Waldeck Ornélas é especialista em planejamento urbano-regional. Autor de “Bahia Urgências do Presente”.
Waldeck Ornelas , Salvador |
25/05/2026 às 10:10
Waldeck Ornelas
Foto:
Uma movimentação de prefeitos goianos chama a atenção para o atentado que está sendo urdido contra a economia baiana. Trata-se da duplicação da BR-020 no trecho Brasília-Barreiras.
Em audiência realizada com o ministro dos Transportes no último dia 13 do corrente mês de maio, diversos prefeitos goianos, entre eles os de Planaltina de Goiás, Alvorada do Norte, Colina do Sul, Guarani de Goiás, acompanhados por um senador daquele estado, foram reivindicar a antecipação, para março de 2027, do edital de concessão da BR-020, originalmente previsto para o mês de agosto do mesmo ano. Curioso é que a reunião contou com a adesão de um parlamentar baiano.
A concessão é da BR-020. Em uma extremidade, o trecho Brasília-Formosa (GO) – que já é duplicado – está incorporado à concessão, para viabilizá-la. Na outra extremidade, com o mesmo objetivo, será incluído o trecho Luís Eduardo Magalhães-Barreiras, já na BR-242, “porque o movimento entre Luís Eduardo e Barreiras é muito grande. São regiões de alta produção agrícola”, declara o deputado goiano José Nelto. Ou seja, a elevada densidade de tráfego entre Luiz Eduardo Magalhães e Barreiras, trecho da BR-242, cuja duplicação já está no PAC, está sendo incluída na concessão da BR-020 para viabilizar o sequestro da economia baiana.
É o que assinala, com todas as letras, o deputado goiano: “toda a riqueza do Oeste Baiano vem para Goiás para seguir até o Porto de Santos”. Em contrapartida promete: “também vai trazer tranquilidade para os goianos e brasilienses que viajam para as praias da Bahia”. O estelionato está claro.
O fundamento é que está errado. O caminho da soja já está traçado: em 2025, nada menos que 6,9 milhões de toneladas escoaram pelo Porto Cotegipe, que está pronto para escoar até 10 a 12 milhões de toneladas/ano. O caminho do algodão está sendo construído: cerca de 20% da produção baiana – a segunda maior do país – já saiu, em 2025, pelo Tecon-Salvador, estimando-se que nos próximos dois anos este número alcance os 80%. O que falta é rodovia, e ela se chama BR-242!
Os estudos técnicos e econômicos para concessão da BR-242 até Rafael Jambeiro (onde se dá o entroncamento com a BR-116) já foram realizados, mas, supreendentemente, teriam concluído pela inviabilidade da concessão. Parece que agora está explicado: é que o trecho Luís Eduardo Magalhães-Barreiras conta para a concessão de lá, não a concessão de cá. Um absurdo!
Ainda e mesmo que não seja esta a causa do não fechamento das contas, é preciso considerar que a BR-242 é uma rodovia economicamente estratégica – por fazer a ligação do Oeste baiano com os portos do litoral – e, portanto, prioritária para fins de modernização. Se mediante concessão ou execução direta é irrelevante. Afinal, a concessão é apenas um instrumento de parceria utilizado pelo Poder Público para realizar aquilo que ele não está tendo braços para executar, e pode ser patrocinada.
A falta de planejamento causa inversão de prioridades. E, diferente da matemática, no desenvolvimento territorial a ordem dos fatores altera o produto.
A Bahia parece estar se tornando vítima contumaz. Senão vejamos: a BR-116 Norte, até Salgueiro (PE), está sendo leiloada agora em maio, antes da BR-116 Sul e seu importante complemento – a BR-324, trecho Feira de Santana-Salvador – previsto apenas para novembro, além de ser uma solução que pretere o importante polo de agricultura irrigada de Juazeiro-Petrolina (PE), dos principais produtores e exportadores de frutas do país!
Agora, com a concessão da BR-020, de Brasília a Barreiras, antes da modernização da BR-242, de Luís Eduardo Magalhães a Rafael Jambeiro – que sequer está programada –, o que está em jogo é a própria integridade territorial e o futuro da economia baiana.
A Bahia tem perdido influência sobre parcelas do seu território. É o caso do Extremo Sul, para o Espírito Santo, e da região de Juazeiro, ao Norte, para Pernambuco. O Oeste baiano sempre foi uma região distante, precisando de ações integradoras. Mas o que se anuncia é exatamente o contrário. E sem bases econômicas.
A Bahia precisa reaprender a mobilizar-se para defender os seus interesses. O que se vê, no presente, é que qualquer meia dúzia de prefeitos de Goiás é capaz de fazer mais por seu estado do que 42 parlamentares federais com que a Bahia conta. Sem falar na proclamada parceria Bahia-Brasil.
Ainda recentemente, quando se tornou necessário, toda a bancada federal e o governo do estado de Pernambuco juntaram-se para arrancar do governo federal o compromisso de que uma ferrovia ligaria Salgueiro ao Porto de Suape.
A Bahia precisa exigir que a modernização da BR-242, no trecho Luís Eduardo Magalhães-Entroncamento com a BR-116, seja imediatamente incluída no programa de concessões do governo federal, se é que a União não tem recursos para executá-la diretamente. No Ceará, a duplicação da BR-116 está sendo bancada com recursos próprios do governo federal, mediante a alocação de R$ 710 milhões, pelo PAC. Mexam-se, senhores!
A BR-242 é prioritária e urgente!