Dois ciclos literários revolucionários: Canudos e a Nação Mestiça do Canadá, da professora e pesquisadora Lícia Soares de Souza, será lançado durante a V FLICAN – Feira Literária Internacional de Canudos,
Da Redação , Salvador |
30/07/2026 às 08:16
Livro
Foto:
A literatura comparada brasileira ganha uma obra destinada a ocupar lugar de destaque nos estudos sobre as Américas. Dois ciclos literários revolucionários: Canudos e a Nação Mestiça do Canadá, da professora e pesquisadora Lícia Soares de Souza, será lançado durante a V FLICAN – Feira Literária Internacional de Canudos, realizada entre 29 de julho e 1º de agosto, no Campus Avançado da UNEB, em Canudos, sob a curadoria do professor Luis Paulo Neiva.
O livro chega ao público reunindo mais de duas décadas de pesquisas desenvolvidas entre Brasil e Canadá e propondo uma leitura inédita sobre dois dos mais importantes movimentos de resistência do continente americano: a experiência comunitária de Canudos, liderada por Antônio Conselheiro, e as rebeliões dos Métis, conduzidas por Louis Riel, na segunda metade do século XIX.
A abertura da obra já anuncia sua dimensão estética e intelectual. O livro é precedido pelo poema Assemblage, de Taurino Araújo, e por um prefácio no qual o escritor interpreta a pesquisa de Lícia Soares de Souza como um grande exercício de reconstrução da memória continental.
No poema, Taurino sintetiza essa perspectiva em um dos versos que funcionam como verdadeira chave de leitura da obra:
"A arte é remontagem; ela se faz com as cores que o mundo deixa cair e não com tintas artificiais. O chão é tela, das mais produtivas e criativas."
A metáfora ultrapassa o campo artístico. Ela anuncia o próprio procedimento intelectual desenvolvido por Lícia Soares de Souza. Assim como o artista recompõe uma imagem a partir de fragmentos aparentemente dispersos, a autora reúne acontecimentos históricos, tradições culturais, textos literários e sistemas simbólicos separados por milhares de quilômetros para revelar uma mesma experiência americana de colonização, resistência e reinvenção.
Mais do que comparar dois acontecimentos históricos, a pesquisadora recompõe uma cartografia cultural das Américas.
Canudos deixa de ser apenas um episódio brasileiro.
A resistência Métis deixa de ser apenas um capítulo da história canadense.
Ambos passam a integrar uma mesma tradição de enfrentamento às formas coloniais de ocupação do território, de destruição dos modos comunitários de vida e de apagamento das culturas populares.
É precisamente nesse deslocamento que reside uma das maiores originalidades da obra.
Professora emérita da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), professora associada da Université du Québec à Montréal (UQAM) e uma das principais referências latino-americanas em estudos comparados entre Brasil e Canadá, Lícia Soares de Souza amplia, neste livro, uma trajetória acadêmica reconhecida internacionalmente.
Sua investigação articula literatura, semiótica, história, filosofia, ecocrítica e estudos culturais para construir uma leitura interamericana dos conflitos que marcaram a formação das nações do continente.
Ao longo da obra, dialoga com autores fundamentais da tradição brasileira, como Euclides da Cunha, Mario Vargas Llosa, Oleone Fontes, Guilhon Loures, Aleilton Fonseca e J. J. Veiga, ao mesmo tempo em que aproxima escritores canadenses ligados às narrativas indígenas e mestiças, produzindo um dos mais amplos estudos comparativos já realizados entre os dois países.
Um dos conceitos mais inovadores apresentados pela autora é o de Sertãoceno.
Inspirado criticamente nos debates contemporâneos sobre o Antropoceno, o conceito procura compreender a devastação ambiental da Caatinga como consequência inseparável da violência colonial, da concentração fundiária e da expulsão histórica das populações sertanejas.
A destruição da paisagem e a destruição das comunidades aparecem, assim, como dimensões de um mesmo processo histórico.
Ao lado do Angloceno, utilizado para interpretar as políticas coloniais inglesas no Canadá, o Sertãoceno torna-se uma categoria capaz de aproximar experiências distintas por meio de uma mesma lógica histórica de ocupação territorial.
Nesse percurso, a autora revisita criticamente Os Sertões, reconhecendo sua condição de obra fundadora da literatura brasileira, mas também investigando suas ambiguidades à luz dos debates contemporâneos sobre colonialismo, identidade nacional, comunicação e memória.
Em vez de reduzir Euclides da Cunha às interpretações consagradas, Lícia propõe um diálogo crítico que evidencia tanto sua extraordinária potência literária quanto as tensões ideológicas presentes em seu pensamento.
O resultado é uma obra que ultrapassa os limites da literatura comparada.
Ela dialoga com a história, a antropologia, a filosofia da linguagem, a ecologia decolonial e os estudos da cultura para oferecer uma nova leitura da formação das Américas.
Não por acaso, o prefácio de Taurino Araújo evita apresentar o livro apenas como resultado de uma pesquisa acadêmica.
Ao contrário, interpreta-o como um exercício de remontagem da memória coletiva.
A imagem construída pelo poeta — a arte feita com "as cores que o mundo deixa cair" — traduz a própria arquitetura intelectual do livro: reunir vestígios dispersos para devolver unidade às histórias fragmentadas pela colonização.
Mais do que reconstruir o passado, a obra devolve protagonismo às vozes que permaneceram durante séculos à margem da narrativa oficial.
Canudos e a Nação Métis deixam de ser apenas episódios derrotados da história para se tornarem experiências vivas de organização comunitária, resistência cultural e produção de conhecimento.
O lançamento durante a V FLICAN possui, portanto, um significado que ultrapassa o calendário editorial.
Realizar esse encontro em Canudos significa devolver o livro ao território que ajudou a produzi-lo simbolicamente.
É fazer com que a reflexão acadêmica retorne ao lugar onde a história aconteceu.
É permitir que literatura, memória e território dialoguem novamente.
Mais do que um novo título na vasta produção intelectual de Lícia Soares de Souza, Dois ciclos literários revolucionários: Canudos e a Nação Mestiça do Canadá representa uma importante contribuição para o pensamento contemporâneo sobre as Américas.
É um livro que propõe novas categorias de interpretação, amplia o campo da literatura comparada e reafirma a capacidade da cultura de reconstruir aquilo que a história tentou apagar.
Nesse sentido, o poema Assemblage deixa de ser apenas a abertura da obra.
Converte-se em sua declaração de princípios.
Porque toda grande literatura nasce justamente desse gesto: recolher os fragmentos esquecidos do mundo para devolvê-los à história sob a forma de memória, pensamento e criação.