Depois de participar da abertura da "Aste Nagúsia" (principal festa popular de Bilbao que dura 9 dias) no último sábado pulei o domingo e retornei ontem achando que a segunda-feira seria mais tranquilo. Ledo engano. O festival - assim também chamado onde predomina o rock em seus vários estilos - estava lotadíssimo de gente por todos os cantos em que se andava no Arenal, no entorno do Teatro Arriaga, no "Casco Viejo" onde houvesse espaço para a descontração e a música.
E, para minha surpresa, na área ajardinada do Arenal proximidades da Igreja de São Nicolau, encontrei um pedacinho de Salvador da Bahia com muitos vendedores ambulantes de várias nacionalidades especialmente os africanos do Senegal, trançadeiras de cabelos e vendedores de churrasquinhos de "gatos" como os chamamos na Bahia, os assadores de carnes e embutidos em trempes de ferro e uso de brasas e abanos, além das vendedoras de milho verde assado com tempero de mel. Comi um desses 2.5 euros vendido por uma muçulmana da Argélia.
Bem, esse modelo do churrasquinho no espeto já foi abolido nas festas populares de Salvador devido a violência, mas ainda é usado nos bairros e no entorno dos jogos de futebol na Fonte Nova, entre outros. Em Bilbao, diante da suposta civilidade da cidade, estranhei que ainda existisse esse tipo de prestação de serviço, algumas minitendas e churrasqueiras sem a devida higiene recomendada por qualquer vigilância sanitária.
Mas, paciência, faz parte do show e nem todo mundo pode pagar 3 euros numa fatia de pizza ou 6.9 euros num bocadillo, então se socorre nos espetinhos de carne que custam 1.5 euros cada. Há também vendedores de bebidas alcoólicas em latinhas e garrafas e água.
Em Salvador nas festas populares eles também existem, mas, não se pode vender em garrafas, embora vendam. Mais uma vez devido a violência, o que é muito menor em Bilbao, onde furtam-se celulares e há queixas de assédios sexuais contra mulheres (veja artigo de Maria de Maitenant no Correo de Bilbao).
Surpreendeu-me também quantidade de bandas de rock no festival. Praticamente não se ouve música espanhola no que conhecemos ou supomos conhecer da Espanha o flamenco, castanholas e olés. Há, nalgumas barracas música eletrônica nessa direção e o hino da Marijaia é muito tocado. Mas, o que prevalece mesmo é o rock.
O rock começou nos Estados Unidos na virada dos anos 1940 para os anos 1950, nascendo da fusão de ritmos da música negra americana com a música country (estilo tradicional da população branca). Essa mistura explosiva gerou um som acelerado, dançante e fortemente apoiado na guitarra elétrica.
A onda do rock em Bilbao começou como uma resposta direta à industrialização pesada, à chuva constante e ao cinzento da cidade, misturando a chegada dos primeiros discos americanos nos anos 1950 com a explosão de rebeldia social nos anos 1980. O rock na região não era apenas entretenimento; era a trilha sonora de uma juventude que enfrentava a crise econômica e o desemprego na bacia do rio Nervión.
A literatura da cidade registra que o grande marco comercial veio com o grupo Los Mitos (fundado em 1966), considerado a primeira grande banda de pop-rock. O "Rock Radical Vasco" e o Punk (Anos 1980): Com a crise industrial, Bilbao e os municípios vizinhos da Margem Esquerda (Margen Izquierda) tornaram-se o epicentro de um rock cru, agressivo e altamente contestador. Daqui surgiram bandas lendárias como Eskorbuto (de Santurtzi) e M.C.D. (de Bilbao).
Anualmente, a cena de rock em Bilbao e no País Vasco vive uma forte transição do rock urbano e punk clássico para o indie rock, o rock alternativo e o pós-punk de garagem. Os grandes destaques que lideram festivais e lotam salas de concerto como o Kafe Antzokia e a Sala Santana 27 dividem-se em três vertentes principais:1. Os Grandes Ícones Atuais (Indie e Rock Alternativo) hinova: Originários da região de Bizkaia (onde fica Bilbao), são um dos maiores fenômenos do indie rock espanhol contemporâneo, conhecidos por refrões grandiosos e letras poéticas.
Belako: Vindo de Mungia (região metropolitana de Bilbao), é a banda basca com maior projeção internacional. Eles fazem um pós-punk/rock alternativo cantado majoritariamente em inglês e euskera, já tendo excursionado pelo mundo todo.Zea Mays: Liderados pela voz potente de Aiora Renteria, são veteranos em plena atividade e considerados um dos maiores pilares do rock cantado em euskera (idioma basco).2. A Nova Onda do Rock de Garagem e Pós-PunkSe você procura a rebeldia que herdou o espírito dos anos 80, o circuito underground de Bilbao destaca bandas mais jovens.
Bem não adiante explicar mais sobre o fenômeno do rock em Bilbao porque quem quiser saber mais tem uma literatura ampla sobre o assunto, O certo é que na "Aste Nagúsia" predomina o rock em todos os estilos desde o "heavy Metal" ao de Vanguarda. E as bandas são muito boas, bem estruturadas, muitas mulheres nos vocais, enfim, uma novidade que não conhecia e não via nas festas populares de Vitoria Gastiez, Bayoone e em Pamplona.
Mas, claro, cada lugar tem sua cultura própria e viva Bilbao com seu rock. Nem parece ser a Espanha e os bascos dizem que não é. (TF)