Durante os primeiros 4 anos seu núcleo central abriga uma população entre 500 a 1000 individuos
Tasso Franco , Salvador |
28/03/2025 às 12:25
Gravura holandesa sem identificação do autor
Foto: Anonymus gravura
Salvador completa 476 anos de existência neste sábado. A cidade é uma das capitais mais pobres do Brasil com uma população de aproximadamente 2.600.000 pessoas majoritariamente negro-mestiça (80%) e brancos (20%). A origem de sua pobreza vem desde sua fundação com o modelo colonial estabelecido pela Coroa Portuguesa de exploração da terra o mais que fosse possível em recursos naturais e a aniquilação do que chamavam de selvagens, os tupinambás que estavam aldeados em seu território.
Essa aniquilação tinha várias frentes: na cultura, na religião com imposição do catolicismo pelos jesuítas e na força àqueles que não se submetesse ao novo regime. Os tupinambás não são povos originais como dizem hoje em dia. Esses povos chegaram ao Brasil há 10 mil anos pelo Estreito de Bhering e se espalharam no território, da Amazonia ao Sul.
Os que habitavam no entorno de Kirimurê - a Baía de Todos os Santo - eram paupérrimos. E viviam da pesca e da caça. Imagina se iriam aceitar trabalhar na construção de uma cidade fortaleza e nos engenhos de açúcar. Alguns até toparam, em serviços auxiliares de apoio, uma vez que não conheciam as mínimas técnicas construtivas em adobe, olaria, ferro e madeira e a maioria fugiu.
Os portugueses tiveram que se virar sozinhos com os carpinas, pedreiros e artífices que trouxeram de Portugal a soldo pago pela Coroa, alguns deles flamengos e espanhóis.
A CIDADE DE 500 A 1000 HABITANTES
A cidade fortaleza foi erguida num quadrilátero demarcado por portas Norte (Santa Catarina) na altura da atua praça da Sé; Sul (Santa Luzia) atual praça Castro Alves; Oeste, na altura do Beco do Gasto; Leste, Pau da bandeira; com algumas ruas demarcadas, praça, sede do governo, câmara e cadeia, igreja, casas e abrigou entre 1549/1553 na gestão Thomé de Souza entre 500 a 1000 indivíduos nesse núcleo central.
O restante da população em torno de 5 a 10 mil pessoas vivia no entorno: os tupinambás habitavam as aldeias do Monte Calvário (Santo Antônio Além do Carmo), São Thomé de Paripe, São Sebastião (São Bento), Piedade, São Simão (Forte de São Pedro e Passeio Público), e aldeia dos Franceses (Rio Vermelho), Santiago (Pirajá). Havia, ainda, o povoamento do Diogo Caramuru (estimado em muitos indivíduos sendo 9 portugueses), o bairro da Praia (Nau das Amarras) onde ficava a rancharia dos peões e degredados, estes, estimados em 400.
Os marinheiros, grumetes, mestres, etc, e até Thomé de Souza no primeiro mês de construção da cidade dormiam nas naus. Souza se queixava com frequência (em cartas) ao Rei Dom João III que se “enfadava de labutar com os degredados e queria voltar para o Reino”. Mas, só voltou em maio de 1553 com a chegada do seu substituto Duarte da Costa.
Fernão Cardim em “Mouers & Costumes des Indien du Bresil” (1584) publicação em francês cita que o Brasil tinha, em 1580, 57.000 sendo 18 mil indígenas e 14 mil escravos; e Salvador “capitale du Brésil 15.000 habitantes, sendo 3000 portugueses, 4000 escravos africanos e 8 mil indígenas. Parece-nos, em relação a Salvador, um número chutado e que não se traduz nos dados oficiais da história.
O que a história registra com dados oficiais é que na armada de Thomé de Souza vieram entre 1.000 e 1.200 indivíduos (os dados são imprecisos) sendo 400 degredados, 320 homens em armas (militares e mercenários) app 100 artífices (pedreiros, carpinteiros, oleiros, etc), app 100 marinheiros, grumetes, pescadores, calafates, etc; e o restante burocratas.
No território da Vila Velha do Pereira (Barra) na empreitada desse donatário estima-se que, com ele, vieram 200 europeus (o dado é impreciso) quando chegaram a implantar 2 engenhos (açúcar e algodão) em área hoje subúrbio ferroviário de Salvador.
OS CONSTRUTORES
A construção da cidade fortaleza obedecendo a planta de Miguel de Arruda, mestre de Obras Reais, seguida pelo mestre da Fortaleza e Obras de Salvador, Luís Dias, deu-se nos dois primeiros anos na ‘seca’ sexual (1549/1550). Na armada de Thomé de Souza só existia uma mulher (serve do comandante) e a queixa dos colonos era enorme. Na prática, o que amenizou o problema foram as nativas que, em alguns casos, faziam sexo no bem e noutras eram derrubadas na mata e estrupadas.
O frei jesuíta Carlos Bresciani, autor do livro “A Primeira Evangelização das Aldeias ao Redor de Salvador” (1549-1569) fala das aldeias, mas, não quantifica. Observa, porém, “que a aldeia de São Sebastião ou do Tubarão (mayoral, no atual São Bento) mudou-se para a aldeia de Santiago, acima de Pirajá, em 1558”. Ou seja, os tupinambás foram se afastando do núcleo central da cidade fugindo para o interior.
A construção inicial da cidade do Salvador, portanto, vai ser feita pelos artífices (com soldo mensal) e europeus homens degredados insubmissos (mas obrigados a trabalhar na força) e poucos tupinambás.
Segundo Theodoro Sampaio em sua “História a Fundação da Cidade do Salvador” entre os que mais se distinguiram nas obras foram os pedreiros Fernão Gomes, Belchior Gonçalves, Francisco Gomes, Gaspar Lourenço, Ruy Gonçalves, João Fernandes, Francisco Gonçalves, Affonso Fernandes, Diogo Peres (sobrinho de Luís Dias, o mestre das obras), Diogo Gonçalves, Bartholomeu Rodrigues Peres e Pero de Carvalhães.
Os carpinteiros foram Gaspar Pires, João Rodrigues de Ponte de Lima, mestre Nicolau (carpinteiro da Ribeira), Amador Pinto, André Affonso, Pero Gonçalves de Tojol (também da Ribeira), André Affonso (da caravela Rainha), Antônio Teixeira (especialistas em casas).
Oleiros para telhas e tijolos haviam dois: Pero Moniz e Pero Martins; caieiros, Pero Jorge, Affonso Jorge e outros. Theodoro Sampaio registra 2 negros: Ignácio Dias (serrador de madeira); Christovão, grumete da Caravela Rainha; mas, há citação de que na tropa armada havia portugueses, flamengos (holandeses), castelhanos, italianos, galegos e alguns homens de cor.
A TROPA E A OBRA
A tropa era de mercenários costume muito comum nessa época. Homens que já tinham a prática de guerrear. A Corte temia os tupinambás diante do que se espalhou em Lisboa com a morte de Pereira Coutinho, o donatário. Quando Thomé viu a pobreza dos tupinambás aldeados no São Bento, Piedade e Gamboa/Passeio Público sentiu que não correria risco algum.
Os 320 homens em armas ficaram ociosos, pois, eram pagos pela Coroa para serem soldados, espingardeiros e bombarderos (artilheiros). Os soldados ganhavam 300 mil reis/mês, os espingardeiros (atiravam em arcabuzes montados em forquilhas) 600 mil reis/mês e os artilheiros (para os canhões) 900 mil reis/mês e são citados somente 3 (flamengos); Joane de Barels Ruhal, Anrique de Niberg e Hathias de Burgos (palavras aportuguesadas);
Os espingardeiros somavam 24, a maioria portugueses, mas, havia espanhóis, entre eles, Diogo Galego de Toledo, João Garcia (de Salamanca), Martinho de Burgos (biscainho) e Antônio de Aragão e Bartholomeu Peres; e os lusos Jorge Fernandes, Paulo Rabello, Francisco Rodrigues, Gaspar de Maia, Braz Dias (de Évora), Diogo de Veloso, Francisco Bicudo, Pero Costa, Estevão Botelho, Baptista Fernandes, Vasco Gonçalves, João Rodrigues, Vasco de Andrade, Estevam Denis, Pedro Alvares de Bobadella e outros.
Nos primeiros dias, até a escolha do local para fundar a cidade, Thomé de Souza, o mestre de Obras, Luis e mais uns poucos vinham da Vila Velha do Pereira (Barra) até o centro andando e voltavam para dormir nas naus. Quando foi desmatado o local e construído os primeiros abrigos em palha ele determinou que naus adentrassem pela Baía de Todos os Santos mais próximas da fortaleza a ser construída e assim nasceram o cais das Amarras e o bairro da Praia e mais a ermida para Nossa Senhora da Conceição (hoje, basílica).
Armou-se também uma rancharia para os peões nas proximidades do cais (atual Conceição, Preguiça) e a subida (e descida) para o altiplano se dava pelo atual Pau da Bandeira.
Na armada foi pensado em tudo e tinha pescadores (para dar apoio logístico), um vaqueiro, dois carreiros e operários braçais que ganhavam entre 330 reis e 520 ao mês. Na empreitada a Coroa investiu app 400 mil cruzados (1;4 tonelada de ouro) e os graduados recebiam soldos mensais mais altos como Pedro Borges (Ouvidor Geral), Christovão de Aguiar (que fez engenho de açúcar em Água de Meninos), Almoxarife do Armazém – ordenado de 50.000 reis por ano; Jorge de Valadares (primeiro médico), dois mil mês de ordenado; Antonio Cardozo de Barros, provedor mor da Fazenda (ganhava 200 mil reiis anuais); Pero de Gois , capitão mor do mar da Costa do Brasil e muitos outros.
Ou seja, em Salvador foi montado uma espécie de vive-reinado (assim, posteriormente aconteceu no Brasil, mais adiante onde se misturaram a eficiência administrativa com a corrupção, disputa de poder e assim, sucessivamente. O que, segue até os dias atuais.
CHEGARAM AS MULHERES EUROPEIAS
Tem dois fatos ainda relevantes nesse contexto inicial: em 1550, Dom João III enviou uma nova armada sob o comando de Simão Gama, com um enorme galeão (na volta levava madeira) fundador da igreja da Misericórdia, onde está sepultado, viagem que trouxe o bispo Pedro (Pero) Fernandes Sardinha (quem nomeava o bispo era o rei) e mais 4 sacerdotes CJ; e em, 1551, uma nova armada comandada pelo capitão Antônio de Oliveira Carvalhal trazendo dezenas de mulheres do Mosteiro das Orfãs do Donna Rainha Leonor.
Era a nau mais esperada e festejava e a ordem do rei era casa-las imediatamente com os colonos. Ainda assim, eram poucas mulheres para muitos homens. Nessa armada vieram escravos para trabalho urbano em casas.
Salvador, portanto, nasceu dessa forma, aos trancos e barrancos, mas também de maneira profissional com planta e burocracia estatal implementada (sede do governo, sede da Câmara do Senado, Alfandega, Ouvidoria, Hospital) e uma mistura de raças digna de nota: europeus de várias nacionalidades, tupinambás e negros africanos. E segue assim até hoje, agora, com a introdução de um novo elemento os asiáticos da China e da Índia. (TF)