Clementina é resiliente e reside na cidade criativa e se adaptará a essa nova reaklidade
Tasso Franco , Salvador |
13/02/2026 às 09:48
Clementina, a resiliente
Foto: SERAMOV
5O CARNAVAL DE CLEMENTINA
O Carnaval é uma das coisas mais sensacionais da vida. Clementina nunca esqueceu a frase dita certa ocasião por seu avô Juvenal, integrante do cortejo como cavaleiro do Fantoches da Euterpe em tempos idos do momo de Salvador, das plumas e paetês, das pranchas nas ruas com ‘deusas” e ‘deuses’ fantasiados exibindo-se nas suas plataformas, desfile do glamour, dos bailes dos salões onde a rua imitava os salões e os negros com suas batucadas eram um ponto de inflexão, de contraste.
Clementina é cética, pés no chão e não aceita “verdades” sem evidências. Por isso mesmo, desconfia dos superlativos, como sensacional, grandioso, absoluto. Vê o Carnaval da atualidade como um mar de oportunidades para incrementar negócios, mais dos outros, dos grandes e poderosos, dos artistas que mandam em tudo, do que dos seus.
Também enxerga no Momo uma esbórnia, um liberou geral e como se considera uma jovem mulher de 30 anos, em amadurecimento, conservadora, sente-se distante dessa Gomorra, à semelhança da cidade bíblica que foi destruída por Deus com uma chuva de enxofre e fogo. Teme que isso aconteça com Salvador.
Residente na Rua Gabriel Soares, Faísca, centro histórico da cidade e filha do guarda civil Apolônio, homem de princípios rígidos, temente a Deus e obediente ao pé-da-letra e da lei; e da costureira Clotildes, considerada a mão de fada em vestidos para bailes da Faísca, Largo 2 de Julho, Piedade e adjacências, madames que se apresentavam elegantes nas festas da Rua Democratas, no Fantoches, ou nos salões do Politeama de Cima, na Barra e vestiam Clô, grife de Clotildes, e não usavam Prada; e Clementina, por ensinamento da mãe se tornou estilista, criou sua própria marca, a Clé, de Clementina, omitindo o sobrenome que é dos mais comuns na cidade, dos Anjos Silva. As peças de seus crochés estão no topo da moda atual e presentes em várias vitrines.
Começou com uma coisa pequena no fundo de casa, ainda jovem, imitando a mãe e inovando no corte e na costura com seus traços, com seus desenhos de borboletas e isso quando transposto para os crochés deram vida as peças e lhes trouxe fama e dinheiro tanto que instalou um galpão no Tuiuti, rua próxima, e se tornou uma empreendedora de sucesso.
Ah! Como é difícil ser empreendedora nesta cidade, porém, ela conseguiu com esforço próprio, longe da burocracia enganadora governamental.
Clementina já pensou em deixar a casa paterna para se tornar livre, solta, vivendo a sua vida de solteira com mais prazer, mais sexo, imagina assim. Nesse campo é carente, por certo devido ao trabalho, a permanente ocupação e também por morar com os pais onde não pode levar um parceiro à cama ou amigos e amigas para um drink. Há limites na casa de Apolônio – ela sabe disso – o velho, não tão velho assim, ainda por beirar os 70, é chato, é intransigente, quer saber de tudo de sua vida, dos seus passos.
Soletra com saber autoritário: - Enquanto estiver sob meu teto tem que me dar satisfações.
Clementina detesta esse conceito. Releva-o pela verdade que encerra, que representa, e vê o Carnaval como válvula de libertação, de colocar as borboletas que ilustram seus crochés para voar, ela, a borboleta rainha, iluminada pelo farol da liberdade, a bailar à frente.
Ao mesmo tempo falta-lhe coragem, ânimo, pois acompanha no noticiário dos jornais, dos portais da internet e da TV – ouve pouco emissoras de rádio – que o Momo de Salvador é um palco LGBTQ do país e estaria se sustentando nesse viés difundindo-se o slogan “quem casou; se casou”. Isso é, Sodoma está dominada por essa tribo.
Numa foto posta numa das matérias do “A Noite” viu um homem lindo, másculo, barba delineada como um escocês portando uma camiseta com os dizeres: “É muito gostoso para ser hétero”.
Nada, no entanto, a demovia de ir ao Carnaval para tentar conquistar um amor. Clementina é dessas baianas que se chama “cabo verde” de um marrom claro na pele, lisa, cabelos compridos negros e olhos igualmente como pérolas negras, “olhos negros cruéis tentadores das multidões sem cantor” como reza a música de Moraes Moreira sobre o balançar o chão da Praça Castro Alves, quando o Carnaval ali era o glamour, a libertação, na atualidade transferido para o bairro da Barra onde está dançando o PIB baiano e também a inteligência.
Clementina analisa o Momo assim, a irreverência está concentrada na Mudança do Garcia e na nascente caminhada da Ladeira da Preguiça; e a possibilidade da conquista de um amor sustentável, verdadeiro, se deslocou do Campo Grande e da área onde reside, da Faísca, da Carlos Gomes, da Avenida Sete e do antigo e atrativo Larguinho do Relógio de São Pedro, para a Avenida Oceânica, a Marques de Leão, a Ayrosa Galvão, a Afonso Celso, até os nomes são diferenciados, dos antigos barões do Império que se foi.
Aprontou-se como personalidade da vida comum, de forma discreta, porém, com alguma ousadia na veste que comprou numa loja China do Forte de São Pedro que deixava partes do seu corpo transparente, roupa própria para o Carnaval. Jamais vestiria uma roupa dessas no seu dia-a-dia e que, embora expusesse suas formas físicas com dignidade e beleza, seus seios rijos como as lunetas do Farol de Santo Antônio a iluminar o mundo, e asas que imitavam uma borboleta presa às costas que proporcionam uma beleza sutil, dava-lhe leveza, asas libertadoras que voariam aos braços e abraços de um amor.
Nada parece ter dado certo na investida solitária e discreta de Clementina. Saltou do Uber nas proximidades de um shopping , seguiu andando pela Frederico Scmidt até pegar a Afonso Celso e desembarcar no coração inicial da folia no circuito Dodô, Barra-Ondina, posicionando-se no Largo do Farol e via coisas belas da cidade criativa que se mostrava Salvador, tolerante com uma diversidade enorme de tipos humanos, com talento dos seus artistas e músicos se expondo ao sol e a flor da pele, e tecnologia com inovações nos mamutes eletrizados, nos front-lights e neons exibindo comerciais das empresas.
Quem dera – pensou consigo mesma – que a marca Clé estivesse estampada na cabeceira de algum daqueles trios, as suas peças em croché, suas borboletas a pedir passagem e sua empresa a fechar negócios. Ficou entusiasmada ao ouvir uma cantora entoar a canção “O Canto da Cidade” evocando a si a estrofe “Não diga que não me quer/não diga que não me quer mais/Eu sou o silêncio da noite/ o sol da manhã.
Imaginava coisas também além dos negócios, o afeto, algo que partisse de um folião, de algum Dom Juan no estilo do personagem espanhol criado por Tirso de Molina, intrépido, sedutor, e eis ela, ali, com as asas das borboletas bem abertas para acolhe-lo.
Cantou, dançou, saracotiou, requebrou, mas, nada aconteceu além de olhares pouco pecaminosos e assim terminou seu Carnaval, antes de cinzas chegar, pois, recolheu-se a casa da Faísca a cuidar dos desenhos de suas borboletas. A cidade criativa, tolerante, tecnológica veio consigo.
É resiliente. Pensa ressurgir no Carnaval 2027 mais aberta, mais tolerante consigo mesma e com suas borboletas da próxima vez vai exibi-las em neon, mais criativas e tecnológicas e com as cores do arco íris.