Cultura

ROSA DE LIMA COMENTA SAUDADE DAQUELAS BARRACAS. DIMITRI GANZELEVITCH

“Não devemos esquecer?”: - Já se passaram três décadas, mas a lembrança da beleza das barracas das festas de largo de Salvador ainda dói para quem valoriza as diversas formas de cultura popular
Rosa de Lima ,  Salvador | 11/04/2026 às 11:27
Saudade daquelas barracas, organização Dimitri Ganzelevitch
Foto: BJÁ

 

  Gosto de adjetivar livros fora do contexto da literatura formal clássica e apreciei a obra organizada por Dimitri Ganzelevitch sobre as antigas barracas das festas populares de Salvador como sublime, algo de uma beleza extrema que transcende o belo comum e causa admiração ou um sentimento mais profundo. E, nós, que conhecemos essas barracas, a frequentamos em tempos idos aos acompanharmos as narrativas de Dimitri, Gildete Clarinda das Virgens Silva (cordel), Ordep Serra Weslley Pontes e vermos as diversas fotos nos emocionamos.

  A literatura chega a cronista com emoção a flor da pele. Assim, qualquer leitor que ler os textos e olhar as fotos de “Saudade daquelas Barracas” (AZEVICHE Design Editora, 2026, Salvador, Bahia, formato 17.5 com x 22 cm, tradução dos textos em inglês “Longing for those Lovely Stalles”, edição e design gráfico de Maria Helena Pereira da Silva, desenhos Carybé, R$100,00 no portal da editora) certamente também vai se emocionar. Graficamente falando é uma obra de arte que se guarda e se consulta com frequência. Não daquelas que se põe em mesas para enfeitar salas e quase nunca se consulta.

  “Saudade daquelas barracas” é um documento vivo, belíssimo, e as fotografias de Ameris Paolini, Dimitri Ganzelevitch, Isabel Gouvêa, Louis Tardy, Lucia Guanaes, Marcel Guatherot (Acervo Instituto Moreira Salles), Márcio Lima, Maria Helena OS, Pierre Verger (Acervo Museu Pierre Verger), Valéria Simões, Voltaire Fraga (Acervo Museu de Arte da Bahia – MAB) completam o cenário e representam o que se chama no popular de “retrato fiel da Bahia”. Descrevê-las aos leitores, aqui nesta crônica, requer poesia, sensibilidade, e quem as vê sentirá aqueles momentos em que existiram e compunham o cenário das festas populares, hoje, sem elas, sem seus tamboretes coloridos, suas cortinas e pinturas um vazio, um oco do pau nobre.

   E o que nos diz Dimitri organizador do livro em sua apresentação intitulada “Não devemos esquecer?”: - Já se passaram três décadas, mas a lembrança da beleza das barracas das festas de largo de Salvador ainda dói para quem valoriza as diversas formas de cultura popular. Não podemos aceitar que o tempo dilua a necessidade que o povo tem de expressar sua sensibilidade, de criar suas referências estéticas e de organizar seus espaços de convívio”.

   É assim que, entre essas recordações o cordel de Gildete Clarinda das Virgens Silva cita que “Além de muito suor,/ Eram feitas com emoção/ Cada tenda tinha alma/ E cheiro de tradição.

   E segue com suas quadras que “Eram espaços de memória,/ De cultura e de calor,/ Onde o tempo virava dança,/ E o passado era puro amor; Essas barracas mostravam/ Expressões da cultura baiana/ Com bastante identidade/ Simples, mas muito bacanas.

  O antropólogo Ordep Serra em “A Festa de Largo e seus Horizontes: uma breve reflexão” comenta que “uma das coisas que caracterizam o perfil cultural de Salvador é a persistência de vastos ciclos de festas populares que transcorrem em praças, ruas e santuários. Desses ciclos o mais importante ocupa o verão; estende-se dos primeiros dias de dezembro ao carnaval. Embora as festas de largo sofram hoje ineludível decadência, em função de vários fatores (com destaque para a estupidez da política cultural do estado e do município), elas ainda são muito dignas de interesse. Se o modelo das festas em apreço é europeu e sua base de referência calendarial deriva do ano litúrgico católico, o que faz a singularidade delas é, sobretudo, a presença em seu seio de outros códigos rituais, de outras inspirações que as aviventaram e modificaram profundamente

  Ordep conceitua: “O povo que criou as festas de largo baianas tinha a graça dos encantados: vê-se aí a marca de uma gente apaixonada pela liberdade, que não se cansava de procurar. Merece respeito sua criação, fruto de energia infatigável de um generoso diálogo que ultrapassou severas barreiras, inventando formas novas e preservando antigas riquezas”.

   Para o antropólogo Ordep Serra “considera-lo como mercadoria turística, não passa de estupides”.

  Em “Respeito à Cultura Popular”, Dimitri Ganzeleviych, depois de comentar sua trajetória como apreciador e incentivador das barracas, ele que foi criador do Prêmio Flexa, 1985, e acompanhou as modificações impostas pelo mercado cervejeiro e seu fim, em meados dos anos 1990, diz que “ainda é possível reverter o desastre. Antes de qualquer coisa, doar a cada barraqueiro a posse física e definitiva e seu estabelecimento. Sob certas condições, claro, mas é essencial que o barraqueiro seja dono de seu instrumento de trabalho”.

  Lembra Ganzelevitch, marroquino que vive em Salvador desde 1975, 90 anos de idade, cronista, produtor cultural, ativista da cultura popular e defensor dos seus valores, que,
“na maioria das vezes quem trabalha e explora a barraca de festas de Largo é um núcleo familiar, nem sempre coordenado por um homem () Mas é evidente que as mulheres estão em igualdade com os homens”.

  Para concluir as narrativas do livro o advogado, arquiteto e urbanista Weslley Pontes em “Construção e Fé: identidade visual das barracas de festas populares de Salvador” assegura que “a identidade visual das barracas das festas populares de Salvador representa um dos mais significativos exemplos de arte popular brasileira”

   Em Salvador – conceitua Pontes – as religiões de matriz afro-brasileira em contato com o calendário litúrgico católico foram agentes diretos de uma transmutação do modelo festivo vigente. A associação de orixás com os santos católicos e outras práticas de herança africana foram capazes de gerar um novo tipo de celebração, afastando-se de uma matriz europeia.

  Na segunda quadra dos anos 1980 e inicio dos anos 1990 o fortalecimento da presença da indústria de bebidas, especialmente a das cervejeiras nos calendários festivos – diz Pontes – inaugurou um novo ciclo de perdas visuais. Zacarias João da Silva, em A Tarde, 6 de dezembro de 1985, disse “os barraqueiros não têm mais dinheiro, como antigamente, para poder enfeitar sua barraca, e o jeito é usar as bandeirolas de propaganda, que são de graça”.

    O inicio da pá de cal no túmulo da arte popular com o beneplácito do poder público ou, ao menos, sem esse poder se interessar e ajudar a manter a identidade visual da gente do povo, de sua arte, de sua maneira de agir e pensar, de entender o mundo e, hoje, quando vemos no livro “Saudade daquelas barracas” fotos da roda gigante e das placas do Theatro Las Vegas de ilusionismo e variedades bate uma saúde imensa e uma vontade enorme de assistir o espetáculo “Diana Moça que Vira Macaco” ou poder sentar na “Seja Tudo a Vontade de Deus” e saborear um sarapatel com pimenta de cheiro.

  Hoje, o que percebemos é que viramos todos japoneses e esse glamour popular, essa arte que emana da base, da raiz do nosso povo miscigenado desapareceu da cena e as festas populares, de uma forma geral, entraram no caminho da acentuada decadência, salvando-se uma outra na sua originalidade, na crença e na fé, como Santa Bárbara, e as demais descaracterizadas, carnavalizadas e sem o traço e a régua populares.

   O livro “Saudade daquelas barracas”, portanto, tem um imenso valor, um documento precioso e que pelo menos ajuda a preservar nossa memória popular.