Cultura

CRUZ DAS ALMAS DESBANCA PAPA-JACAS DE ITABUNA POR WALMIR ROSÁRIO

Walmir Rosário é jornalista, advogado e radialista
Walmir Rosário , Salvador | 13/02/2026 às 10:34
Cruz das Almas, a papa jaca da Bahia
Foto: PMCA
   Psicologicamente estou arrasado, abalado ou tantos sinônimos existam para classificar meu estado depressivo. E tudo começou na manhã desta segunda-feira (9), durante o café-da manhã, quando, inadvertidamente, passei a olhar o noticiário no celular. Senti uma punhalada, peixeirada, um golpe profundo no peito. Minhas vistas escureceram, fiquei sem ação porvários minutos. Foi preciso ser chamado à atenção por minha mulher para saber o que sepassava.

  Ainda sem me recuperar do tremendo golpe, apontei o celularpra ela e disse: “Leia, veja as fotos”. Parecia o fim do mundo. Logo no título estava estampado: ECOJACA 2026 É SUCESSO E ATRAI VISITANTES DE VÁRIAS CIDADES. A foto estampava mesas cercadas por multidões comendo jacas em fartura. Só que não em Itabuna e sim em Cruz dasAlmas, no dia anterior.

  Há quase dois anos que me preparo para um evento deste tipo em Itabuna, cidade tida e havida como a capital da jaca, inclusive com direito a menções e referências nos livros do conterrâneo Jorge Amado. Mas a questão não parava por aí, e a rivalidade entre as cidades de Itabuna e Ilhéus, dão prova real desta hostilidade, em que se intitulam Papa-jacas e Papa-caranguejos, respectivamente.

  De minha parte contribuí para manter a tradição e até escrevinhei uma crônica sobre o tema “Guerra e Paz entre papa-jacas e papa-caranguejos”, numa referência ao tema, sempre em voga entre itabunenses e ilheenses, uma tradição de mais de século.

   O que antes parecia uma pretensa ofensa moral se transformou em gentílico. Tempos de paz! O publicitário itabunense Afonso Dantas foi bastante perspicaz ao criar camisas com os temas papa-jaca e papa-caranguejo, que passei a usá-las com todo o garbo, aguardando apenas e tão somente uma oportunidadedeste tipo da realizada em Cruz das Almas para exibi-las solenemente.

  Enquanto o evento não era programado eu apenas desfilava. Lembro, ainda, de Pinguim e Bel, lá pras bandas do Bar de Leto, no bairro da Conceição; eu e Cláudio da Luz no Beco do Fuxico fazendo as honras dacasa. Em vão. Além de exibir as camisas, por aqui me contento com as jacas moles e duras compradas nas feiras-livres, às quais me dou ao luxo de degustá-las solenemente a partir do café-da-manhã.

   Admito que não esteja a chorar o leite derramado, mas me sinto acabrunhado enquanto via as fotos e lia o texto oficial ressaltando com louvor o sucesso do evento, haja vista o grande número de cruz-almensese visitantes. Eles degustavam com a satisfação estampada nos olhos, aliada à gulodice das desejadas jacas, desde o seu estado in natura até nas receitas culinárias.

  Mesas lotadas de pratos com tira-gostos dos mais diversos, doces e salgados, todos elaborados a partir da jaca. Bala, cocada, pudim ,brigadeiro, trufa, sorvete, suco, pastel, coxinha, quibe, passando pelospratos salgados e de sustança para qualquer cidadão. 

  Pense aí no vatapá, feijoada, moqueca de camarão, todos esses pratos tendo a jaca como elemento principal, estrela. Pelo que li, uma competição chamou a atenção de muitos participantes,que comiam jacas com bastante gulodice – como requeria a ocasião e o estômago de cada um deles – para vencer a gostosa peleja. 

  Ainda fui informado que somente um filho de Deus comeu mais de dois quilos de jaca – sem os caroços, é claro – e ainda foi beliscar nas mesas de culinária. Confesso minha falta de conhecimento em relação a Cruz das Almas e ao povo cruz-almense sobre esse gosto especial por jaca, mas tenho cá minhas intuições. 
  
  Acredito que a popularização da jaca nesta cidade do Recôncavo tenha sido obra dos estudantes de agronomia de Itabuna e cidades circunvizinhas nos anos em que por lá permaneceram, o que sejustifica. Entretanto, não consigo compreender como o itabunense consegue perder a primazia de se consolidar como um autêntico papa-jaca, fruta abundanteem nossa Mata Atlântica, embora seja uma árvore alienígena, forasteiraadaptada e aclimatada entre nós. Originária da Índia, a jaqueira –Artocarpus heterophyllus – é rica em fibras, vitaminas e minerais, e versátilna culinária.

  Bem que o poder público municipal e as instituições que representam oe mpreendedorismo de Itabuna poderiam considerar a importância da jacana história da cidade e decidam promover evento de tal porte por essasbandas. Nada melhor para consolidar o itabunense como um autêntico Papa-jaca – de fato e de direito – e permitir a oportunidade de trajarmosnossas camisas em tão solene efeméride, recuperando nossa autoestima.