Até hoje nenhum historiador conseguiu descobriu quem o trouxe a Baía de Todos os Santos, entre 1505/1510
Tasso Franco , Salvador |
24/03/2025 às 10:29
Quadro de Henrique Passos que retrata Diogo e Catharina (do jornalista TF)
Foto: BJÁ
A história de Salvador que completa 476 anos tem algumas curiosidades e fatos que ainda estão longe de serem esclarecidos, o principal deles como foi que Diogo Álvares Correia, o qual, posteriormente se transformou no "Caramuru" graças ao poema épico do frei Santa Rita Durão, escrito em 1781 e que criou essa lenda 200 anos após a morte desse personagem, chegou a Baía de Todos os Santos, por volta de 1505/1510 e quem o deixou aqui.
Nenhum historiador até hoje conseguiu desvendar esse mistério e diria que, como jornalista pesquiso o assunto há muitos anos, já escrevi um livro intitulado Catarina Paraguaçu, a mãe do Brasil (Editora Relume Dumará, 2001), estive em Viana do Castelo (sua provável terra de nascença), Portugal, 2000; e em Saint Malo, França, 2022, nas suas possíveis trilhas e nada consegui de documentação nem primária (original) nem secundária (de livros).
Trabalhamos, pois, todos os pesquisadores com suposições as mais aproximadas. Ao que tudo indica. Diogo teria sido deixado na Baía de Todos os Santos pelo navio francês comandado por Binot Paulmier de Gouneville navegador que fundou a localidade de São Francisco do Sul, SC, e por lá aportou em 1504.
Gonneville retornou à França em 3 de julho de 1504 e levou consigo um dos filhos do chefe tribal local (Arosca), Iça-Miriam, e mais o nativo Samoa, qual morreu de escorbuto no retorno. Ficou de retornar em 20 luas, porém, não conseguiu financiamento para nova viagem e Içá-Mirim se afrancesou, se tornou Essomeric e viveu o resto dos seus dias na França, casado e com filhos franceses.
Essa história está bem pesquisada pelos historiadores da Universidade de Santa Catarina e São Francisco do Sul é uma localidade histórica.
No retorno a França, a nau de Paulmier (L’Espoir) atracou na Bahia de Todos os Santos e teria sido neste momento que Diogo foi deixado entre os tupinambás para conhecer os costumes locais e prospetar negócios. Paulmier não convenceu os financistas de Dieepe que retornar as terras do Brasil era um bom negócio porque além de Içá-Miriam (prova material de que exista uma terra promissora) e alguns papagaios, não levou nem ouro, nem prata, nem madeira.
O certo é que Diogo Alvares existiu de carne e osso e foi um personagem importante na história de fundação da cidade do Salvador, como colaborador de Thomé de Souza, e sua família e descendentes a mais importante da Bahia durante 200 anos, isso do ponto de vista econômico e financeiro.
Conta Theodoro Sampaio em 'A História de Salvador” sobre Diogo Álvares: “o qual ao que parece desde 1510 ou 1511 vivia entre os selvagens e era até ignorado pelos portugueses, como se vê no diário de Pero Lopes de Souza, de 1530".
Tem, portanto, algum sentido que Diogo tenha sido deixado por Paulmier. Mas, nas publicações da Universidade de Santa Catarina em que cita os componentes oficiais da nau L’Espoir não consta o nome de Diogo Alvares. Mas também se sabe que os grumetes nem todos eram registrados e prestavam serviços aos navegadores.
Adiante, Teodoro Sampaio revela que, em 1535, "quando aqui se refugia a tripulação espanhola da nau capitânea Simão de Alcáçoba, naufragada em Boipeba e socorrida por Caramuru" este ainda era ignorado de Portugal. Sampaio já adota o termo “Caramuru” uma vez que seu livro foi escrito no inicio do século XX e a lenda já tinha se propagado.
Esse naufrágio foi real, mas a história é mal contada uma vez que Boipeba dista muito de Salvador e Caramuru vivia em território do atual bairro da Barra. Daí, também, a igreja cunhou uma outra lenda, que nesse naufrágio foi encontrada a imagem da Virgem (não cita qual) no canto da cabana de uma selvagem o que provocou visões repetidas da índia Catarina Paraguaçu, a qual construiu uma casa de barro (depois capela) dedicado a Nossa Senhora da Graça, primeiro oratório do povoamento.
É outra invenção da igreja uma vez que ainda não havia povoamento o que só vai acontecer a partir de 1538 com a chegada do donatário da Bahia, Francisco Pereira Coutinho, que funda a Vila Velha do Pereira.
Theodoro Sampaio destaca que "não se sabe ao certo quanta gente conseguiu trazer na primeira leva nem a importância da expedição, que, por conjecturas, se supõe composta de sete embarcações com uns 400 homens, colonos, artífices e empregados d'armas". Foi essa turma que formatou a Vila Velha do Pereira (atual Porto da Barra).
Nos registros dos jesuítas (vide livro do frei Bresciani sobre Aldeias Tupinambas em território de Salvador) eles não citam a existência de aldeia tupinambá na Barra e sim, no altiplano, as mais próximas da Barra as da Gamboa de Baixo e a da área no atual Passeio Público; e uma outra adiante, a dos Franceses (no Rio Vermelho).
Sampaio, no entanto, situa que no local e imediações onde Pereira Coutinho fundou a Vila Velha havia 1 mil tupinambás e 9 europeus, entre eles, Diogo Álvares. Mas, que europeus eram esses? A história não registra em livros.
O que se sabe de real é que, antes da chegada de Francisco Pereira Coutinho, donatário da Bahia, passou pela Baía de Todos os Santos o navegador francês Jaques Cartier, em 1525, este o descobridor do Canadá, e teria negociado a compra de madeira (Pau Brasil) com Diogo Alvares.
Isso também não está bem explicado. O certo é que, na viagem seguinte, em 1527/28, Cartier veio a Baía de Todos os Santos (de volta do Canadá) e teria levado um carregamento de madeira e adotou (ou conduziu a pedido de Diogo) a tupinambá Guaibimpará para Saint Malo, onde vivia.
De real existe o registro datado de 1528 de batizado da tupinambá com o nome de Catherine du Brézil, homenagem que o navegador fez a sua esposa Catherine des Granches e ao Brasil. Catherine viveu seis anos em Saint Malo e se tornou católica frequentando culto três vezes na semana, ao mínimo, uma prática familiar comum naquele tempo, na catedral de São Vicente que era próxima da casa de Cartier.
Em 2022, estive em Saint Malo nesses dois locais, e andando faz-se o percurso em 15 minutos. Quando Catherine voltou a Bahia (não há registro da nau que a trouxe de volta), em 1534, juntou-se com Diogo Alvares teve filhas com ele e fundou a capela de Nossa Senhora da Graça, onde está sepultada, hoje, Mosterinho da Graça (beneditino). Diogo Alvares está sepultado na Sé Primacial (jesuíta). (TF)