quinta-feira, 18 de julho de 2019
Colunistas / Causos & Lendas
Lobisomem de Serrinha

NETA do Lobisomem de Serrinha defende o avô no debate sobre 'cura gay'

Bino pintor ouve poucas e boas de dona Ester Loura, a esposa do Lobi
24/09/2017 às 12:39
 Andando pelo Largo da Federação fui comprar um bibiano na tenda de Bazar e encontrei com Albino Carneiro, o popular pintor Bino, dando massa corrida na casa de uma senhora e o tal comentou que havia visto na TV uma noticia sobre a decisão de um juiz do DF em permitir a "Cura Gay" com o uso de psicólogos.  Mas, ele não tinha entendido bem o assunto e gostaria que eu desse uma opinião.

   Então, ponderei ao nobre artista das tinhas que, já tinha visto muitas coisas nesse mundo, até por minha idade já completos 282 anos e, de fato, não conhecia essa terapia. Esclareci ao distinto operário dos pincéis que, cada qual tem o direito de escolher a sua preferência amorosa e, ser gay ou lésbica, não representava uma doença e sim uma opção de vida. E lembrei que, na Serrinha, em tempos idos não tinha gays e sim viados; e lésbicas eram desconhecidas, um tabu.
   
   - Quer dizer então que essa noticia da cura gay é falsa, coisa para atormentar a vida das pessoas - prosseguiu.
  
   - A noticia não é falsa porque emana de um juiz de direito. Agora, a cura gay creio que integra uma onda de retorno ao conservadorismo e, como você sabe, o mundo mudou. Foi-se o tempo de fazer papai-e-mamãe, do homem casar com mulher, de seguir alguns ensinamentos considerados bíblicos. Embora, desde que o mundo é mundo, que o sapiens habitou a Terra, isso há 100.000 anos, que existem grupos gays e são anotados registros no Império Ateniense, no Império Romano, isso quando o Brasil sequer existia.
 
    - V.Exa. agora foi longe. Do Imperio Romano só ouvi falar do imperador Nero, o qual dizem as más línguas queimava a rodinha e, ao tomar todas jarras de vinho que conseguia, num acesso de loucura e tocando uma lira mandou incendir Roma, sorriu.
  
   - Há, mas tem muitos outros casos, o próprio Augustus César teria sido assassinado por Brutus diante ataque de ciúmes quando proferiu a célebre frase: - Até tu Brutus.
  
    - Sei. Vi outro dia uma foto numa revista sex lá na tenda de Sêo Soté barbeiro mostrando dois barbudos árabes com caras de revolucionarios se beijando. Cruz credo, benzeu-se.
 
   -  Os brutos também amam, ponderei. Ser gay não tem nacionalidade e esse é um movimento que está disseminado no mundo inteiro, embora, na África, em 33 país, represente um crime o homossexualismo e dá cadeia entre 20 e 30 anos, especialmente na Tanzânia.
   
   - Lá eles, comigo não violão, benzeu-se sobre os barbudos árabes e arguiu: se houvesse essa lei na Serrinha, no modelo da Tanzânia, não haveria cadeia para tanta gente.
 
    Fiz-me de iocente: - E aqui na nossa cidade tem tantos gays e lésbicas assim?

   - Aqui tem de tudo: gays, lésbicas, trans, drag , travestis e outras designações que nem sei explicar. É só V.Exa. ir nos barzinhos da Morena Bela que verá, uma enxurrada.
 
    - Ora, meu caro Michelangelo das cores, meu tempo de ir a esses lugares de diversão já passou. Sou da época em que frequentava o bar e o salão de bailes do Hotel da Leste, dos serenos e das serestas do Hotel Valverde. Eu mesmo fiz algumas tocando nas madrugadas frias da Serrra para conquistar minha querida Ester Loura até que um dia, depois de muitos galanteios, consegui pegar em suas mãos.

   - Hoje! - admirou-se Bino - a moda é rebolar ao som de Anitta e nem se conhece uma pessoa direito, numa balada da Morena Bela, já se está beijando na boca e tanto pode ser homem com mulher, como mulher com mulher e homem com homem. É o fim do mundo.
   
   - Nostradamus, aquele alquimista francês que viveu no século XVI, na época do descobrimento do Brasil, prevê que isso - ressaltei: o fim do mundo - vai acontecer em 2018. Portanto, aproveite enquanto há tempo.
 
   - Aproveitar o que! V. Exa. não quer que eu saia beijando homem por aí nem que mude meu comportamento?
  
   - Não! Nada disso. Apenas falei para aproveitar o bom da vida porque Nostradamus fala numa imensa bola de fogo que vai eliminar o sapiens da Terra e aí não vai sobrar ninguém. Só as baratas. 

   - Vixe! Eu vou é tomar uma lá no Baratão de Sêo Marcel.
  
   E, em sendo assim, após o expediente, lá se foi Bino para o Baratão e eu segui para casa com meu bibiano de pavio longo, pois, na Serrinha deu pra faltar luz elétrica nas residências e a gente, mesmo reclamando da concessionária, não consegue uma explicação e tem prejuizos com a perda de comidas nas geladeiras. Eu mesmo perdi vários preás ofertado-me por um Colberzão da Feira, parente nosso.

  Em chegando na minha toca encontro minha neta Sol estudando na sala e Ester recomendando a Ju Fraldas, nossa secretária do Lar, para caprichar na minha sopa de legumas com folhas viçosas de cansanção. Entrei, beijei-as, coloquei o meu celular sobre a mesa e fui lavar o rosto e as mãos. 

  Nisso, quando estou lavando o rosto, toca o celular e peço a Ester para atender. Suspense! Só ouço ela dizer: - Quem quer falar com ele? 

   Ela então tapou com a mão o fone e disse para mim: - É Bino pintor que está lá no Baratão de Sêo Marcel.

   - Pergunte o que ele deseja? - recomendei a Ester.

   Bino então falou para ela que desejava dar seguimento a conversa sobre a "Cura Gay" e tomar uma gelada. 

   Ester bateu foi o telefone em sua fuça respondendo alto para eu ouvir: - Você se respeite. Meu marido não é especialista nesta matéria. Procure o presidente do Grupo Gay da Serra (GGS), a presidente da Associação das Lésbicas do Tanque Grande (ALTG) e vá catar cavaco pra não lhe dizer coisa mais forte.

   Sol levantou as sobrancelhas para me olhar. 

   Sentei na mesa esperando a sopa e Ester, não satisfeita com o que disse a Bino, subiu nos tamancos em minha direção: - Não sabia que o senhor (me trata de senhor quando quer ralhar comigo) agora é especialista em assuntos para gays e lésbicas, dito isso em voz gritante.

   A sorte foi que minha neta interveio: - Não grite assim com meu vô porque ele é um intelectual e sabe de tudo um pouco.

   Ju Fraldas caiu foi na risada e eu nada mais disse, salvo elogiar a sopa, uma delícia com as folhinhas de cansanção bem temperadas.