Cultura

ROSA DE LIMA COMENTA A HISTÓRIA POR TRÁS DA CRIAÇÃO DO PÃO DELICIA

O livro em formato 18cm x 27cm capa dura é também uma obra de arte, bem produzido, contém várias receitas de comidas libanesas com fotografias, desde o fatouche a esphia.
Rosa de Lima , Salvador | 17/01/2026 às 10:50
A história por trás da criação do pão delicia
Foto: BJÁ
  O livro editado pela família Abboud contando a história do pão delicia com prefácio do jornalista Adelmo Borges, além da história em si da culinária que está na raiz da família com o pioneirismo de Laila Eliazigi Abboud, a matriarca, narra, também – o que nos pareceu complementar e muito importante - passagens de imigrantes libaneses em Salvador que chegaram no final do século XIX e inicio do século XX e se estabeleceram para sempre.

  São lembranças descritas sobretudo por Laila (início do século XX) que trazem à luz do conhecimento mais amplo como essas famílias conseguiram sobreviver e se adaptarem a uma terra cuja cultura era completamente diferente das suas. 

  E quando ela, nascida em Olinda, Pernambuco, 1927, narra a trajetória dos seus pais Alexandre Demétrio Eliazigi e Rada Elias Nussalab, que chegaram ao Brasil em portos diferentes, 1924, Salvador e Recife, e depois se encontram no amor eterno e vieram morar em Dias D’Avila e posteriormente Salvador, eis a saga, a história viva da imigração.

   O Monte Libano onde seus pais nasceram era também conhecido como Região Síria Libanesa integrante do Império Turco Otomano cuja independência como país só vai acontecer em 1943. Essa região tinha (e ainda tem) uma história muito antiga onde conviviam cristãos e muçulmanos muitas etnias e crenças. As guerras e conflitos por lá parecem nunca cessar e mais recentemente registraram-se a guerra civil libanesa (1975-1990) e os recentes bombardeios de Israel em integrantes do Hezbollah, em Beirute, 2020, considerada a Suissa do Oriente.

   Veja, pois, que a jornada dos Abboud na Bahia traz consigo uma história de milênios, de uma cultura totalmente diferente do Novo Mundo, onde vieram viver (e morar para sempre) numa terra habitada por portugueses e negros. 

  E nessa diáspora, segundo Laila, a visita que Dom Pedro II fez ao Monte Líbano em 1876 teve uma forte influência na mudança dos seus pais para o Brasil, uma vez que o imperador brasileiro assegurava proteção riquezas no Novo Mundo e isso representou uma nova esperança para os cristãos libaneses que viviam as turras com os muçulmanos, exatamente quando ocorreu no Monte Libano massacres de cristãos numa guerra santa que parecia não ter fim. 

  Os primeiros libaneses chegaram ao Brasil a partir de 1880 e como ainda integravam o Império Turco Otomano eram chamados de turcos, o que para muitos era uma ofensa. Em 1887 já funcionava um consulado em SP e na primeira década do século XX os libaneses já eram identificados dessa maneira (e não mais como turcos) e já dominavam o comercio de tecidos e armarinhos nos centros do Rio e São Paulo, comerciantes natos que são.

   Elias e Rada se estabeleceram em Salvador, após Dias D’Avila. ”Meu pai se tornou mascate ao chegar no Brasil e ia com frequência a Salvador, de trem, comprar produtos para vender em Dias D’Avila. () Foi nesse comércio comum na época, de tecidos e miudezas, que o meu futuro marido foi apresentado a meu pau. Os dois se conheceram na calçada, em frente da loja do meu futuro marido, onde mais pai comprava e vendia seus produtos”, confessa Laila.

   Uma componente da cultura árabe (não comum aos habitantes da Bahia) se verifica quando Laila se casa com Mikhaiel Jabbour Abboud : - Não posso dizer que foi um amor arranjado, mas um casamento cuidadosamente planejado, de acordo com a nossa cultura, pelos olhos atentos de meu pai, que viram em meu futuro marido, alguém que estaria disposto a cuidar de mim, como eles gostariam que fosse, depõe Laila.

  Houve, no entanto, até essa concretização do casamento, a mudança de Elias e Rada para Salvador indo morar no Centro Histórico, na casa de Olga Muhana, depois se mudaram para a Ladeira do Pelourinho, e o velho Elias (o mascate) levava uma mala de couro para o Comércio onde vendia tesoura de unha, linha, botão e outros produtos similares. Depois, no Comércio, se estabeleceu como lojista e entre um período de outro, Rada produzia pastéis que as meninas (filhas) iam vender nas ruas. Vida difícil, dura, de trabalho incansável.

  “Foi por causa dela que me tornei quem eu me tornei. Eu aprendi a cozinhar muito jovem. Não só o pastel, mas o quibe no fogareiro, feito de carne com a gordura do boi defumado, a comida árabe tradicional, o pão árabe e os doces libaneses, dos quais se destacavam a belewa e o maamul”, relata Laila e acrescenta: - Afinal, o que a libanesa tem? “O mesmo gingado que a baiana” Isso favoreceu os nossos quitutes a fazerem sucesso na Bahia. E, bem depois, o meu famoso Pão Delícia”.

  Eis, portanto, o processo de aculturação em andamento e Laila percebe isso mesmo sendo uma mulher árabe. Ela própria diz no livro: - Não fácil nascer numa família árabe, há uma exigência a mais. É claro que, o amor e a gratidão acabam compensando as diferenças em relação às chamadas culturas, mas se sabe que a educação árabe para as mulheres sempre foi muito rígida. Se ainda hoje, alguns países proíbem mulheres de saírem às ruas com o rosto descoberto, imaginem na década de 1940 no Brasil! () A mulher árabe era criada para cuidar do marido, da casa e dos filhos. Não foi diferente comigo e com as minhas irmãs. Nem cm minhas filhas – confessa.

  Laila se casou com Mikhaiel Abboud em 1947 imigrante de origem rural da região de Jdaidet uma união que era também familiar pois moravam com o casal os pais, a sogra (Rarhme) e a cunhada Rilenel. Mikhaiekl e irmãos arbriram uma loja no Comércio (Ásia Menor), um armarinho. “Tivemos uma vida juntos, exatamente como eu esperava ter; de trabalho. Filhos, união, amor, harmonia e fé.

  As mudanças da família do centro histórico para o Boulevard América, bairro de Nazaré, em 1958, mostra ascensão social e econômica da comunidade árabe indo residir num bairro classe média alta emergente, e também como era Salvador, mesmo num local desses, onde a falta d’água era uma constante. Já com filhos, Laila revela que “meus filhos precisavam buscar água no Dique do Tororó, na horta de um senhor chamado Ernesto () As crianças subiam a ladeira do Boulevard América, com a lata d’água na cabeça. () Tempos difíceis, mas que todos encarávamos com tranquilidade.

  Mikhaied teve o primeiro infarto em 1967 e parou de trabalho, o rendimento da família caiu e “foi ai que abrimos uma empresa”. Devota de Santa Bárbaras (santa turca também muito querida em Salvador) a essa altura a família Laila-Abboud contava com 7 filhos: Samir (1948), Jalil (1949), Suraia (1950), Samia (1952), Latif (1953), Miguel (1958) e Paulo (1967).

   A empresa se estruturou, cresceu e se tornou uma referência graças a força de trabalho da família, mas, sobretudo de Laila. “Foi no Boulevard América que comecei com meus primeiros clientes, em especial os vizinhos () Tinha uma vizinha, a Lucy Maltez, que sempre encomendava bandejas. Ela foi importante na divulgação da qualidade da minha comida. () Fiz cursos na Kate White e foi onde aprendi a receita de pão recheado. () Estava criado meu pão. () De 1973 a 1983, a empresa atendia o Paes Mendonça, e já tinha 10 funcionários e um forno industrial.

   Bem, não dá pra contar tudo o que está registrado no livro. Diria que contém toda a história da família Laila/Abboud, dos seus filhos com depoimentos de cada um, um retrato da comunidade árabe/libanesa em Salvador, seus costumes, crenças, união familiar, etc, traços reveladores da cidade do Salvador e o lado empresarial, hoje, a cargo dos filhos do casal.

  O livro em formato 18cm x 27cm capa dura é também uma obra de arte, bem produzido, contém várias receitas de comidas libanesas com fotografias, desde o fatouche a esphia. Foi lançado pela família em solenidade no Palacete Tira Chapéu e pode ser encontrado nos portais da internet.