quinta-feira, 21 de outubro de 2021

AO MESTRE VALDEMIR SANTANA COM CARINHO, por SAMUELITA SANTANA

Samuelita Santana
23/08/2020 às 19:13
Ele decisivamente foi o prelúdio da minha carreira. Meu primeiro chefe, no Correio da Bahia, onde exercia com um brilhantismo inquestionável a função de pauteiro e Chefe de Reportagem da manhã, Valdemir Santana recebeu a minha inexperiência e timidez com a sabedoria dos que acolhem.

Observador, intuitivo e com um extraordinário senso de percepção e feeling para a notícia, soube conduzir com serenidade inesquecível a minha insegurança e pânico na execução da primeira matéria: a degradação e o descaso público com a manutenção do Chafariz do Terreiro de Jesus, Pelourinho de Salvador, monumento em ferro fundido, estilo neoclássico, inaugurado em 1856. Um patrimônio arquitetônico totalmente abandonado à época da matéria, finais dos anos 80.

Foram horas de mãos geladas sob o teclado da máquina de escrever e trocentas laudas arrancadas, amassadas e jogadas no cesto. Todas com leads "imprestáveis" sob o meu aflito ponto de vista. Da sua mesa em frente à minha, Valdemir teclava velozmente suas pautas, me observando de soslaio vez em quando. Diante da minha explícita agonia ele levantou-se e veio até mim. Quando percebi sua aproximação tentei arrancar a lauda mais uma vez, com vergonha do que havia escrito lá. Ele me impediu: "Não, calma, me deixe ler". E foi lendo enquanto eu corava totalmente. Entre perplexa e surpresa ouvi Valdemir em festa. " Está óootimo, perfeito. Menina, você é boa, vamos, continue, continue nessa mesma linha e não mude uma vírgula desse lead. Está ótimo!".  Eu não precisava de ânimo melhor para finalizar a matéria.

Dia seguinte, quando retornei ao Jornal encontrei um Valdemir esfuziante abanando pra mim a primeira página do Correio. Minha primeira matéria virou manchete do jornal. Óbvio que eu chorei! Mesmo consciente que o feeling da pauta, a condução e o resultado final eram, sim, créditos dele. E me pus eternamente grata pelo abraço profissional que essa figura carismática e tão anos luz à minha frente no jornalismo, se dispôs dar a uma imatura "foca" que chegava à Redação. A partir daí, num elo de confiança entre mestre e aprendiz, pude crescer sob os cuidados desse profissional fantástico que, mesmo distante nos últimos tempos, NUNCA deixei de amar sinceramente e admirar DEMAIS não apenas o talento, mas também a generosidade. 

A notícia inesperada da sua partida me golpeou neste sábado, 22 de agosto de 2020. E foi preciso algumas horas de resgate emocional para me sentir apta a escrever o que tinha na alma e lhe prestar essa pequena homenagem. Que em seu novo mundo, Valdemir Santana possa ser acolhido com o mesmo afeto, desprendimento e a mesma elegância com que sempre acolheu. Em Paz amigo