Cultura

ROSA DE LIMA COMENTA A RAZÃO NA HISTÓRIA, DE FRIEDRICH HEGEL

Em “A Razão da História” tem-se uma visão “hegeliana” que se mantém atual, evidente, com contestações, novas teorias e novos saberes. Mas, até para poder se situa nesse emaranhado de pensamentos é importante ler Hegel
Rosa de Lima , Salvador | 30/08/2025 às 07:10
Livro do filósofo alemão Friedrich Hegel
Foto: BJÁ

É sempre recomendável ler os grandes escritores, os mestres da literatura. Deles retiramos ensinamentos que nos são úteis para a vida e quando não adotamos alguns dos conceitos que elaboram, ao menos, tomamos conhecimento deles e acendemos o sinal de alerta na aceitação ou não. Agrega, em geral, mais conhecimentos.

Georg Wilhelm Friedrich Hegel filósofo alemão do século XVIII e inicio do século XIX com sua Fenomenologia do Espírito – marco da filosofia mundial e do pensamento idealista alemão que, no decorrer dos anos, se tornou o “idealismo absoluto” e gerou muitos debates - é uma dessas sumidades que estão sempre sendo lidos e discutidos.

Vamos comentar sua obra mais entendível para o grande público intitulada “A Razão na História” (Editora 70, Lisboa, Portugal, 2020, tradução Artur Mourão, 255 páginas, R$50,00 nos portais da internet) em que aborda a história universal filosófica, em sua amplitude mais larga uma representação geral e determinada da história universal sob o pensamento da razão, descrita de um modo racional.

Relaciona o autor duas formas relativas à convicção geral de que a razão governou e governa o mundo e, por conseguinte, também a história universal, porque tais formas proporcionaram-nos ao mesmo tempo a ocasião de aflorar mais de perto o ponto central da dificuldade e de aludir ao que depois de mencionar. 
Uma é o fato de que o grego Anaxágoras foi o primeiro a dizer que o Nus, o entendimento geral ou a razão, governa o mundo – não uma inteligência como razão autoconsciente, nem um espírito como tal; ambas as coisas se devem distinguir muito bem entre si”.

Se alguém afirma que possui a religião no sentimento, e se outro diz que no sentimento não encontra Deus algum, ambos têm razão – comenta Hegel e questiona: - Qual é, pois, o Plano da Providência na História Universal? Chegou o tempo de o conhecer? Quero aqui indicar apenas essa questão geral. 

E conceitua: - Ora o característico da religião cristã é que com ela já chegou esse tempo; isto constitui a época absoluta na história universal. Revelou-se a natureza de Deus. Se se disser “nada sabemos de Deus” então a religião cristã é algo de supérfluo, algo que chegou demasiado tarde, algo de degenerado. Na religião cristã sabe-se o que Deus é. O conteúdo, sem dúvida, existe também para o nosso sentimento, por ser um sentimento espiritual, é também pelo menos para a representação, não apenas para a representação sensível, mas igualmente para a pensante, para o órgão peculiar em que Deus existe para o homem.

  Adiante, falando sobre “a realização do espírito na história” Hegel comenta que, em primeiro lugar devemos observar o objetivo do ser, uma vez que a “história universal ocorre no terreno do espírito, pois o mundo compreende em si a natureza física e a psíquica” e destaca que a natureza física está relacionada diretamente com o inicio da história (a narrativa) no plano do natural, o meio ambiente, “mas o substancial é o espírito e o curso de sua evolução”.

 Eis pois onde o debate se aprofunda, pois, embora o espírito seja essencialmente o indivíduo, na história universal “não lidamos com o singular ou com a limitação e a referência à individualidade particular”. 
Intromete-se no curso da história, o coletivo, a massa, o povo, cujos espíritos são distintos: “O espirito com que lidamos é o espírito do povo. Mas os espíritos dos povos diferenciam-se, por seu turno, segundo a representação que para si constituem de   si próprios”. Ou seja, cada povo tem sua essência espiritual, sua cultura, suas crenças e um se distingue do outro.

- Um povo faz progresso em si mesmo, experimenta o avanço e a decadência. O que está mais à mão é aqui a categoria da formação; da formação superior e da deformação, esta última é para o povo produto ou fonte de sua ruina. () Todo o indivíduo é filho do seu povo num estágio determinado da evolução deste povo. Ninguém pode saltar por cima do espírito do seu povo, como também não consegue saltar por cima da Terra, que é o centro da gravidade.

 Em “Os Meios de Realizações” – sub tema Hegel contextualiza a individualidade, os seus fins e suas satisfações diz que “o homem é fim em si mesmo unicamente pelo divino que nele há – pelo que desde o inicio se chamou razão e, na medida em que essa em si ativa autodeterminante, a liberdade. () O selo da elevada e absoluta vocação do homem é que ele sabe o que é bom e mau, e que seu é justamente o querer do bem ou do mal, numa palavra, que pode ser culpa, não só do mal, mas também do bem, e não culpa disto e daquilo, mas a cultura do bem e do mal inerente à sua liberdade individual”.

Adiante, Hegel fala do papel do Estado, “centro de outras vertentes concretas do direito, da arte, dos costumes e das comodidades da vida” e a liberdade torna-se “objetal e realiza-se de modo positivo. () Só no Estado é que o homem tem existência racional. () O homem deve ao Estado tudo o que ele é, só nele tem a sua essência. Só pelo Estado tem o homem todo o calor, toda a sua realidade efetiva e espiritual”.

  Para concluir o livro traz um apêndice intitulado “O contexto natural ou o fundamento geográfico da história universal” onde analisa O Novo Mundo, O Velho Mundo, A África, A Ásia e a Europa e situa obre a Europa que “o Estado Europeu não pode ser verdadeiramente um Estado Europeu, se não estiver ligado ao mar. No mar reside o mais além inteiramente peculiar que falta a vida asiática, o mais além da vida adiante de si mesma. O principío da liberdade da pessoa singular tonou-se assim o principio da vida política europeia”.

  Lembrando que Hegel viveu entre 1770/1831 quando a visão global geográfica é de que o Sol nasce no Oriente (a luz e também a sabedoria) e se punha a Ocidente, a Ásia como o começo e a Europa como meio sendo a primeira figura do espírito oriental. 

  Em “A Razão da História” tem-se uma visão “hegeliana” que se mantém atual, evidente, com contestações, novas teorias e novos saberes. Mas, até para poder se situa nesse emaranhado de pensamentos é importante ler Hegel.