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HISTORIANDO AS COPAS 4: ITÁLIA BI NA BOCA DA GUERRA,p ZÉDEJESUSBARRÊTO

Veja como foi a atuação da seleção brasileira com Leonidas e Domingos da Guia
ZedeJesusBarrêto , Salvador | 17/04/2026 às 17:55
Itália, bi do mundo em 1938
Foto: DIV
    A Copa do Mundo de 1938 aconteceu num momento crucial da humanidade, séc XX. A Europa estava aterrorizada com o vírus mortal dos regimes autoritários, sobretudo a fúria alucinada de Hitler e sua máquina de guerra. O cheiro de sangue pairava nos ares. Era o Stalinismo na Rússia, o fascismo de Mussolini na Itália, a Espanha em guerra civil, com o general Franco apoiado pelo fürher alemão, o ‘Estado Novo’ salazarista impondo-se em Portugal e a sombra do terror espalhado pelo austríaco-alemão AdolfHitler, que pregava, com o apoio das massas, a supremacia da raça ariana, a perseguição e matança de judeus, invadindo e ocupando territórios, disseminando o medo, o medo, o medo...

  Estávamos às vésperas, na boca da Segunda Grande Guerra mundial (1938/1945), maior ainda que a primeira, nem tinham sido curadas as feridas da anterior (1914/18).

  Nesse clima, o francês Jules Rimet, que presidia a FIFA, conseguiu realizar o sonho de uma Copa do Mundo na França, mesmo os franceses em pânico com as ameaças nazistas, os acontecimentos em volta, ecos dos lobos uivando. Mesmo na crise geral, no meio do caos, cinco estádios foram construídos para o grande evento esportivo.

   A Áustria, então ocupada pelos alemães, ficou de fora. Mas a maior ausência foi a do bom selecionado espanhol, o país ibérico em sangrenta guerra civil.

  Um jeito brasileiro de jogar

   Com o mesmo treinador, Vittório Pozzo, um elenco mais qualificado (Colaussi, Piola,Locatelli, Meazza...) e mantendo a estrutura vitoriosa em 1934, a Itália conquistou, com méritos, o título de Bicampeão Mundial, tornou-se o primeiro bicampeão domundo, orgulho dos italianos, fanáticos pelo futebol.

  Entretanto, a grande surpresa, a sensação da Copa de 1938 foi de verdade a Seleção Brasileira, com jogadores habilidosos e um jeito de jogar diferente, alegre, encantador, cheio de gingas, dribles, individualismos e jogadas plásticas. Ficamos num honroso terceiro lugar, por muito pouco não chegamos à final, como veremos.

 O fato é que pela primeira vez fomos a uma Copa com nossos melhores atletas. À frente, o atacante e artilheiro Leônidas da Silva, eleito o ‘craque’, o melhor jogador da competição e artilheiro, com 8 gols marcados.

  Leônidas deixou a Europa consagrado. Ganhou o apelido de ‘homem de borracha’, pela sua elasticidade, agilidade, a acrobacia das ‘bicicletas’, a capacidade e resistência física. Lá recebeu também o epíteto de ‘Diamante Negro’, pérola rara, que no Brasil tornou-se marca de um chocolate, ainda hoje bem vendido. 
 
  Aquele Leônidas seria um misto dos Ronaldinhos; mostrava o poder definidor do Fenômeno e habilidades do Gaúcho. Foi também um fora de série, imortal.

  “Brasil, mostra a sua cara!

   ”O futebol brasileiro mostrava a sua cara aos europeus. Além de Leônidas, o time tinha ainda como destaques o lendário goleiro Batatais, o atacante Perácio, o meio-campista driblador (o ‘pião’) Tim, o ágil ponta Luizinho e o extraordinário zagueiro Domingos da Guia (pai de Ademir da Guia, o Divino), o capitão da Seleção. 

  Numa época em que zagueiro apenas zagueirava, arrepiava, dava chutões, Domingos exibia uma classe fora do comum: matava, dominava, amaciava a redonda e saia jogando, às vezes em arriscados dribles nos adversários, dentro de sua própria área. Daí a origem do termo ‘domingada’, quando o zagueiro sai driblando os atacantes.

  Domingos era muito mais que um beque, era um artista da bola, um gênio, como oatacante Leônidas. Jogava tanto que, mesmo negão, foi jogar na Argentina, no Boca Juniors – e sabemos como ‘los hermanos’ são racistas e chamam, até hoje, os brasileiros de macaquitos. Jogou também no Nacional, do Uruguai, além de Vasco, Flamengo, Bangu, Corínthians...

  Porrada e pênalti

  Por ironia do destino, coisas do ‘sobrenatural’ do futebol, Leônidas e Domingos da Guia foram decisivos (negativamente) na renhida semifinal que fizemos contra a Itália. Jogamos muito e perdemos com um gol de pênalti, no final, cometido infantilmente pelo nosso ‘capita’ Domingos da Guia, que revidou, sem bola, na pequena área brasileira, o pontapé de um italiano.

   O árbitro viu, deu o pênalti, convertido, e o expulsou. Ele não era um jogador violento, foi provocado e perdeu a cabeça. Fatal. Leônidas, machucado pelas porradas sofridas no confronto violento contra a Tchecoslováquia, dias antes, não jogou. 

  Sem Leônidas perdemos muito de criatividade,de poder ofensivo. Ele fazia a diferença. A decisão de vaga pelas quarta-de-final, Brasil x Thecoslováquia foi na porrada. O primeiro confronto, com prorrogação, terminou empatado, 1 x 1. Pau puro em campo. Dois brasileiros e um tcheco foram expulsos. Nove brasileiros e oito thecos restaram com lesões pelo corpo, dois deles baixaram hospital, com fraturas. Foi uma pancadaria generalizada nos 120 minutos de peleja. Na partida tira-teima, 48 horas depois, deu Brasil, 2 x 1, sem problemas.

 - Logo na estreia, contra a Polônia, Leônidas marcou três gols (6 x 5 Brasil), numa partida sob temporal, o campo era um lamaçal, com poças, horrível. Lá pras tantas da partida, com as chuteiras pesadas de lama, Leônidas decidiu tirá-las e jogou alguns minutos descalço, segundo ele ‘pra poder jogar melhor’. 

  Até que o árbitro percebeu e ordenou que ele recolocasse os meiões e as botinas.

  - Essa partida, Brasil 6 x 5 Polônia foi a primeira a ser transmitia pelo rádio para o Brasil, narrada por Gagliano Netto, da Radio Club do Brasil. O polonês Willimowsky ,mesmo derrotado, comemorou muito por ter feito 4 dos 5 gols no Brasil.

  - Na disputa do 3º lugar, já com Leônidas (mesmo baleado) em campo, vencemos bem a Suécia por 4 x 2.

   Contam os jornais da época que os brasileiros conquistaram a torcida francesa com feitos dentro e fora dos gramados. No campo, com a habilidade; fora, com os sarausd e samba e serestas – violões, pandeiros, timbaus – que reuniam a imprensa brasileirae estrangeira (jornalistas, fotógrafos, radialistas, auxiliares) e convidados, aliviando as tensões da guerra que se alastrava.

  Cadê os ‘alemão’?A maior decepção da Copa teria sido a eliminação da ‘fortíssima’ Alemanha (abençoada pelo Führer), nas oitavas de final. Mesmo reforçada com os melhores atletas austríacos (a Áustria fora anexada pelos alemães), a Alemanha levou 4 x 2, um arolha, de virada, da mediana Suíça.

  Lições dos deuses (ou deusas?) da bola:- Os alemães fizeram 2 x 0, na primeira etapa. Hitler, do seu bunker, distante, vibrou. Para os nazistas ‘arianos’ ganhar da Suíça seria uma obrigação. O ‘chefe mor’ teria até trocado telegramas com os chefes da delegação alemã, felicitando-os.

  Só que, não sabia o ‘Führer’, “o jogo de bola só acaba quando termina”. Daí, no segundo tempo, com o apoio maciço da torcida francesa, os suíços viraram, fizeram três gols nos 20 minutos finais, emocionantes. Hitler calou. Os franceses festejaram,vararam noite nas ruas, significava um triunfo contra o nazismo que os ameaçavam.

  No decorrer da guerra, a França terminou invadida, ocupada. Paris, a cidade-luz,maculada.

 Curiosidades- A Itália foi a única equipe que viajou para seus compromissos, de uma cidade aoutra, de avião, mordomia garantida por Mussolini, o Duce. As outras seleçõe srodavam de ônibus ou trens, chegavam ao destino mais cansadas, óbvio.

- Depois de passar pelo Brasil, num jogo duro, a Itália enfrentaria, na final, a ofensiva equipe da Hungria, que tinha feito 13 gols em 3 jogos. Mas os italianos venceram bem,de 4 x 2, dois gols de Colaussi e dois de Piola, um dos destaques da Copa.

  - O time vencedor da final, escalado por Vittorio Pozzo: Olivieri, Foni e Rava; Serantoni, Andreolo e Locatelli; Bravatti, Meazza, Piola, Ferrari e Colaussi.

  - A final foi no Estádio Colombes, em Paris, 55 mil presentes, arbitragem francesa. Foram marcados 84 gols em 18 partidas, média de 4,7gols por jogo. A média de público foi a mais baixa das copas, até então (abaixo de 21 mil/jogo), por conta mesmo do clima de guerra que tomava a Europa.

  - As copas seguintes, de 1942 e 46 não aconteceram, por causa dos conflitos que atingiram, além da Europa, que era o centro dos combates, também as Américas, a África e a Ásia.Como veremos.*


  Nota: Tem muito mais.“Historiando as Copas’, de zedejesusbarreto, lançado em 2023 pela OjuOBáEditora, à venda pela Amazon – uma resenha contextualizada de todas as 22 ediçõesda Copa do Mundo, da primeira (no Uruguai, em 1930) à derradeira, em 2022, a Copade Messi no Catar/Mundo Árabe. Recomendamos. É uma obra indispensável aos quegostam e lidam com o futebol.