Mordaz e cortante como um punhal cigano, Paulo Francis, o jornalista, escritor, cultuado pensador da contracultura brasileira, certa vez numa entrevista esculpiu a seguinte frase: "Os Estados Unidos é realmente o país das grandes oportunidades. Em que outro lugar um jovem negro e pobre se transformaria numa senhora branca e rica; como Michael Jackson?"
Ela na verdade é apenas metade real, pois que Michael nunca se comportou como uma senhora rica. Estava mais para a Fada Sininho ou uma versão andrógina de Peter Pan com uma vasta conta bancária. Um menino ou menina a quem faltava uma visão do mundo real.
Mortos os dois envolvidos na frase, com Michael devendo dólares incontáveis e seu país vivendo tempos de desespero econômico tanto para os nativos norte-americanos de Boston ou do Brooklin; quanto para os miseráveis imigrantes que atravessam fronteiras semimortos -ou mortos mesmo- escondidos em caminhões decrépitos deixando seus últimos tostões nas mãos dos coiotes, vemos quanto mudou o american way of life. Como tudo, mais cedo ou mais tarde, muda.
Assim como nós habitantes do 3º Mundo (ou mais politicamente correto, Países em Desenvolvimento) temos sobre nossas cabeças a eterna sombra do Estado, tirando até o ar que respiramos e devolvendo sarcasmo, Michael teve a sombra pegajosa do seu pai, cínico e visivelmente desonesto como um político sub-equatoriano.
Francis por sua vez teve a sombra de uma ditadura militar que o arrancou dos seus adorados Rio de Janeiro, Zepelim, Ipanema e o Pasquim, forçando-o a um exílio que saudou com um livro cujo título -O Afeto Que Se Encerra- revela uma ferida jamais cicatrizada, aquela gota de sangue que insiste em manchar o band-aid.
Ambos morreram no país das grandes oportunidades, cada qual arrastando seu saco de ossos durante a caminhada rumo à saída de uma glória passageira e repleta de mágoas. Em que momento será que eles perceberam que nada é para sempre?