ELEIÇÕES NOS EUA: MUDAR PARA MANTER

Rosane Santana
09/09/2008 às 08:02
Com a economia no fio da navalha, a classe média americana - maioria do eleitorado -, conservadora por execelência, percebe que "tudo deve mudar para que tudo fique como está", seguindo a velha máxima citada por Giuseppe Tomasi di Lampedusa, em seu clássico, "O Leopardo". Será uma mudança a contragosto, tudo indica, mas necessária para a manutenção de certos privilégios, como no romance, que retrata a decandente nobreza italiana do século XIX.


Barack Obama parece ser a única alternativa de mudança, mas não é o
candidato dos sonhos , embora seja o preferido da mídia e da intelectualidade
americana, que tem no estado de Massachusetts o seu bunker, com mais de 100
universidades, entre elas as melhores do mundo, a exemplo da Harvard University, onde diplomou-se em Direito o candidato democrata. As recentes pesquisas de opinião demonstram uma nítida recuperação do republicano John McCain, indicando que a nação esta dividida quanto a escolha do próximo presidente, apesar de exausta (financeiramente sobretudo), com o militarismo da Era Bush.


O senador por Illinois enfrenta dificuldade para unir o eleitorado do
próprio partido em torno do seu nome, depois de derrotar a senadora Hillary
Clinton na disputa pela indicação do Partido Democrata. O principal rival de
Obama, o republicano John MacCain, ultrapassou-o em estados onde anteriormente os democratas eram favoritos, como a Flórida. Há duas semanas, durante a abertura da convenção democrata, partidários de Hillary confessavam preferir o republicano, em declarações abertas a jornais e rádios, como a prestigiosa NPR (National Public Radio), sob alegação de que McCain é mais capacitado para enfrentar os desafios de um país em crise.

Em editorial intitulado, Mile-high hopes for Democrats ("Democratas
têm muito chão pela frente"), publicado no mesmo dia em que os democratas
abriram sua convenção em Denver, The Boston Globe, um dos mais prestigiosos
jornais americanos, ressaltou que "os indicadores econômicos apontam para
os democratas e a nação anseia por mudanças".


 Entre os indicadores da crise, que demonstram a necessidade de mudança na
política americana, o jornal citou o desastre no Iraque, Afganistão e Paquistão.
Disse que a economia americana está moribunda, com cerca de três milhões de
americanos enfrentando problemas para quitação da casa própria e retomada dos
imóveis pelos bancos credores; alta nos preços dos alimentos e dos combustíveis;
falência no sistema de saúde e serviços médicos ineficientes, além de má
reputação do país no exterior e destacou que o resultado das Olimpíadas
prenuncia um século asiático. Esqueceu de citar o desemprego, que é o maior
dos últimos cinco anos.


 Mas por que a classe média ainda resiste à mudanca, diante das evidencias
de que a mudança é necessária? Estudioso do comportamento político, o
professor da Universidade de Berkeley, na Califórnia, George Lakoff, em seu
livro "Moral Politics: What Conservatives Know that Liberals Don´t (O que conservadores sabem que liberais nao sabem), ressalta que os liberais "têm fracassado na tentativa de entender a natureza do populismo conservador, achando que os pobres e a classe média conservadora votam contra seus próprios interesses econmicos", por considera-los "desinformados e não tão brilhantes".


 Seguindo esse raciocínio, segundo Lakoff, cujo livro foi escolhido para
debates na Universidade de Harvard, neste verão, os liberais acreditam poder
mudar o comportamento desse eleitorado a seu favor, revelando a verdade sobre os fatos econômicos. "It is a pipe dream" (Isto é um castelo de
sonhos), diz o estudioso, para quem "o populismo conservador é uma cultura in natura e os populistas conservadores têm um pai severo (strict
father) moralmente, e uma identidade baseada nisto, tendendo para razões sobre
política com explicações causais e não sistémicas.


 Em outras palavras, ao abraçar as explicações causais dos fatos políticos,
a classe média e os pobres estariam propensos a uma identificação imediata com
os conservadores e suas análises para questões como o terrorismo,por exemplo, como derivado da existência de pessoas que possuem uma conduta reprovável (o que me faz lembrar o "estou de olho nos bandidos", do candidato democrata a sucessão de Salvador, ACM Neto, que não por acaso pontua as pesquisas de opinião).

Nesse sentido, seria mais dificil, portanto, para a maioria do eleitorado
americano, a aceitação do discurso liberal, que vê no terrorismo uma
consequência da presença militar americana nos países islâmicos e o apoio a
monarquias autoritarias em muitas nações árabes, além do suporte a Israel, entre outras causas.


Lakoff adverte que esse eleitorado não será atraído pelos liberais na base
de apelos racionais sobre o bem-estar econômico. Como saída, o estudioso aponta a necessidade de identicação de valores progressiatas entre o eleitorado de perfil biconceitual (com valores conservadores e liberais).


 "A única esperança que nós vemos aqui é aproximar-se daqueles que
são biconceituais e identificar quais são os valores progressistas deles. Na
base dessa identidade buscar convencê-los de uma importante verdade, que eles
estão sendo oprimidos pelos conservadores, que o Pais que eles amam está sendo destruído pelos conservadores, que o Cristianismo progressista está sob severo ataque de conservadores fundamentalistas..."


 Eis aí um desafio para Barack Obama, a quem o The Boston Globe recomendou
no dia da abertura da convenção democrata: Voters don`t elect
"change". They choose a person. Starting today, Obama needs to
introduce himself and learn to ask to be One
(Eleitores não elegem mudanças.
Eles escolhem uma pessoa. Começando de hoje, Obama precisa apresentar-se e
aprender a pedir para ser o numero 1).