ter?a-feira, 21 de novembro de 2017
Colunistas / Causos & Lendas
Lobisomem de Serrinha

LOBISOMEM DE SERRINHA agora ouve até o canto dos sabiás do seu sitio

A tecnologia a serviço da qualidade de vida dos lobis
05/11/2017 às 11:17
  O cientista inglês Mr Aubrey de Grey tem alguma razão quando diz que os humanos, ainda neste século XXI, vão viver 1000 anos de idade com saúde. A medicina avança a passos largos e os estudos que prevêem o retardamento de envelhecimento das células têm enormes avanços e muitas das doenças, antes fatais, hoje, são curavéis. No Japão, a quantidade de pessoas centenárias é imensa em humanos com boa saúde, alguns aposentados, outros ainda trabalhando. 

   Eu mesmo, apesar de não ser humeno totalmente, porque os lobis são mistos de homens e lobos, já cheguei aos 282 anos e estou pleno de saúde, trabalhando, comparecendo com atuação de 'Jorginho no Colégio', e só ultimamente tenho alguns problemas na audição.

   Estava na sala lendo um livro que Sêo Bina me emprestou sobre Santa Maria da Vitória, do mestre Osório Alves de Castro, quando dona Ester Loura, minha dignissima esposa pediu-me para ligar a televisão, eu liguei, e deu o maior furdunço, sem sentido. 

  - Eu falei pra você pegar o mamão na geladera e não ligar a televisão - bradou. E, ao meu lado, falando alto sem a menor necessidade, porque não sou surdo, completou: - Amanhã vou marcar uma consulta no otorrino de Feira de Santana para você fazer logo esse exame, seu surdo. Falo uma coisa, em mamão, e você entende televisão. Não dá. Cansei. É amanhã e pronto.

   Lá fui pra Feira, escoltado pela esposa, no carro de linha de Sêo Roni, para ser atendido por um doutor de ouvidos. E fui atendido por uma doutora, a qual, puxou minha orelha de um lado; puxou a orelha do outro, pegou um aparelho com uma luzinha e uma lente de aumento, enfiou nos meus ouvidos e disse que estava tudo bem, ótimo, nota dez. Depois, perguntou se eu estava ouvindo tudo bem e eu disse que estava. Antes, coloquei a mão por trás da orelha e falei: - A senhora disse o quem mesmo?

   - Que o senhor vai passar por uma fonodiaudióloga para um teste de audiometria. E lá fui eu para uma outra mulher - elas parecem que dominam esse mercado - a qual me colocou numa sala acústica, fechada, e pôs um fone nos meus ouvidos. Explicou-me que iria fazer uns ruidos, um de cada vez nos dois ouvidos, e toda vez que eu ouvisse os sons levantasse as mãos. Se fosse no lado direito, a mão direita; e se fosse no esquerdo, a esquerda. Em principio não ouvi nada. Depois começaram a surgir os ruidos e eu prontamente ia levantando as mãos.

   Depois, ele voltou para a minha sala e dise: - Agora vou falar algumas palavras e v vai repetir. E lá se foi ela pra outra área e atrás de um vidro e começou a falar baixinho: dia, lua, estrela, fé... e eu mudo do outro lado. Aumentou um pouco o volume e repetiu: dia, lua, estrela, fé. Aí escutei e repeti: fia, cuia, peneira e mel. Ela então aumentou o volume e repetiu as mesmas palvras e eu acertei em cheio. 

   Depois fez uns testes em cada lado dos meus ouvidos, agradeceu minha presença e disse que mandaria os exames para a doutora. Que eu aguardasse que seria chamado pela médica. 

   Mais tarde, a doutora então me chamou e disse; - Sêo Lobi, o senhor está com perda de audição nos dois ouvidos, mais no direito do que no esquerdo, e mostrou-me os exames da fono com gráficos que não entendi nada. 

   Mas, se ela disse que eu estava com perda de audição certamente tinha razão, fato já constadado por dona Ester. Então a doutora falou que eu teria que procurar uma empresa que vendesses aparelhos auriculares para fazer um teste e comprá-los para uso contínuo. Não gostei nada da idéia, mas, se ela falou que era bom para minha saúde, que eu iria escutar tudo de novo, que era uma maravilha, que a medicina estava aí para isso, para dar qualidade de vida aos idosos, etc, eu comunguei.

   Isso, dona Ester esperando-me na sala de entrada dos consultórios, vendo televisão e tricotando com a mãe pelo zap. Quando cheguei a sala ela foi logo perguntando: - O que disse a doutora? - Respondi: - Que meus ouvidos estão nota dez. 

   - Então pode mandar lascar o diploma desta doutora, comentou irada.

   - Calma, Esteer! Ela disse que meus ouvidos, clinicamente, estão dez. Agora, no teste da fonoaudióloga tirei 5 e a doutroa recomendou-me usar um aparelho auricular.

   - Não lhe disse que v estava surdo?  - ralhou-me e pediu para ver os exames da fono. 

   - Não vou mostrar nada porque v não entende nada disso, repliquei.

   - Entendo sim. É só vê as curvas de níveis e pronto. Agora, vamos a esta empresa (mostrou o cartão da doutora) e não me compre um daqueles aparelhos que parece um tijolo.

   É duro essa vida. Mas, fazer o que? E lá fui eu pra outra empresa - tudo no mesmo dia - já com um cartãozinho da doutora - loby legal - procurar uma empresa que vendia os tais aparelhinhos. 

   Aí é que foi coisa. Passei por uma outra doutora, a qual primeiro perguntou quem tinha indicado sua empresa e eu disse foi a doutra tal, e ela anotou lá num papelzinho. Depois abriu meu exame e disse: - O senhor está com perda de audição nos dois ouvidos - o que eu já sabia -  e mostrou uns gráficos cientificos de estudos sobre audição.

   -Daqui pra cimar, colocou uma régua nos desenhos, audição boa; e daqui pra baixo - vi o desenho de um trem e do estampido de um revólver - audição deficiente. 

   E fez mais testes complementares e mostrou-me os aparelhos: - Esse aqui é tal e coisa, alta tecnologia; esse aqui é top de marketing da Dinamarca; esse aqui best inglês. Aí testou-os nos meus ouvidos e, de fato, melhorei bastante a audição.

   - Agora o senhor está ouvindo o barulho do ar condicionado desta sala? - perguntou.

   - Eu respondi: - Agora estou. 

   - E o barulho da tecla do meu computador (teclou uma palavra)? 

   - Também estou ovindo.
Depois, a doutora arrematou: - Agora, o senhor vai se dirigir a outra área para tratar com a gerente comercial, pois, não sei de preços nem este assunto é comigo. 

   Lá vou eu pra outra sala e a gerente, uma paloma, uma águia, contou tantas vantagens dos aparelhos que me senti nas nuvens. Dizia a dita: - Pela categoria do senhor, sua elegância, seu porte de Mr., usaria esse aqui o top de linha da Dinamarca e poderei fazer um preço bom no par. 

   Então perguntei o valor. 

   Ela respondeu: - Na promoção farei pro Senhor R$13 mil.

   Entendi R$3 mil e respondi: - É um bom preço. Podemos fechar o negócio. Como v parcelaria isso no cartão?, perguntei.

   A paloma respondeu: - O senhor dá entrada de R$6.500,00 e paga os outros R$6.500,00 em até 10 meses.

   Aí foi que vim entender que o preço do par era R$13 mil. Então, comecei a suar frio e desmaiei na cadeira.

   - Calma Sêo Lobi, o senhor está se sentindo mal. Vou pegar um pouco de água com açucar e saiu por um corredor aflita e pedindo socorro.

   Dona Ester, a qual se encontrava na sala da recepção, quando viu o alvorço a mulher dizendo que o paciente estava se sentindo mal levantou-se como um raio, entrou na sala e vendo-me desfalecido, retirou um leque que havia comprado no México e começou a abanar-me. 

   - Recupere-se, deixe de manha, lhe conhecço - frisou.

   - Já estou melhor. O mal estar foi diante do preço, confidenciei a esposa.

   Nisso a palomita entra na sala com a água e açúcar, tomei meio copo e me reaprumei na cadeira fechando o negócio para um ouvido só, na base de R$3 mil, um top de linha. Depois, retornei a sala da doutora para ela registrar o dito num computador, ajustar no meu ouvido e regular. 

   - Pronto, agora, o senhor vai ouvir até passarinho cantar nas árvores do seu sitio, disse-me a doutora.

   Daí, fomos embora, eu e Ester, a essa altura já usando o aparelho auricular e a esposa satisfeita da vida. 

   Pegamos o carro de linha de Sêo Joaquim e retornamos à Serra. Quando entro no veículo, Joaquim já me conhecendo, falou bem alto para eu me acomodar no banco traseiro e usar o cinto de segurança.

   Ester o repreendeu: - Fale baixo que o man lobi agora está ouvindo tudo. 

   Joaquim sorriu e eu fiz de conta que não escutei nada.

   Quando chegamos em nossa toca, no sitio da Serra, de fato, como tinha dito a doutora, ouvi o canto da sabiá que fazia um ninho no oitão da nossa casa, canto maravilhos que há tempos não escutava. Executava uma música da Fernanda Takai que Ester gosta muito: - Olha para a chuva que não quer cessar/ nela vejo meu amor.
   Sabiá sábia.