quarta-feira, 12 de agosto de 2020
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Lobisomem de Serrinha

LOBISOMEM DE SERRINHA DIZ QUE TOQUE DE RECOLHER EVITA INFIDELIDADE

Essa é a 10ª crônica do livro de TF Lobisomem de Serrinha, a nuvem de fogo e o fim do mundo, no wattpad
07/06/2020 às 11:06
O jornalista Tasso Franco publicou neste domingo a 10ª crônica do seu livro Lobisomem de Serrinha, a nuvem de fogo e o fim do mundo, abordando o tema o toque de recolher do conavirus e a infidelidade. Leia abaixo a crônica e todas as outras no wattpad.  

LOBISOMEM DE SERRINHA DIZ QUE TOQUE DE RECOLHER EVITA INFIDELIDADE E TOUCA DE TOURO

O povo é rebelde. Nem adianta ir na maciota. Nosso alcaide, o doutor Silva, fez tudo que pode para evitar uma excessiva movimentação de pessoas nas ruas da Serra durante a pandemia do coronavirus, mas, o povo não é brincadeira. Só restou-lhe decretar "Toque de Recolher", como na época pós 1964 que as ruas eram patrulhadas pelo sgt Bispo, do TG-141.

Até entende-se. E eu dou razão ao povo porque o povo não é deputado que ganha bem e todo final do mês recebe seu holerite recheado com ajuda de custo, gasolina e telefone pagos pelos cofres públicos. O povo não é juiz que ganha uma fortuna por mês e chova ou faça sol seu capilé tá na conta do banco no dia 25. O povo não é ministro, senador, governador, promotor, doutor, dentista, psicólogo, professor do estado, conselheiro do TC, conselheiro do TU, auditor e outras coisas boas.

O povo é o povo. Necessita sair de casa, ir às ruas, fazer biscates, pintar letreiros, levantar paredes, vender beiju na feira, mercar tomates, comercializar tapiocas, oferecer ovos e o que mais for preciso. Daí que se ficar em casa morre de fome porque no final do mês não tem holerite, nem Planserv, nem Cassi, nem seguro de vida, nem ajuda de custo. 

Então, não vamos culpar o povo porque o número de infectados pela Covid aqui na Serra cresceu, mas, nada que se assemelhe ao Ceará ou a Pernambuco, muito menos ao Rio de Janeiro e a São Paulo, tanto que os serrinhas que moravam em SP voltaram para as roças com medo da morte. Acertaram. Estão malocados no Alto da Bandeira, Mombaça, Tanque Grande, Chapada, Mato Fino e quando a pandemia passar voltam para São Paulo porque é onde está o dinheiro, o trabalho.

O povo não é burro e muito menos besta. Quem achar isso, se ferra. O povo sabe tudo. Aqui na Serra essa é a segunda pandemia que o povo enfrenta, a primeira foi a gripe espanhola, em 1918, no governo do intendente Luiz Osório Rodrigues Nogueira nomeado pelo governador Antônio Ferrão Moniz de Aragão, e ao que se sabe não morreu ninguém.

Teve foi festa política com multidão. Em 4 de dezembro de 1919, Ruy Barbosa esteve em Serrinha no apoio à candidatura de Paulo Martins Fontes, adversário de J.J.Seabra, sendo recebido na gare do trem de forma calorosa e até uma Guarda Branca foi constituída para aclamá-lo. Ficou hospedado na casa de Agenor de Freitas e a gloriosa 30 de Junho promoveu uma retreta.

É dessa época que surgiram essas máscaras que usamos hoje para conter a Covid 19. A Gripe Espanhola teria surgido no Kansas, EUA; ou em Étaples, França, e se espalhou por lá, pelo Canadá e pela Europa. Reflexos da imundície que foi a I Guerra Mundial, de 1914/1918, guerra de trincheiras, de ratos e infecções. Essa "gripezinha" matou 50 milhões de pessoas entre 1918/1920. O coronavirus é pinto em relação a ela. Nem a frango chega.

Essas pragas mundiais surgiram antes mesmo de JC e Judas, e a história tá aí pra contar ainda que seja uma narrativa ficcional. As pragas do Egito que, de acordo Êxodo, o Deus de Israel infligiu no Egito para convencer o faraó a libertar os hebreus da escravidão teria sido terrível. Daí surgiu a terra de Canaã.

Vou citar só a primeira: As águas do Rio Nilo tingiram-se de sangue. A água foi transformada em sangue matando todos os peixes. Esta praga surgiu após Arão (irmão de Moisés) estender a mão sobre o Egito e, sob intercessão do Deus dos hebreus, fez surgir rãs e piolhos a encobrir a população e todos os animais. 

Em 1348, nem existia ainda o Brasil, a peste bubônica explodiu em Florença, na Itália. Sangue escorria pelos narizes das pessoas e depois apareciam inchações nas virilhas e nas axilas e se espalhavam pelo corpo. Alguns cresciam como maças e a população chamava bubões. Morriam famílias aos montes e Bocaccio, no livro Decameron, narrou esse sofrimento e a vida citadina italiana depois da peste com sexo, maridos enganados, padres e freiras devassos. Ou seja, mesmo depois da Bubônica o mundo continuou desigual e povoado de espertalhões. É um aviso para o que vem por aí após a Covid.

Em 1686, a população da cidade de Salvador foi acometida da febre amarela e pela peste negra. Centenas de pessoas morreram. Graças a orações dos jesuitas pedindo a São Francisco Xavier, um basco de Navarra, missionário do Oriente, que intercedesse para terminar a pandemia, este atendeu os baianos e a peste acabou. Depois teve a cólera morbus, 1855/1856. E, juntando tudo, febre amarela, varíola, cólera e gripe espanhola milhares de baianos morreram. 

Nossa gloriosa Serrinha nem existia em 1686. É bom lembrar que os primeiros exploradores das terras do municípios vão surgir exatamente aí, no final do século XVIII, com os Silva, os Santiago, os Oliveira, os Afonsos e outros que correram para o interior, assim como fizeram os tapuyos no século XVI. Provavelmente, algumas dessas famílias que (especulo) viviam na capital foram para o interior protegendo-se de doenças.

Nem em 1683; nem em 1918, havia antibióticos (a penicilina foi descoberta pelo médico inglês Alexander Fleming, em 1928) e a cura dessas doenças se dava pelo isolamento total, independente de rezas para São Francisco Xavier e outros santos. Em Salvador, as famílias que podiam se isolavam na linha Norte, entre Itapuã e Vila de Abrantes, e muitas fugiram para o interior. 

Portanto, está certo doutor Silva em decretar toque de recolher na Serrinha para evitar mortes pela Covid 19, até porque, os espaços do município já estão todos ocupados e só resta para quem quiser fugir, se isolar mais, sumir do mapa, refugiar-se na Serra do Buraco do Vento, em Tucano, que tem uma passagem secreta que dá no Japão.

Em videoconferência, analisando a questão com os conselheiros Pinguinha Flores Pompeu e Pato de Almeida, este último ponderou que o decreto municipal era "inócuo para o povo uma vez que povo não sai às noites de casa" (citação dele). E o decreto prevê o toque de recolher entre 19h e 5 da manhã do dia seguinte, a hora em que o povo dorme em suas casas, antes mesmo do Jornal Nacional, agora censurado pelo dirigente máximo para não dar manchetes do corona.

Em aparte, elogiou Flores Pompeu entendendo que o decreto estaria evitando que espertalhões (Bocaccio já falava deles no século XIV) aproveitadores dos breus das noites para visitar alcovas alheias. Lembrou da época do Bar de Foba quando boletins eram lançados embaixo das portas das residências narrando histórias que, "acredito inverídicas" (ressalva) de senhoras da sociedade que recebiam visitas, perfumes e espadas.

Casos que, só não se registraram crimes porque vivemos numa terra pacífica e nossos cornos honram essa tradição de paz e amor.

Fechada a videoconferência, sem mais delongadas, até porque nem todos conselheiros puderam participar devido falhas nos seus computadores, Ester Loura, minha distinta e fiel esposa, que a tudo assistia, comentou:

- Aqui na Serrinha, fala-se das sombras. Se o alcaide faz, dizem que é pouco o que fez; se não faz é taxado de incompetente. Se senhoras da nossa sociedade saem para uma partida de buraco na casa de uma amiga espalha-se como rastro de pólvora que foi jogar no Motel Hollywood outro tipo de cartas. 

 - Como a voz do povo é a voz de Deus, não duvido nada - completei.