Cultura

ITABUNA IGREJA N.S.CONCEIÇÃO AJUDOU A CONSOLIDAR BAIRRO,WALMIR ROSÁRIO

Walmor Rosário é radialista, jornalista e advogado
Walmir Rosário , Itabuna | 26/06/2026 às 07:41
Igreja ajudou a consolidar o bairro da Conceição, um casamento perfeito
Foto: DIV
  Volta e meia me valho de um ensinamento do saudoso Barão de Popoff, que também atendia por Raimundo Kruschewsky Ribeiro (03-08-1925 a 18-02-2015), um ilheense que adorava Itabuna, por desde jovem acreditar na solidariedade do Itabunense, Grapiúna, quando o tema era trabalhar pelo desenvolvimento.

   Para ele, o companheirismo sempre fez parte da vida do Itabunense quando o assunto era a sociedade.E essa introdução é apenas para situar acontecimentos da década de 1950, mais precisamente 1958, quando chegaram a Itabuna três frades capuchinhos – Isaias, Justo (italianos) e Apolônio, este brasileiro, pernambucano. 

  A finalidade deles era evangelizar e tornar católicos fervorosos os moradores do bairro Nossa Senhora da Conceição, além de oferecer a educação, dentre outros serviços sociais. O bairro, também chamado jocosamente de Abissínia, por ter sido violento em décadas passadas, se encontrava em franco crescimento e não dispunha de uma igreja. 

   Na verdade, já existia um pequeno barracão que abrigava uma tosca capela, no qual uma dúzia de fiéis rezavam o terço semanalmente, e em datas esporádicas assistiam às missas, por padres da Igreja de Santo Antônio – no centro –, às vezes o padre Xavier ou Nestor Passos, e a maioria se postava do ladode fora, por falta de espaço interno.

  Embora expostos às intempéries, os poucos fiéis não perdiam uma só Ave Maria eoutras rezas da liturgia, levados pela força do forte pulmão e voz encorpada do morador Vicente Rodrigues Conceição, que fazia as vezes de diácono da pequena capela já dedicada à Nossa Senhora da Conceição. Era também quem puxava os hinos nas procissões pela rua do bairro, sem a necessidade de microfone e alto-falante.

  E não precisava, pois Vicente Conceição era dotado de cordas vocais privilegiadas, nos tons barítono, tenor e baixo, privilégio de poucos, pois cantava de peito aberto em português e latim, sem ter dificuldade alguma de ecoar sua voz pelas ruas do bairro da Conceição. 

  Com isso, conseguia tirar os moradores de dentro de casa, postando-os às portas e janelas, muitos deles acompanhando a procissão. E aos poucos, a área ao lado do velho e acanhado barracão se transformou em uma obra viva, com máquina bate-estacas, caminhões descarregando areia, brita, cimento e dezenas de operários trabalhando, praticamente todos moradores do bairro. 

  O maior problema era conseguir os recursos necessários para pagar os salários, que ficavam por conta de Frei Justo, o mais comunicativo dos capuchinhos. Pedir aos católicos mais abastados era a primeira opção, embora nem sempre o total arrecadado chegasse à obrigação contraída. A ação mudava de “clientela”com Frei Justo recorrendo aos pequenos comerciantes e pessoas de menores posses. 

   E o frade não se avexava e dizia que muitos são os colaboradores: os quetêm dinheiro ajudam na compra de materiais; os que não dispõem de recursos trabalham com o coração, amor e dedicação, contribuindo com a mão de obra na importante construção.Logo após a chegada dos novos missionários a futura paróquia ganha outro reforço de peso, com um novo morador: o então Sargento José Paulo dos Santos, comandante do Tiro de Guerra, locutor e articulista das missas e ofícios litúrgicos produzidos pela Voz Mariana. 

  Com o status de novo residente, convidava os Itabunense do centro e outros bairros a visitarem o Conceição, colocando no roteiro a visita à igreja em construção. E a grande obra prometida vai chegando ao ponto culminante. Com o apoio do Sargento Paulo no programa radiofônico “A Voz Mariana”, as contribuições foram ampliadas e vistas como marcantes para a grandeza bairro da Conceição. 

  E a Voz Mariana conclamava: “Em seus passeios dominicais venham conhecer o belíssimotemplo católico que está sendo erigido para ser a Futura Sede da Rainha do Céu. E em seguida arrematava: “Menor se tornará o sacrifício porque a própria Virgem conduzirá a todos pelo seu amor, e na sua mansidão, ao recinto em que maistarde louvaremos a sua Imaculada Conceição”. 

  Como se tratava de um reclame (anúncio publicitário à época), solicitava a doação de portas e janelas, que são numerosas, a cobertura e torre que se encontram pela metade, além do piso. Para não esquecermos do que disse na abertura desta crônica o Barão de Popoff, os capuchinhos batiam em todas as portas e, aos poucos, as boas notícias eram divulgadas nas missas, com os nomes e os valores doados, muitas vezes para o desespero de alguns doadores, que preferiam manter seus nomes em sigilo.

   Eesses anúncios, às vezes, abriam novos corações para novas doações. De uma só vez foi anunciada a doação do piso da Igreja no valor de CR $ 68 mil(sessenta e oito mil cruzeiros), da lavra de Antônio Costa; o cacauicultor Oscar Marinho Falcão ofereceu as portas e janelas, que custaram CR $ 68 mil; a família do empresário Godofredo Almeida doou o Altar-mor, todo em mármore, no valor de CR $ 100 mil; o professor Antônio Vieira (ex-padre) e seus alunos do Colégio Comercial de Itabuna doaram CR $ 9 mil para os paramentos do altar; o ex-prefeito Miguel Moreira CR $ 30 mil para finalizar algumas obras e o fazendeiro Daniel Rebouças CR $ 150 mil para usar na construção.

   Aos poucos, a comunidade do bairro e de Itabuna como um todo passaram a ver com bons olhos a construção da Igreja de Nossa Senhora da Conceição como um vetor de desenvolvimento do bairro. Pleno emprego, comércio local vendendo bastante e os recursos que entravam grande parte ficava na economia do bairro. E os capuchinhos não paravam: promoviam o material, além do espiritual, elevando a alma dos fiéis com Santas Missões, missas diárias, a integração dosjovens e adolescentes nas Cruzadas Eucarísticas, formando coroinhas e futuros seminaristas.

Muito ou quase tudo do que foi feito se torna exemplo de solidariedade para ostempos atuais, que buscam os recursos junto ao poder público. Mudam-se os tempos e com eles os pensamentos e o modo de vida.