quinta-feira, 27 de junho de 2019
Colunistas / Causos & Lendas
Lobisomem de Serrinha

LOBISOMEM DE SERRINHA defende médicos estrangeiros e lembra do Tayuyá

Serrinha desde sua fundação ficou mais de 200 anos sem médicos com população sendo atendida por farmacêuticos e curiosos da medicina
14/09/2013 às 07:19
Quero dizer que sou favorável a vinda de médicos estrangeiros - portugueses, espanhóis, cubanos, argentinos, etc, - para atuarem no Brasil, pois, falo de cátedra do alto de minha idade com mais de 280 anos, prestes a completar 281 em abril próximo, e sei o quanto sofremos com a falta de médicos.

   Os humanos nunca entendem essa minha idade e aqui na Serra se vangloriam que dona Alice Hortélio faleceu aos 106 anos de idade, feito notável, ela, aliás, que sendo espírita não morreu e apenas desencarnou e eu ainda estou vivo, sendo seu mais antigo cliente do velho cartório da Praça Manoel Victorino, casarão que hoje está abandonado.

   Claro que não vamos querer entre nós médicos da China, da Índia, da Rússia, da África do Sul países que integram os BRICS porque esses camaradas falam umas linguas que ninguém entende e seria impossível, por exemplo, que Anselmo da Farinha ou Sêo Foba do Bar fosse atendidos por um deles, sem entender patativa do que dizem.

   Já é complicado dialogar com esses médicos que falam espanhol e também com os portugueses, mas, menos mal. Dizer que espanhol é igual a português é ledo engano, porque joelho é rodilla, cabeça é cabeza, pé é pie.

   Então, em tempos pioneiros da Serra, quando não havia médicos, as familias procuravam era Seo Trasybulo Bastos, da Pharmácia Serrinha, para se curarem. Quem tivesse uma doença mais grave fechava o paletó e fim de papo. No mais, o Elixir de Nogueira e a Emulsão de Jonas serviam para tudo: hemorroidas, dores de cabeça, enxaqueca  prolongada, prisão de ventre, rubões, caganeira, constipio, asma e assim por diante.

   Lembro de uma vizinha nossa que foi acometida com pedras nos rins, não conseguia fazer xixi tais as dores, e teve gente que deu vários palpítes para curar a moça. Um sujeito chamado Arnaldo Bocáfria mandou que ela fosse sentar na pedra branca da Santa, ao sol quente, que resolveria o problema; um outro de nome Gaita mandou que ela tomasse meio copo de leite de mangaba que era pá e bola.

   Mas, ela só se curou mesmo depois que bebeu meio frasco de emulsão de Jonas comprado na Pharmácia de Sêo Trasybulo e tomou o Antigal de Dr Macahdo. As pedras quebraram e a moça fez xixi à mancheia. De quebra, pra ficar com sustança e não ter reumatismo muscular ou cerebral, porque teve que ficar de cama, utilizou por uma semana o depurativo Tayuyá.

   Agora, algumas pessoas com casos graves foram despachados para Salvador no trem da Leste porque só lá seriam curados. Uns morriam pelo caminho e nem chegavam a capital. Teve um moço que morreu logo depois da Estação de Água Fria e a familia desembarcou com o defundo em Alagoinhas esperando o trem de volta, o Pirulito, à noite, para trazer o camrada a Serra.

  Pior foi que enrolaram o defunto num lençol porque o caixão em Alagoinhas era caro e ele foi transportado assim, sentado e enrolado no lençol. Quando o fiscal dos bilhetes foi conferir a passagem do tal, a mulher do homem disse que ele estava morto e o fiscal não acreditou, quis descobrir a cara do homem e assim foi feito. O fiscal saiu foi correndo pelo corredor do vagão porque quando abriu a parte da cara do dito, o camarada já estava arroxeado, com dois tufos de algodão nas narinas e a boca aberta saindo uma gosma.

   - A viúva ainda disse ao superior dos fiscais que também foi conferir o defunto: "Bem que avisei pra ele que Manezim tava morto".

   Então, o primeiro médico que chegou na Serra foi dr André Negreiros para atender os servidores das Endemias Ruais e depois do Leste Brasileiro, a linha do trem que se instalou em 1890. Dr Negreiros, fiho de Queimadas, só aportou na Serra em 1924, depois de formado e instalou nas horas vagas um consultório particular. Camarada inteligente, em 1930, com a revolução tenentista de Getúlo foi nomeado prefeito  ficando 8 anos no cargo. Daí que virou político, foi deputado, cacique do PSD e diretor da Faculdade Baiana de Medicina onde ajudou alguns serrinhenses a entrar pela janela.
 Nunca me consultei com Dr André. Meu médico preferido era Dr Miguel Nogueira, o qual só subia a ladeira da colina de sua casa andando de costas. A partir daí, anos 1920/30, a Serra se encheu de médicos ou pelo menos nunca faltou na sede. Nos distritos e povoados, até hoje, nem pensar. Hospitais, também, até hoje, estamos carentes. UTI só a do céu. 

   Pra manter nossa tradição de bons farmacêuticos e curiosos "médicos" e parteiras temos bastante. De sorte que, no nosso caso, precisariamos aí de uns 5 a 7 médicos médicos estrangeiros para supir a nossa demanda. 

   No Subaé, semana trasada, uma parente nossa, de Ester Loura, minha santissima esposa, morreu de um corrimento químico. Como não tem mais Antigal de Dr Machado, uma parteira curiosa receitou uma porção de mastrúcio pisado com leite, mel e cravinho. Depois que a dita tomou a beberagem teve uma tosse convulsa e lá se foi. 

   O mais sintomático foi que a fal parteira ainda levantou a saia da moça pra ver se o corrimento tinha passado e ainda teve a ousadia de dizer que, do "corrimento ela foi curada".