domingo, 18 de fevereiro de 2018
Colunistas / Crônicas de Copacabana
Nara Franco

Praça Castro Alves mudou pro Rio. de Janeiro

A Praça Castro Alves não é mais do povo, mas no Rio a rua é. As mudanças no carnaval carioca que vai se reinventando
05/02/2018 às 12:53
  O Rio de Janeiro anda tão azarado nesse verão que roubaram até o verão. Nada de sol, nada de calor dos infernos. Hoje mesmo está chovendo. Chovendo em fevereiro! A cidade está com aqueles problemas de sempre: tiroteio na Rocinha, na Cidade de Deus. Até em Angra dos Reis. Mas a cidade resiste à violência, ao Bispo, a quase ministra. Digo isso porque já começou o carnaval na cidade. Pelo menos o pré-carnaval. No último fim de semana vários blocos desfilaram, entre eles o Fogo e Paixão (que eu adoro mas que esse ano não fui), o Céu na Terra, o Boitatá, o Bloco da Preta e o Simpatia é quase amor. 

Para quem nunca passou carnaval no Rio vou esclarecer alguns pontos. Carnaval no Rio tem as escolas de samba e os blocos. Esses podem variar entre alternativos, clássicos e gigantes. Carioca que se preza gosta de bloco vazio. Uma das particularidades do carnaval carioca é que os blocos ditos 'bons" saem às 7h da manhã. Isso mesmo. Eu não vou. Beber cerveja às 8h da manhã não é para mim. Mas, segundo amigos, são os melhores blocos. 

Nos blocos alternativos como Boitatá e Céu na Terra, fantasia é obrigatória. E uma coisa que carioca sabe fazer é fantasia. É uma criatividade sem fim. As vezes eu vou ao bloco só para ver as fantasias. Tem pirata, baiana, palhaço, mas tem Frida Khalo às pencas. Tem gente de Instagram, mil personagens de séries, sereia. Teve um ano que um garoto saiu de viga da perimetral. Aquela que foi roubada e ninguém sabe onde foi parar. Me disseram que a moda desse ano é Unicórnio. 

Carnaval no Rio não tem axé. Não tem frevo. Não tem funk. Tem marchinha. E só. E são aquelas da Chiquinha Gonzaga mesmo. Entra ano e sai ano e tome marchinha. Tem aquelas do Chacrinha, do Silvio Santos, mas vira e mexe o povo volta para a década de 20. Outro ponto importante: baterias e bandas de bloco não são profissionais. Com exceção de alguns blocos maiores, as outras desafinam, tocam fora do ritmo, o cantor está num tom e a bateria em outro. E tudo dá certo. Isso quando tem cantor. E bloco que se preza tem porta estandarte.

A corda se restringe à banda ou a bateria. O carnaval aqui é do povão. O Bola Preta ficou imenso então abandonei a ideia. A gente vai ficando velho e o ímpeto carnavalesco diminui. Trio elétrico é coisa rara e, quando tem, é tudo muito tosco. O som dá microfonia, não tem decoração, solta fumaça. É complicado. 

Parece que é ruim, mas não é. É bem divertido. Tem ladrão? Tem. Tem xixi na rua? Tem. Tem cerveja quente? Tem. Tem banheiro imundo? Tem. Mas isso tem em qualquer lugar. O que tem aqui é muita criatividade e tradição. A TV mostra muito os blocos da moda. Mas o Carnaval do Rio é muito diversificado. Tem bloco infantil (Gigantes da Lira), tem bloco temático (Toca Raul, Sargento Pimenta), tem bloco que não anda, tem bloco que anda 20 metros e para, tem bloco só de viado (a Banda de Ipanema e o Agitoê) e só de lésbicas (o Tocoxona). Tem o Cacique de Ramos no Centro (uma das experiências mais maravilhosas que o carnaval pode proporcionar), tem o desfile da Intendente Magalhães (nada mais raiz do que as escolas do samba dos grupos B, C, D e por aí vai). Tem os Bate Bola no subúrbio ou Clóvis (uma derivação da palavra Clown) e, finalmente, tem os desfiles de escolas de samba. 

Opção é o que não falta. Aqui em Copa, por exemplo, os blocos são de rua. E não andam porque os coroas cansam. Tem o Rola Cansada, o Bloco da Miguel Lemos, o Blocão (que é só de cachorros). Os nomes dos blocos são de chorar de rir (carioca é muito criativo): Só cume interesse, Xupa mas não baba, É pequeno mas vai crescer, Suvaco de Cristo, Largo da mulher mas não largo da cerveja e por aí vai. Carioca que é carioca chama o bloco pelo apelido. Ninguém fala que vai no Simpatia é quase amor: "Me encontra lá no Simpatia". 

Eu só conheço os carnavais do Rio e Salvador. Houve um tempo em que passar carnaval no Rio era sinônimo de praia e cinema porque a cidade ficava um deserto. Mas a folia se reergueu, cresceu e a cada ano ganha novos blocos. Também ganhou em organização (que ainda resiste à administração catastrófica do Bispo). O trânsito flui bem e os blocos grandes foram desfilar no Centro para não causar danos ou tumultos em lugares pequenos. Sábado, domingo e segunda é dia de ir para o Centro e não sugiro ir sem um carioca porque é preciso conhecer o lugar para não se perder em locais um pouco mais sinistros. 

A última vez que fui a Salvador no carnaval achei a festa muito comercial. Sou do tempo que nem existia o circuito Barra-Ondina (velha!) e não havia camarotes por todos os lados limitando a festa. Fiquei desanimada quando vi essa situação e nunca mais fui. Vejo pela TV uma total descaracterização da festa. Esse carnaval raiz eu ainda vejo no Rio, ainda que os desfiles das escolas de samba sejam para gringo ver. O entorno do Sambódromo é muito mais divertido. A rua, porém, ainda é livre, do povo, do pobre, do rico, do velho, do novo. Da criança e do adulto. Esse conceito, quem diria, chegou a São Paulo, que agora também tem blocos!

Recife ainda me dá inveja e um dia pretendo ir a Olinda ver o frevo. Mas por enquanto, fico nas marchinhas cariocas. Mesmo não sendo criativa para as fantasias, capricho na purpurina e me jogo. Mas sempre depois das 10h.