segunda-feira, 17 de junho de 2019
Colunistas / Causos & Lendas
Lobisomem de Serrinha

LOBISOMEM DE SERRINHA come o bacalhau da Barão e revê a velha guarda

Bacalhau da Barão foi evento da melhor qualidade e a comida estava ótima, eu atesto e assino embaixo
12/04/2013 às 13:15
Todo mundo sabe que meu forte em paladar, na boa mesa, são bichos com penas e plumas: faisão, raposas, galinhas, peruas, codornas e perdizes, me amarro numa moqueca de anun preto, um ensopado de tatu aceito de bom coração e assim por diante. 

   Daí que resisti ao que pude diante de um convite do neto de Sêo Jovino, na última sexta-feira santa, para comparecer ao convescote do Bacalhau da Barão, uma festa profano-religiosa promovida por Jorge Mattos e amigos da associação da rua do Barão de Cotegipe, aqui na Serra, sabe-se Deus quem colocou esse nome do barão João Maurício Wanderley, braço direito de dom PedroI, por acá, ele que nunca pisou os pés nem na gare do nosso trem, quanto mais ter andando aqui pelo sertão.

   Então, depois de ter subido o Morro Guarani orando em cada cruz da via sacra e colocando uma pedra no topo de cada uma delas, como manda a tradição, me encontrei com o padre Oldsak, Sêo Zefirino Butiá, Ito e Melvar Brizolara, Dr Bira Mercês, Sêo Zecão da oficina, e também notei a ausência do cabo Tadeu e do seu parceiro boliviano Saul violeiro, tomei um banho na água da Fonte de Sêo Pinto, me arrumei com roupa discreta, montei minha mula Graciosa, coloquei minha esposa dona Esterloura na garupa, minha netinha Sol no cabeçote da sela e lá fomos nós para o dito evento, onde nos esperava com tapete vermelho Jorge Mattos, o neto de Sêo Jovino, que já foi meu vizinho de cerca no bairro de Oseas, Keel, o filho do botequier Teco e demais amigos.

   E vou dizer uma coisa pra início de conversa que foi uma maravilha o bacalhau da Barão ainda que tenha comido pouco porque, após esse evento, aguardava-me uma frigideira de robalo na casa da minha sogra, e tive que comer com moderação, beliscar.

   O melhor do bacalhau, no entanto, foi rever alguns amigos e amigas da velha guarda, pois, desde o fechamento do Bar de Foba, que era nosso ponto de prosa, ficamos sem esse prazer. 

   No Bacalhau da Barão, eis que estava Foba, ao vivo e a cores, com cabelo pintado, Sêo Cláudio filho do velho Nozinho de Gódi e sua irmã a professora Claudenita, o filho de Sêo Jair Barreto, Zezinho, três viúvas amigas belíssimas; Elísio prosador, o irmão do poeta Short; João Galinha corredor; o irmão de Vando goleiro; Rosa costureira; o alcaide Osni, a esposa de Sêo Luis Carlos Mota dona Noemi, minha aderente, Chicão de Dona Dina  de Sêo Reginaldo ferroviário, Joãozinho contador, Amarante da Loja de Sêo Henrique, Dr Jairinho de dona Dita e Sêo Aurélio, Sêo Safira e dona Cleilza e tanta gente boa que faltou tinta de minha caneta para anotar.

   Ainda, de quebra, depois de saborear o bacalhau que Sêo Jorge me ofertou acompanhado por umas 4 ou 5 brahmas que Sêo Chicão colocou na mesa, ganhei um livro autografado pelo neto de Sêo Jovino sobre Santo Antonio, chamado Ten-Coronel Santo Antônio da Bahia e eu lá sabia dizer que esse santo tinha sido militar, porque aqui na Serra desde meu tempo antigo, coronel e ten-coronel foram Nenenzinho, Pinheiro da Mota, Joaquim Hortélio, Antonio Nogueira, Marianno Ribeiro, e capitão retado foi Bispo, do glorioso Exército que quase me prende certa ocasião, eu e Siri cinegrafista (que Deus o tenha em sua morada) e Sêo Timo (que Deus tb o tenha na glória divina), isso na época do Golpe Militar, quando a gente jogava uma partida de snooker no Beco da Lama e o dito capitão confundiu nosso grupo como agentes guerrilheiros já que todos usávamos barbas e cabelos compridos.

   De nada reclamei sobre o bacalhau. Apenas disse a Chicão quando me perguntou pelo sabor do prato servido que o mesmo estava um pouco salgado, certamente porque não colocaram de molho na véspera numa bacia com água da Bomba.

   Também aproveitei a oportunidade e fiz uma visita a casa de dona Rosa costureira, viúva de Sêo Pi relojoeiro, e gostei muito de sua residência, arejada, bacana, onde ela vive só e Deus, e arrisquei perguntar se ele não gostaria de casar de novo, não comigo, óbivo, porque adoro minha Esterloura e ela me disse que, pretendente não faltava, mas fez a ressalva com um  "Deus me livre", se benzendo três vezes.
Insisti e ponderei que ela poderia conseguir um homem de posses, um cidadão estudado e educado feito doutor Josenito dentista, ou Zé Cinquentinha, e ela rodou a baiana e afirmou que estava satisfeita com sua aposentadoria, que não costurava mais, que a máquina estava coberta com um pano (apontou-me o equipamento em cima de uma mesinha) e mais falou que havia fechado o balaio para sempre.

   Lembrei-lhe, no entanto, que na tradição cristã da semana santa recomenda-se o fechamento do balaio, dos pecados da carne, de vaca, de boi, de coelho, e do bichinho cabeludo, a partir do domingo de Ramos até a sexta santa, este um dia sagrado que não se pode sequer pegar num seio, evitar-se ainda o as tentações do fogaréu da quinta, mas, que no sábado de Aleluia, com toda honra e glória, abre-se o balaio do amor.

   - Nada, nem Judas que desça do céu me faria cometer tal pecado e olhando para o retrato de Pi colocado em cima de uma cristaleira, benzeu-se várias vezes e encerrou a conversa.

   - Amém irmã... despedi-me e lá me fui com minha mula Graciosa, dona Esterloura e minha netinha Sol de volta para meu sitio doido pra cehgar logo o sábado da Aleluia e me enroscar nos cabelos perfumados de dona Ester.