ter�a-feira, 30 de novembro de 2021
Cultura

LITERATURA: CONVERSA DE BUZÚ, DE CLARINDO SILVA: ROSA DE LIMA COMENTA

São 50 crônicas sobre conversas nos ônibus (coletivos, buzús) que trafegam em Salvador, diariiamente
Rosa de Lima ,  Salvador | 25/11/2021 às 08:20
Conversa de Buzú
Foto: BJÁ
     O agitador cultural - crio ser, hoje, sua melhor definição - Clarindo Silva, ex-jornalista, poeta, compositor da mpb baiana, proprietário da Cantina da Lua bar e restaurante emblemático do Terreiro de Jesus, coração do centro histórico de Salvador donde sai a ladeira que dá acesso ao Largo do Pelourinho, ao lado da antiga escola superior de medicina criada por dom João VI em sua passagem pela cidade, 1808, quando também abriu os portos portugueses ao mundo pressionado pelos ingles; e do outro lado protegido pela igreja de São Pedro dos Clérigos, está de volta à literatura depois do "Memórias da Cantina da Lua".

  Desta feita, em crônicas de textos curtos e linguagem popular, nos oferece "Conversa de Buzú" (Editora do Autor, 114 páginas, EGBA, 2021, ilustrações e arte da capa Lucas Batatinha, edição André Carvalho e Maria Pinheiro, projeto gráfico Everton Marco - Dingo, R$30,00 à venda na Cantina da Lua) uma delícia bem baiana de como as pessoas, os mortais que usavm o transporte coletivo por ônibus em Salvador - apelidados de buzú - conversam e expõem as suas vidas, os seus dia-a-dia, em movimento.

  De repente, o leitor está se deliciando com o palavreado de dois usuários do buzú falando da vida alheia de uma vizinha - o pular a cerc - e eis que um deles salta no ponto próximo dando "tchau, até amanhã" e deixa-nos com água na boca do que poderia acontecer o que seria o desfecho da conversa. "Conversa de Buzú" é, portanto, movimento, ação, cotidiano, dizeres, falas, papos, o que acontece dentro dos ônibus em Salvador, o que não é pouco. Não traz interpretações e/ou reflexões salvo se o leitor quiser levar o assunto para o campo da socilogia ou da filosofia ppopular.

  - Ô, amigo, esse ônibus é Beiru?

  - Não, é Tancredo Neves.

  O motorista intervém:

  -E Beiru, sim.

  De repente, surge a discussão. O passageiro que pediu uma informação, de uma maneira muito grosseira, xingou aquele que deveria lhe dar a informação. E, como muitas pessoas que acompanham modismo, sentiu-se ofendido. Disse que nãoi era carteiro, nem contador de luz ou de água para ter obrigação de dar informação de nome de rua. E muito menos de ônibus! No banco de trás, um garoto, então, falou:

  - Parem com essa discussão! Consulta este homem de branco que tá aí perto dos senhores.

  O roteiro das crônicas do livro vai nessa direção. O homem de branco citado pelo garoto é o próprio Clarindo, o qual, cheio de dedos para não melindrar nem um; nem o outro passageiro, explica que ambos estavam corretos porque Beiru foi um escravo alforriado dono original das terras daquele bairro e a mudança de nome deu-se quando da morte de Tancredo Neves, político mineiro eleito presidente da República que morreu antes de tomar posse, em 1985. Houve protestos da população contra a mudança do nome e ficou, em síntese, essa confução algumas pessoas ainda chamando-o de Beiru e outras de Tancredo Neves.

  Nesse papo, o homem de branco passou do ponto, mas, em compensação foi abraçado pelos passageiros em tertúlia.

  O livro tem muito da linguagem baianês que é utilizada pela população de Salvador expressões tais como "passar do ponto", "a valença é que tinha uma mixaria na bolsa", "danei a mijar", "ó mainha, você disse que ia comprar coisas para descarrego", "porra nenhuma", "fazer uma desgraça", "tomei uma dúzia de bolos", "uma espelunca no Largo 2 de Julho", "manda ele pra quele lugar e pronto", "tá lascado", "ela saiu da linha" - esta última frase com dois sentidos: a mulher que desligou o telefone; e a mulher que era decente e deu pra cachorra.

  Dá pra ler o livro num fôlego só na própria Cantina da Lua saboreando uma gelada. São apenas 50 crônicas levíssimas, histórias do cotidiando, do preço do pão, dos jogos Bahia x Vitória e das pirraças dos torcedores, da carestia, da moda, dos penteados das pessoas, da vida das vizinhas, dod escritórios, do trabalho, de uma cidade do Salvador bem simples com a sua população falando daquilo que mais gosta, a fofoca do dia, a crônica popicial, a luta pela sobrevivência.

  Clarindo, como sabemos, é um desses personagens da cidade - o homem de branco, aquele que está sempre vestido com roupas brancas - que luta, há anos, pela sobrevida do Pelourinho, do centro histórico de Salvador como um todo, representante do que a comunidade negra da capital, a principal frequentadora desse bairro, chama de personagem da resistência.

  Conversa de Buzú não traz essa mensagem em sí, diretamente, mas deixa nas entrelinhas. Ou como diz o autor: vou ficando por aqui que meu ponto chegou.