quinta-feira, 22 de agosto de 2019
Colunistas / Causos & Lendas
Lobisomem de Serrinha

LOBISOMEM de Serrinha fica admirado com sanitários de maçaneta d'ouro

Lanzudo diz que nunca viu sanitários químicos tão caros como os do Carnaval de Salvador
26/03/2014 às 08:04
 Já estou com as pernas enferrujadas e não brinquei o Carnaval como gostaria, em função da idade. Não é fácil completar 281 anos como faço em abril próximo e atuei mais apreciando a festa do que dançando, ou pulando como se faz nos dias atuais.

  O Carnaval da Serra com o Rixô Elétrico foi uma maravilha. Minha neta Sol, a qual não desceu de sua varanda usada como camarote, repleto de baldes de champagne, adorou, e ainda me disse que havia um bugre igual ao meu. O Rixô tocou aquelas músicas no passo lento e deu pra estirar as canelas na subida para a Morena Bela, isso graças ao nosso prefeito Cardosão que, mesmo no passo do compasso, devolveu a Serra sua tradição carnavalesca.

  Uma semana depois, pois nosso Carnaval foi antecipado, a convite de uma familia que mora na Barra seguimos para participar do Carmaval da capital. Eu e a minha esposa dona Ester Loura fomos bem recebidos na casa dessa comadre e também no camarote de uma cervejaria. Carnaval belíssimo, por sinal. Mas, muito repetitivo e repleto de balões de propaganda. parecia até uma feira de venda de produtos de beleza e bebidas.

   Tanto que dona Ester resolveu fazer o cabelo e as unhas num salão que havia no longue do camarote e eu fiquei angustiado porque, a contra-gosto, tive que beber a cerveja que não gostava.

  Mas, sabe como é, convidado não pode reclamar de banquete de graça. Se topou ir para o camarote na base do 0800 que beba seu charope e fim de conversa. O melhor do Carnaval foi Mari Antunes aquela moça do Babado Novo. Até eu babei. Manchei meu lenço de seda indiana e só não tomei belicões porque Ester ondulava os pelos no salão.

   Agora, o que fiquei admirado mesmo foi com os tais sanitários químicos da festa que teriam custado R$18 milhões aos cofres municipais. Pensei! Seriam os assentos como os do antigo Xá Reza Pahlevi em sua tenda árabe iraniana com maçanetas d'ouro? É possível. Como preços nessas alturas, só assim.

  - Lá na Serra no Carnaval do Rixô, eu e amigos da patusca fizemos xixi num pé de amendoeira próximo da casa da professora Eloá, comentei com minha comadre.

  - Isso é lá. Aqui é outra coisa. O vereador Arnando Lessa diz que houve alguma arte estranha, pois, nunca viu em sua vida sanitárias tão caros, respondeu a guapa.

   - É pode ser, como diriga Gil, pelo sim; pelo não; muito pelo contrário; ademais, no entretanto; entendendo a morfologia das expressões, justifica-se o injustifável de um tal contrato guarda-chuva para todo o ano, respondi a comadre com base em dados revelados pelo governo municipal, saudando dona Ester que voltava do salão toda arrumada.

   Não poderia deixar de elogiar minha esposa como o fiz: - Você está linda com esse cabelo a la Beyoncé, derretim-me em mesuras.

   - Beyoncé não! Catherine Deneuve - consertou. Isso aqui nem parece que estamos no Carnaval. A moça lá do loungue ... é assim mesmo que se diz..., soletrou fazendo bico à inglesa... lon-gue, caprichou não só no cabelo, mas, nas unhas dos meus pés e das minhas mãos (mostrou) e ainda tomei massagem nas costas e na nuca, elogiou.

   - Melhor do que o Salão de dona Ana lá na Serra? - questionei.

   - Melhor não diria. Mas, mais estiloso. Além disso, ao lado do salão tem uma mesa de frios com tudo de bom, até o jamón espanhol pata negra, petiscos, pães, brioches, uma maravilha.

   - Nem acredtio. Mas, não combina um pata-negra com essa cerveja. Aprovaria com um tinto francês daqueles que compro para você no Carrefour de Paris, respondi.

   - Não seja soberbo. Aproveite o 0800 e tire a barriga da miséria - interferiu a comadre - nos convidando para ir à mesa assim que o Vumbora de Bell passasse à frente do camarote.

   - Um horror - disse Ester ao ouvir Bell entoar uma música chamada Nicolau. Esse moço já apresentou coisas melhores no Carnaval, aduziu no meu pé de ouvido.

  - É! lembra que dançamos muito a música Chicleteiro em nosso sítio ao pé da fogueira e a Noite de Forró que ele canta tão bem, respondi também ao pé do ouvido para Ester ouvir diante do poderoso som do ex-Chiclete.

   À mesa seguimos os três assim que a banda passou. Ester pegou um prato e colocou fatias do pata negra e eu preferi um salcichão alemão que estava de boa textura. Diria que nos fartamos. A comadre, chique que só ela existe na Bahia, beliscou uma salteña temendo os culotes.
Nisso dei vontade de fazer xixi. A comadre indicou o local no camarote e lá fui em direção ao WC, pelo menos era o indicativo. Taí! Chique, mais chique do que os da Prefeitura de Salvador e a amendoeira da Serra. Depois que balancei o bilau automaticamente uma água cheirosa asseou o vaso. Ao tentar lavar as mãos, apenas por educação, porque meu bilau é limpo e não preciso desses asseios, desisti porque havia uma torneira estilosa, mas procurei o abridor e não achei. Passei papel nos dedos.

   Depois, já no camarote propriamente dito comentei com a comadre: - O banheiro é bom mas esqueceram de colocar os abridores das torneiras.

   - Bronco! É automático, censorial. É sô você por as mãos embaixo do bico da torneira que a água saí.

   - Ah é! - admirei. Então vou ficar mais um tempo na festa, tomar umas quatro cervejas pra fazer xixi de novo.

   Adiante, contei a novidade a Ester e prometi a ela colocar torneiras iguais a essa lá em nosso sitio da Serra. Vai ser um sucesso, garanto, inclusive vou fazer até um comercial na rádio Continental anunciando tal feito.

   E minha neta Sol, que gosta de novidades, vai adorar.