Cultura

MASSEMBA REVELA MENINO EM AMBIENTE SOCIODESIGUAL, p LILIANA PEIXINHO

Liliana Peixinho-Jornalista, ativista socioambiental humanitária, pesquisadora independente. Autora do trabalho "Imersões Jornalísticas independentes, em campo minado de desafios".
Liliana Peixinho , Bonfim | 06/09/2026 às 11:31
Massemba, de Caio Cardoso
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Quem escreve sobre o que vive, observa em compromisso social, em olhar crítico histórico, constrói enredos literários que levam o leitor a viajar em cenários, personagens, fantasias e espectativas sobre a história.
Assim, livros viram filmes, peças de teatros, inspiram a escrever novos livros, em caminhos de retroalimentação potente em linguagens, sons, imagens.

O professor e escritor Celo Cardoso, membro da Academia de Letras Aclasb, lança, dia 11 de setembro, às 19 h, no Espaço Casario, em Senhor do Bonfim, o livro "Massemba".

O autor, Celo Cardoso- de ramificação familiar Quilombola (Quilombo Paus Pretos), Licenciado em Teatro pela Universidade do Estado da Bahia ( Uneb) é ativista das infâncias negras, pescador , arte-educador, oficineiro, performer e escritor- utiliza o gênero literário conto, no recorte infantojuvenil, afrofuturista, onde um menino negro, curioso, de cabelo crespo, cheio de imaginação e reflexões arquitetônicas, históricas, se insere, de forma imersiva, em olhar atento aos ambientes de vida, nos processos imigratórios e migratórios dos povos e suas Diásporas.

Ambientes modificados

O história se passa numa região de alto movimento econômico em commodities agrícolas, em territórios do oeste da Bahia, com altos investimentos no agronegócio, cultivo de monocultura como soja e algodão. Ambiente surgido a partir dos anos 80, 90, bem diferente dos anos 60, 70, onde população local, tradicional, vivia em casas com grandes quintais, repletos de frutas animais domésticos como galinhas e porcos, viajavam nos fins de semana com toda a família para fazer pic nic em chácaras com árvores frondosas, cultivavam de forma orgânica, tomavam banhos de rios, na tranqulidade e harmonia com a riqueza de terras banhadas por águas correntes e puras do Rio Grande.

Olhar sobre desigualdade

O personagem, 'Massemba", vive entre o bairro periférico chamado Santa Cruz, o bairro elitizado chamado Jardim Paraíso, e a comunidade campesina do Galhinho, em Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia.
Entre brincadeiras, descobertas, conversas com a família e experiências na escola, ele observa o mundo ao seu redor e começa a compreender as desigualdades que atravessam seu bairro e familiares, convivendo na Terra do Agronegócio, do sexto maior PIB (Produto Interno Bruto) do Estado da Bahia.

O enredo literário se fortalece em cenas onde realidade e imaginação fortalece o personagem Massemba. Como um super Ser ele encontra poder em seu cabelo e transforma a imaginação em força e altivez na perspectiva de um novo amanhã. Em suas aventuras, ele viaja por territórios fantásticos, os defende contra invasores nórdicos, enfrenta e sonha com dias melhores. Sonha também em ser astronauta, jogador de futebol, professor, escritor, prefeito e até presidente do Brasil. Curioso, inquieto e proativo Massemba descobre histórias de personalidades negras, conhece referências afro-brasileiras e passa a reconhecer em si, em sua família e em seus cabelos crespos uma herança de identidade, ancestralidade e potência.

Olhar transversal no ambiente

A partir do olhar sensível e questionador de uma criança, o livro, na abordagem do autor, leva ao leitor temas como sociologia do trabalho (mais-vália) expondo nuances do sistema capitalista, racismo, representatividade, desigualdade social, trabalho, educação, machismo, identidade negra, pertencimento e o direito de brincar e sonhar. A presença da avó, da mãe, dos tios, dos professores e dos amigos amplia essa jornada, revelando diferentes formas de resistência e de construção de futuros possíveis.

" Massemba- o super cabelo" é uma obra sobre narrativa de infância, memória e resistência que convida crianças, adultos e professores, leitores atentos, " a enxergarem a potência de uma criança negra que brinca, questiona, aprende e sonha- porque imaginar também é uma forma de transformar o mundo", convida o professor e escritor Celo Cardoso.