Vicente nunca cortou um terno para cliente asiático, nem colou 1 real dos seus no mercado de capitais e, em Salvadores, nos dias atuais, não há sossego nem para tomar uma gelada sem ser assediado por esses especialistas
Tasso Franco , Salvador |
13/05/2026 às 09:54
Leco levou um torresmo crocante sustentável e o alfaiate bebeu a salina a e disse: f.da p.
Foto: SERAMOV
Sairia com a esposa para comprar um par de tênis. O que possuí há anos havia entrado água numa dessas chuvas de abril de Salvadores, literalmente, uma infiltração do tempo. A sola foi ficando fininha e com as poças d’água nas calçadas sempre que anda sobre elas molha os pés. E, sendo idoso, isso poderia lhe causar um resfriado.
Vicente Ramos alfaiate renomado à moda antiga e pensador, morador do bairro da Saúde, é o que se pode chamar de precavido e não compra qualquer bagulho que vê nas prateleiras, nem nada pessoal sem que sua esposa Rita Magna opine. Ela é a guia, a Ori, a divindade que conduz o seu destino, a cabeça, e Vicente pede a ela os conselhos adequados para qualquer coisa, ainda mais para a compra de um par de tênis, do bom, do especial, hoje, sabemos, custando os olhos da cara.
Ficou, no entanto, admirado quando lhe consultou sobre a compra e ela, atarefada com os afazeres de casa, preparava uma moqueca de pescada amarela para o almoço, disse que entendia pouco ou quase nada da matéria, e que, se dúvida havia que Vicente consultasse o Google ou algum especialista.
Por pensar um pouco mais entre cortes nos alhos, Rita lembrou-se de Romeu um “influencer” que havia saído do CBD 40 e tinha se tornado um especialista em looks, moda, uma vez que durante o reality show usava uns tênis que foram sucesso.
- As favas minha querida com seus influencer e especialistas. Irei ao “Magazine Macedo” na Baixa dos Sapateiros e comprarei o que o vendedor me mostrar ser o melhor ou o mais adequado para um idoso. Ralhou Vicente a esposa em momento de sermão, quase em púlpito, soletrando que estava admirado com sua consorte, pois, o que mais persiste nos dias atuais é essa dinâmica da incerteza - o que o escritor libanês Nassim Nicholas Taleb - classifica como “A lógica do Cisne Negro” – e ponderou em voz alta e sincopada – “com muitos palpites alardeados dos conhecedores de um tudo e que não sabem nada, sigo, a máxima popular - Só Deus sabe” – e deu de ombros.
Rita Magna só não revidou com uma colherada de dendê na sua fuça porque feminista do bem não age com violência escaldante, porém, subiu nas tamancas onde já se encontrava usando um salto de Holanda e respondeu na tampa: - Então porque perguntaste oh! Velho jiló enrugado?
- Perguntei porque você é meu Exu, meu abre caminho e não iria investir mil contos – Vicente ainda usa essa linguagem para falar em 1 mil reais – um par de tênis sem a sua orientação. E a nobre senhora vem me propor falar com algum especialista, estrategista ou imersivista de plantão, esses merengueiros que nada sabem e são vistos como os sábios dos tempos modernos.
- Há muitos bons na internet e uso-os para ganhar tempo, pois tempo é dinheiro, e não vamos ficar percorrendo a Baixa dos Sapateiros de ponta-a-ponta, como no passado, para adquirir um par de sapatos. A tecnologia está para isso, nos orientar – discursou Rita.
- Orientar uma ova. Salvadores está repleta de influencers que não sabem nada e aparecem como sabedores de tudo, cada qual com não sei quantos mil seguidores nas redes sociais, redes que o grande escritor Humberto Eco classificou como “lixo do saber”.
Tomou fôlego e prosseguiu: - Repleta de especialistas que, alguns deles até sabem de alguma coisa sobretudo no campo da medicina, mas, a maioria, em especial os especuladores dos mercados financeiro e político não acertam uma. Veja, que, recentemente, com tantos sábios nessa área ninguém previu que Nicolás Maduro fosse preso na sua casa, na Venezuela, e levado para a prisão nos Estados Unidos; estamos atulhados de estrategistas e agora tudo virou estratégico, até para alterar uma linha de ônibus num bairro, diz-se que se obedece a um planejamento estratégico; há centenas de imersivistas - pessoas que defendem e vendem imersões em todo tipo de coisa - até na dança de salão; e os sexologistas que palpitam sobre a arte de fazer sexo que é a atividade mais antiga do mundo, desde Adão e Eva, e não precisa de opiniões de ninguém, pois, se assim precisasse nosso planeta, hoje, não teria 8 bilhões de pessoas.
- Se o nobre senhor não acredita em nenhum desses “sábios” como dizes vá a Baixa dos Sapateiros e percorra-a de ponta-cabeça, anote tudo num papel e traga para nós discutirmos o que fazer.
***
Diante do conselho da esposa, Vicente se deslocou para a Baixa dos Sapateiros, antiga Rua da Vala, onde estão instaladas dezenas de sapatarias e começou sua trajetória pelo “Mundo dos Calçados”, do seu amigo Beto, apelidado de “Beto Bico Fino”, visto que adora usar sapatos bicos finos e este disse ao distinto alfaiate e pensador que o certo era ele adquirir o sapato de couro, não exatamente de couro de bicho, de boi ou de carneiro como são alguns dos exemplares que vende à mancheia, mas, de couro sustentável, algo que tenha sido planejado e estruturado por alguma fábrica que usa estratégica de mitigação em soluções baseadas na natureza.
Vicente, que conhece Beto de muitos anos, de beber folhas de infusão na tenda de Miro no Mercado de São Miguel, achou que o dito senhor estava a mangar de sua pessoa ou teria sido impregnado pelos novos tempos, pelo politicamente correto e pelo identitarismo esquerdista, e quis saber que diabo de “couro sustentável” era aquele, que o último sapato que teve de couro foi confeccionado a partir da couraça de um bode preto destrinchado num açougue do Retiro, e Beto justificou que era de couro sintético, parecia couro real, mas, era couro químico produzido a partir de poliuretano da Petroquímica, sustentável e vendido dentro da agenda ligada a resiliência urbana pela módica quantia de 1 mil e 200 reais.
Vicente azucrinou quase manda Beto a pqp parecia ter incorporado a gira de uma das pombas da Praça de Sé, agradeceu os ditos do amigo e de maneira educada respondeu que o preço estava caro e iria fazer uma pesquisa de mercado noutras lojas para verificar se encontrava algo mais em conta.
Beto assentiu, foi compreensível com o amigo e respondeu que ele poderia percorrer toda a Baixa, de lado-a-lado, da Barroquinha ao antigo Cine Tupi, onde hoje são exibidos filmes pornôs, mas, tinha certeza de que não encontraria algo mais em conta do que no seu “Mundo dos Calçados”, como próprio nome diz, com sapatos, sandálias, botas, chinelos fabricados no Uruguai, costurados à mão; calçados produzidos com pelos de coelhos da Espanha; manufaturados com couros da Itália, sintéticos da China e da “Casa da Zorra”.
Aliás, diga-se, esse foi o único momento em que Beto se alterou quando mencionou a “Casa da Zorra” que nem ele mesmo sabia onde era.
Vicente seguiu adiante e passada uma casa onde se vendiam imagens de santos e orixás fabricados em gessos e pintados com tinta lavável, uma loja de molduras e espelhos onde estava a exposição de pinturas a óleo de Esdras sobre paisagens de Salvadores, da Basílica do Bonfim a coqueiros de Piatã, adentrou na loja “Princesa das Sandálias” e se deu conta já embocetado dentro da loja que se tratava de uma casa comercial que só vendia calçados femininos e nada perguntou as atendentes, uma delas o cutucou pelo braço dizendo “senhor”, “senhor”, procuras alguma sandália especial para sua esposa” e ele disse, educadamente que não, que estava à procura de um tênis para ele, e ela recomendou que fosse ao “Universo dos Tênis”, ao lado do antigo Cine Jandaia.
Ele se dirigiu a esse estabelecimento, observou pausadamente os produtos na vitrine e quando entrou no lojão se deparou com um cartaz com os dizeres “Temos tênis estratégicos para os seus pés” e logo adiante outra placa onde se lia “Praticamos crédito estruturado” Vicente fez igual a um pião girou de volta e se recusou até a falar com o atendente.
Ainda assim não desistiu de sua missão e foi anotando os nomes das lojas numa cadernetinha e os preços dos tênis como lhe pedira a esposa Rita e se deu por satisfeito após consultar produtos em 8 lojas e a que mais gostou, diga-se de passagem, foi a “Rei do Tênis” pelo menos não alardeava nada estratégico e sustentável, apenas os dizeres, “Os mais confortáveis para seus pés” e uma plaqueta padrão junto ao caixa onde se lia “Fiado só para pessoas de 90 anos acompanhados dos avós” e ele gostou, deu risada pelo canto da boca, nada comprou mas experimentou dois pares bonitões, um com as cores do seu Vitória, vermelho e preto, e gostou ainda mais quando o vendedor chamado Badá colocou os preços num pedaço de papel escrito com dizeres a lápis. A missão estava cumprida.
***
Quando chegou em casa no Largo da Saúde onde mora quase em frente a igreja de Nossa Senhora da Glória encontrou dona Rita Magna toda arrumada, pronta pra algum evento e contou sua trajetória a procura do par de tênis, trouxe os preços e as recomendações, dona Magna ouviu tudo atenciosamente, mas disse que estava de saíde e retornaria à noite pois iria participar de uma imersão em maquiagem, dito por ela ser um treinamento intensivo focado em acelerar o aprendizado, aprimorar técnicas específicas de colorimetria e elevar o seu nível profissional para melhorar o atendimento a suas clientes.
Vicente achou que a esposa estava pirando pois já tinha anos de escovas e batons e o curso que fez foi a prática, o saber do dia a dia. Magna disse-lhe que os tempos agora são outros, de PRO, da harmonização, de Imersão Make Real, de técnicas autorais e assim falando deu um tchau e partiu.
Só restou a Vicente ir ao Boteco do Leco tomar uns gorós e pra lá se dirigiu. Mal se sentou na cadeira e pediu uma gelada o seu celular vibra e depois de ouvir um musiquinha alguém do outro lado da linha se identifica como sendo o corretor Santos Delgado, do núcleo de financeiros da Timão e disse ao distinto alfaiate que estava a oferecer “nossas fontes de investimentos” colocando “à disposição do cavalheiro”, ele próprio um especialista a clientes de alto padrão do mercado financeiro e entre os porta-vozes que oferecia estavam a JT Capital, a Multiplicação – empresa especializada em crédito estruturado, uma XPX com atuação em alocação estratégica, um escritório craque em inflação de impactos, a Pedra Polida que cuida de cenários estratégicos de hedge; uma financeira, a Rubi, baseada em stablecoins, uma gestora de atuação de fundos, uma plataforma digital para remessas globais e que Vicente ficasse a vontade de em escolher e decidir.
O abnegado alfaiate e pensador, a essa altura escaldado com sua turnê para comprar um par de tênis, ainda em processo, em andamento, ouviu tudo pacientemente dando corda ao corretor Santos Delgado, afiançando, humildemente, que não tinha recursos para investir no mercado financeiro, mas Santos insistia que a dinâmica da captação no mercado comporta a todos, as oportunidades são imensas, e Vicente, comovido, disse que se ele quisesse aparecer no Boteco do Leco para saborear moelas e uma pinga da boa, de Abaíra, que aparecesse e o distinto agradeceu mas comentou que estava falando de uma plataforma on-line sediada em Singapura.
Ora, pois, Vicente nunca cortou um terno para cliente asiático, nem colou 1 real dos seus no mercado de capitais e, em Salvadores, nos dias atuais, não há sossego nem para tomar uma gelada sem ser assediado por esses especialistas, com licença da palavra, assim se expressou o pensador - pedindo mais uma gelada – “uns especialistas de merda que ficam apoquentando nossa vida, diariamente”.
Leco se aproximou do inquieto alfaiate vendo-o preocupado com algo e perguntou se iria beliscar alguma coisa. Vicente, filosofando, busca gozar com o cantineiro e disse que queria uma porção de bolinhos de arroz com talos e sementes sustentáveis.
Leco tirou a caneta da orelha, anotou o pedido e quando retornou a tábua do pensador pôs sobre a mesa uma porção de torresmos crocantes e uma dose de Salinas envelhecida em bálsamo.