quinta-feira, 18 de julho de 2019
Colunistas / Causos & Lendas
Lobisomem de Serrinha

LOBISOMEM DE SERRINHA contesta o papa e diz que o inferno existe

Dona Ester diz que, quando tomo uns gorós, não vejo o diabo e sim almas penadas da Guerra de Canudos
05/04/2018 às 14:08
A notícia divulgada pela imprensa italiana foi curta e grossa: "O inferno não existe" disse recentemente  o papa Francisco. Diante de tamanha repercussão no mundo católico de 2 bilhões de fiéis, o Vaticano apressou-se a informar que não era bem assim. 

Eugênilo Sclafari, fundador do jornal 'La Repubblica' relatou uma conversa com o papa e entre declarações dada pelo pontífice havia uma delas em que "o papa afirmou que as almas ruins não estão sujeitas a um castigo real. Elas recebem o perdão de Deus, enquanto aqueles que não podem ser perdoados estão destinadas a desaparecer. O inferno, em suma, não existiria. O que é certo para o pontífice é o desaparecimento das almas pecaminosas".

A explicação do Vaticano só fez colocar mais lenha na fogueira uma vez que ficou o dito pelo não dito e no fundo continuou prevalecendo a expressão resumida do 'La Repubblica', de que "o inferno não existe" o que, dito pelo papa representa um fato novíssimo para os fiéis católicos, uma vez que, desde que a igreja católica no Concílio de Trento (1545-1563), convocado pelo papa Paulo III assegurou a unidade da fé e a disciplina eclesiática, e estabeleceu pontos para combater a sisma de Martinho Lutero, a dualidade céu e inferno é imutável.

Por isso mesmo, eu como católico, minha esposa Ester Loura frequentadora da catedral da Praça Miguel Carneiro, venho por meio desta crônica contestar as afirmações do Sumo Pontífice, pois, fomos orientados desde cedo da existência do céu e do inferno, desde os tempos dos padres Cupertino e Carlos Ribeiro, ainda quando a Serrinha só possuia a igreja matriz da praça Luis Nogueira.

E na seca de 1930 podemos verificar a existência do inferno porque perdi todas as vacas e bois que tinha no meu sitio, a fome tomou conta da população da Serra, muita gente morreu, faltou água até nas cacimbas e no Tanque das Abóboras, e se isso não é o inferno não saberia dizer que outra coisa foi.

É vero que não conseguimos ver nenhum diabo em nossas terras mas o povo da Cabeça da Vaca, então distrito da Serra, viu vários deles e aquele açude onde se pescavam gordas trairas secou que virou pó e as devotas de Maria das Candeias do Morro Dois Irmãos fizeram uma procissão andando por seu leito seco e as chuvas só retornaram no ano de 1931, assim mesmo, fracas, só voltando a enchê-lo de água em 1935.

Então, com todo respeito ao sereníssimo papa Francisco, cá entre nós existe inferno e também o céu, dentro dessa dicotomia do bem e do mal. Tanto que quando tem coisas boas, e para nós aqui, o bom é a chuva, a fartura nos campos, comida na mesa, nós louvamos a Deus de bom coração e oramos em direção ao céu onde ele mora. Isso para nós é antigo: desde que foi introduzida em nossa cidade a Procissão do Fogaréu e o padre Demócrito erguia uma cuz e entova o cântico "pequei senhor" e o povo respondia "misericórdia", incluindo os políticos.

Lembro também ao sumo pontífica uma vez que vi a chegada do primeiro pároco na Serra, o capelão dom Antônio Manoel de Oliveira, quando o transporte entre a capital e este sertão se fazia no lombo de burros e os tropeiros eram quem abasteciam nossa urbe, que quando a comitiva de dom Manoel chegou na entrada da vila ainda sob a jurisprudência de Água Fria, um fogueteiro do Lamarão soltou um doze tiros no ar e o burro que conduzia o padre se espantou, deu upas e saiu a galope lançando o religioso ao solo. E o mesmo só fez gritar "valha-me Deus" enquanto a beata Santinha do Raso, hoje, Araci, que participava da receppção culpou o demo por tal desdita.

Vê-se, pois, que não é de hoje que se acredita na existência do lucifer e do inferno, sua morada, e muita gente, por ignorância confundia (e ainda hoje confunde) o pé-de-Botelho com o lobisomem, quando uma coisa não tem nada a ver com a outra, uma vez que somos terrenos, da Transilvânia original, do Transval da África. 

Hoje, estamos completamente aculturados, civilizados, e um exemplo maior é de nossa familia aqui da Serra com pessoas exercendo a medicina, a psicologia, o jornalismo, ocupando cargos públicos, e parentes nossos vivendo no Coité, no Quijingue, no Lamarão e assim por diante. Temos até um vice-prefeito num município de nosso estado parente nosso.

E mais: embora alguns dos nossos tenham bandeados para o espiritismo e outros viraram crentes, alguns até dirigindo igrejas evangélica neste Sertão e ganhando muito capilé, nos templos Lobi do Planeta Senhor, a maioria é católica apostólica romana e respeitamos nosso bispo Assolari, nosso arcebispo Dom Zanoni e nosso papa Francisco. 

Mas, ainda assim, temos o direito de contestá-lo nesse campo litúrgico, uma vez que, embora eu mesmo nunca tenha visto o diabo, o vermelho, o ferroso, nem quando tomo uns gorós além da conta no Bacalhau da Barão ou no Machô Machô do bairro do Matadouro e astucio assombraços nas proximidades de minha morada, diz dona Ester que são almas penadas que circulamn por aqui egressas ainda da Guerra de Canudos.

Diabo, diz ela, aqui em nosso sitio ele não entra.