais longe as traves do rival.
- Quanto aos brasileiros, à época, estavam evoluindo muito, mas costumávamos vencê-los. Os jogadores brasileiros eram muito rápidos, plásticos, inventivos... mas muito individualistas e desorganizados coletivamente, ainda.
- Quanto à guerra... eu nem sabia que existia. Era jovem, vivia intensamente, jogava futebol, era tudo. Sonhei muito a disputar uma copa, mas a realidade, às vezes, sabe ser desgraçada.
Talento e bagunça
- O Brasil tinha bons jogadores sim, naqueles anos quarentas. Como Leônidas (consagrado na Copa de 1938), Zizinho (o ídolo de Pelé), Heleno de Freitas, Domingosda Guia, Ademir Queixada, Jair da Rosa Pinto, Tesourinha...Mas nossos dirigentes eram amadores e desunidos, a desorganização e a falta de planejamento comprometiam os resultados em campo. Nos faltavam estrutura, bons gramados, arbitragem, um melhor preparo físico e mental.
Sofríamos do ‘complexo devira-latas’, como diria depois o grande Nelson Rodrigues. Gatinhávamos ainda ,taticamente; o individualismo prevalecia ao coletivo em campo. Não estávamos prontos, ainda.
Reconhecia Flávio Costa, técnico da seleção de 1944 a 1950:- Nos anos 40 éramos a terceira força sul-americana, atrás da Argentina e do Uruguai. Éramos amadores, cultuávamos ainda os ídolos argentinos
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Acontecesse, em 1946, a Copa do Mundo seria jogada em Portugal, península ibérica / Europa. Um país que postou-se quase neutro no conflito entre o Eixo xAliados, não sofreu com combates e bombardeios, e a população sempre amou o futebol.
Portugal, à época, dispunha de três bons estádios: - o Estádio do Lima, com capacidade para 20 mil pessoas, na cidade do Porto; o Estádio Nacional, em Lisboa, estatal, com capacidade para 40 mil e o Campo do Lumiar, do Sporting, para 20 mil pessoas, em Lisboa. Seria. Mas em 46, a Europa ainda em escombros, com cheiro de cadáveres, não comportava, não suportava. Portugal nunca abrigou uma Copa, pois, pois.
A de 1950 aconteceria no Brasil.
Nota: Tem mais.“Historiando as Copas’, de zedejesusbarreto, lançado em 2023 pela OjuOBáEditora, à venda pela Amazon, é uma resenha contextualizada de todas as 22 ediçõesda Copa do Mundo de futebol, da primeira (no Uruguai, em 1930) à derradeira, em2022, a Copa de Messi no Catar/Mundo Árabe.Recomendamos. É uma obra indispensável aos que gostam e lidam com o futebol.