quarta-feira, 27 de outubro de 2021
Colunistas / Causos & Lendas
Lobisomem de Serrinha

LUBI NO BOTECO DO TECO BRINDA O BOTO COR DE ROSA E À DOUTORA FIT

A pauta constou de temas em voga, a queimada do Pantanal, a substituição do termo Ricardão por Vitão, a picada da jararaca na doutora de Cuiabá
20/09/2020 às 10:01


Depois de 6 meses em confinamento social aos poucos estamos voltando as lides lítero-político-etílicos e ao sair da toca passei no Boteco do Teco para atualizar-me das últimas em nossa aldeia e no mundo, encontro agradável e informal com os conselheiros Pinguinha Flores, o poeta Serafim Alves, o filósofo Pato de Almeida, o artista plástico Bino Aríate, Zoinho do Caminhão e Tolentino Caneco.

A pauta constou de temas em voga, a queimada do Pantanal, a substituição do termo Ricardão por Vitão, a picada da jararaca na doutora de Cuiabá, as altas de preços do arroz e do feijão, as eleições municipais e as mortes em carretilha da pandemia do coronavirus no país e a vacina russa.

Litrões à mesa, Pinguinha assando costelinhas de bodinho menino na brasa, Caneco tomando seu uisque red, o poeta Serafim Alves puxou a conversa dizendo que o verdadeiro amor, citando Fernando Pessoa, o "imortal e inútil, pertence àquelas pessoas que a mudança não entra, por sua natureza de estáticas". E mais disse, ainda citando Pessoa, que "nunca se deve devassar os sentimentos que os outros fingem que têm. São sempre demasiadamente íntimos".

Pinguinga, o qual escutava atentamente o que dizia o poeta do amendoim, comentou: "Não entendi nada o que proclamou o vate. Seja mais claro, objetivamente prosando, sem salamilaques".

- Ora, meu caro barbacoa, é o fato que está bombando com mais acessos na internet, quebrou a rede, o amor de uma jovem por outro, relatando que, um boto cor de rosa conquistador, teria sepultado a expressão consagrada para os coringas, o termo Ricardão, que imagino o caro amigo saiba o que significa, substituído por Vitão. 

- Continuo sem capitar 100%, mas, se isso aconteceu, que sejam felizes os vitões, porque ao contrário do que diz esse Pessoa que o vate sempre cita, "o amor é um mistério misterioso sem mistério".

O filósofo Pato de Almeida adicionou: - Ao que sei, Ricardão nasceu num programa da Rádio Nacional, anos 1950, gerado no humorístico Balança Mais não Cai, com o amante da mulher do primo rico se dando bem e o endinheirado conformado, advindo a expressão corno manso.

Mediei a conversa e obtemperei que isso é coisa antiga, desde o tempo do Império Romano sendo que há vários nomes, epítetos, para nominar Ricardão, tais como garanhão, cavalo, pegador, galante, gostosão, presença, chavequeiro; como há diversos sinônimos para aquele que porventura seja contemplado com uma touca de touro: galhudo, chifrudo, cornuto, cabrão, galheiro, chavelhudo. E até virou folclore nacional e mundial, portanto, ai daquele que ainda se aborrece com esses dizeres, muitos dos quais, sem nenhuma prova presencial.

- Daí que se há um novo nome, um novo boto cor de rosa em ação, o vitalino fazendo uso da xana alheia, viva o amor, e deixem aqueles que assim se encontram felizes para sempre e aqueloutro contemplado com a touca de zebu que ingresse num dos inúmeros clubes de chifrudos que há no país, diria, aqui na Serra também existem, não cabendo a mim indicar a agremiação, finalizei.

- Palmas. V.Exa. arrematou bem o caso, disse Zoinho. Quero também elogiar o aparte do conselheiro Flores o qual disse que o "amor é um mistério, misterioso sem mistério", boa assertiva, pertinente conceito, pois, quando o mistério se estabelece num casal, cabuloso, duvidoso, o caso torna-se misterioso e o melhor é o camarada pegar seu boné, sem mistérios, seguindo seu novo caminho em paz, e não cometer feminicídio.

O poeta Serafim não perdeu a oportunidade e versou: uma pandora de amor, vai/outras mais sedosas virão, viçosas/tal como as carambolas, apetitosas.

- Bravo, exaltou Bino, brindemos (os copos tilintaram no ar). E aduziu: - Quem tem o seu que cuide, zele, regre, cative, pois esses vitões andam por toda parte. Aqui na Serra, em tempos idos, quando ainda havia o Bar de Foba, circulavam panfletos anônimos em épocas de campanhas políticas acusando de forma aleatória e irresponsável senhoras da society, que adoravam esses botos.

Intervi de novo na conversa: - Mudemos de assunto. Deixemos as vidas alheias em paz. Não se pode dizer se essas senhoras apreciavam botos ou se tudo não passava de calúnias, ainda que o povo, o sábio povo aumenta mas não inventa. A propósito, como estão os amigos diante da pandemia do coronavirus, o dragão da maldade voltando, a carne a 40 a k (de segunda), do arroz a 9,9 reais, do feijão a 8.5 reais e o tomate a 7.20 o k?

- Comendo batata doce, inhame, farinha e macarrão - comentou Teco, o qual foi complementado em pensamento por Tolentino: - Arroz agora só pra barão, pros homens do Goiás Velho, filé só para os graúdos, pros magnatas, pra bancada do agro que está exportando tudo para a China a preço de dólar, o verdinho valendo R$5.40.

- Esses chineses são vorazes - lembrou o filósofo d'Almeida: Exportaram um virus que mata mais do que a jararaca que picou a aquele doutora bonita numa cachoeira em Nobres, deixaram de comer morcegos e cachorros, compraram todos os nossos jegues aqui do Sertão a ponto de Sêo Valter, homem distinto de Itaobim, passar a ser conhecido como o exportador Valter do Jegue, e vão comer todos nossos bois, arrozes e feijões.

Pinguinha volta a falar: - Ora, o nobre filósofo votou no messias, andava aqui a dizer que o homem ia fazer isso e aquilo, que o Posto Ipiranga, ia privatizar não sei o que e não sei o que mais, que haveria pujança, fartura, que o país ia decolar como um foguete, um foguete como aquele que uma revista alemã falou na época do sapo barbudo, e não aconteceu zorra nenhum, nós, os pobres, é que estamos nos ferrando.

Nossa sorte é que temos a batata, a farinha e a rapadura - adiantou Teco solicitando um brinde a batata doce roxa. Brinde realizado com pujança.

- E os bodinhos, Sêo Teco, ainda nos pertence, disse Pinguinha revirando a costelinha na brasa e adicionando umas asinhas de morcego sem astuciarmos a sua arte.

- Nos pertence, com licença da palavra, até os chinas descobrirem, pois, se comeram nossos jericos, não ficara cabra sobre cabra no Sertão, nem um cabritinho pra contar história, para enfeitar uma manjedoura, disse o poeta Serafim.

Serenei novamente a conversa com novas perguntas querendo saber se o pantanal iria virar deserto com tanto fogo e a morte de jacarés e onças pintas e de quem era a culpa pelas 130 mil vidas que partiram com a pandemira da Covid 19?

O debate acalorou.

- A culpa é daqueles olhos miúdos de Wuhan, da terra de Mao e não do capitão, defendeu o filósofo d'Almeida, dizendo que a autoridade patriota fez o que pode e recomendou a cloroquina.

- Fez zorra nenhuma. Quem fizeram foram os governadores e os prefeitos. E V.Exa. meu nobre Drummond do Sertão tomou a coloroquina recomendada por Ele, a ivermectina sugerida por Lapão, tomaria a vacina russa? advogou Zoinho.

- Deus me livre e me guarde. Preferi o isolamento e o pirão de leite da patroa, rebateu d'Almeida, lembrando que o Sertão já teve queimada pior do que a do Pantanal, queimada do sol, de esturricar tudo, de matar até lagartixas e jararacas, e quando choveu de novo brotam as plantas e surgiram os bichos, os teiús, os tatus e que a mãe natureza é mais forte do que o fogo e a seca.

Pinguinha pediu um aparte e disse que iria servir as costelinhas do bodinho, em tira gosto. Trouxe-as em espetinhos de ferro, bem passadas.

Caneco, que já havia tomado 3 reds, sem gelo, achou estranho o formato do acompanhamento e questionou: - Bodinho, cebolinha assada e que diabo é isso de complemento?

- Asinhas de morcego temperadas com agrião, kkkk, sorriu.

Fui obrigado e intervir novamente na tertúlia: - Ora meu distinto Pinga, se provamos esse tira gosto, vai ser pior do que a picada da jararaca na doutora de MT e, pelo sei, nenhum de nós tem condições de ser transferidos, em caso de emergência, para o Sirio paulistano.

- Garanto e dou fé. São morceguinhos da toca da Mombaça, saudáveis, e caso haja indisposição de alguém, temos o Jardim das Acácias.

Por pouco, o gentilhomem não leva um safanão no cangote, lembrando ao nobre leitor, a distinta leitora, que Jardim das Acácias não é um hospital e sim a casa de descanso eterno dos maçons da Serra.

Para concluir a tertúlia solicitei um brinde final. Todos levantaram os copos a altura das cabeças e saudamos: viva o boto cor de rosa, vida a doutora Fit de Cuiabá, amor eterno aos vitões.