Os Marujinhos Pataxó apresentam o álbum Cantigas de Roda Ancestrais, um trabalho que vai além da música para se afirmar como um gesto de preservação cultural e fortalecimento identitário. Fruto de um ano de oficinas realizadas na Aldeia Mãe Barra Velha, no sul da Bahia, o projeto reúne cantigas tradicionais, sambas indígenas e canções transmitidas entre gerações, em um processo que conecta infância, território e ancestralidade.
Ouça o álbum: https://go.nikita.com.br/CantigasdeRodaAncestrais_MarujinhosPataxo
Mais do que um registro fonográfico, o disco nasce de um encontro potente entre crianças e anciãos da comunidade, promovendo a continuidade de saberes que historicamente se mantém pela oralidade. Ao longo das faixas, o público encontra não apenas música, mas expressões de memória, afeto e espiritualidade, reafirmando o papel das novas gerações como guardiãs da cultura Pataxó.
No centro desse processo está a presença de Maria Coruja, anciã de 86 anos, mulher surda e sobrevivente do Massacre do Fogo de 1951, reconhecida como uma das principais guardiãs da memória cultural da aldeia. Foi a partir de seus ensinamentos que diversas cantigas foram retomadas, fortalecidas e transmitidas às crianças, que agora as registram em estúdio ao seu lado. Sua participação no álbum confere ao trabalho uma dimensão histórica e simbólica, ampliada também pela presença de outras anciãs da comunidade.
O projeto Memórias Ancestrais envolveu um amplo mapeamento cultural em 35 aldeias, resultando ainda em livro, documentários e oficinas. Realizado com apoio do IPAC/BA, o trabalho reafirma a importância de políticas públicas e ações comunitárias voltadas à salvaguarda do patrimônio imaterial, especialmente em contextos de vulnerabilidade e resistência territorial.
Compre o livro: https://bailerbooks.app.br/livro/memorias-ancestrais/
Assista “Tecendo Ancestralidade nas Linhas do Tucum”: https://youtu.be/EOWh5lSDt54
Assista “Cantigas de Roda Ancestrais da Aldeia Mãe”: https://youtu.be/wt7_9o3wMGw
O impacto da iniciativa ultrapassou o território local. O grupo Marujos Pataxó, da Aldeia Mãe Barra Velha, foi um dos vencedores do 38º Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade (2025), concedido pelo IPHAN. pelo trabalho de manutenção e revitalização do samba indígena e das cantigas ancestrais Pataxó. Eles receberam o prêmio em uma solenidade em Brasilia no dia 03/03, com presença de Coruja e uma apresentação do grupo.
A Aldeia Mãe, situada próxima ao Parque Nacional do Monte Pascoal, ocupa um espaço simbólico e real na memória do país: foi o primeiro aldeamento indígena do Brasil e continua sendo um ponto de referência e resistência. Permanecer ali, resistindo às pressões e ataques, é um gesto político, espiritual e cultural. É por isso que Memórias Ancestrais representa mais do que um disco: é um testemunho sonoro da força de um povo que transforma dor em arte e invisibilidade em voz.
O samba indígena, presente na formação do samba brasileiro no sul da Bahia, é aqui celebrado como ritual, memória e modo de vida. Na Aldeia Mãe, o ritmo não é apenas música: é espiritualidade e expressão coletiva da ancestralidade. As canções traduzem esse sentimento, com letras que falam da natureza, do campo, da fé e das lutas do povo Pataxó, tudo transmitido com a força e a pureza da voz das crianças.
Essa produção é parte de um esforço maior de resgate cultural iniciado pelo projeto Marujos Pataxó, que já lançou dois álbuns com músicas inéditas e um forte apelo pela demarcação das terras indígenas no Brasil. O projeto também lançou o clipe da música “A Força dos Encantados”, um remix assinado pela dupla Tropkillaz e o documentário Pataxi Imamakã – Aldeia Mãe Pataxó, atualmente em circulação por festivais de cinema, como o Festival de Trancoso 2024.
Mais do que registrar o passado, o projeto afirma a cultura como patrimônio vivo: crianças cantando com anciãos, mestres tradicionais reconhecidos como educadores e uma comunidade que reafirma sua identidade por meio da música, da memória e da palavra. Cantigas de Roda Ancestrais está disponível em todas as plataformas de streaming.