ter?a-feira, 18 de junho de 2019
Colunistas / Causos & Lendas
Lobisomem de Serrinha

LOBISOMEM de SERRINHA quer passaporte diplomático igual ao do bispo

Lobi faz milagre operando chuvas com trovões, enxurrada e tanques cheios no sertão da Bahia
24/01/2013 às 18:18
Todo mundo sabe aqui na Serra que faço meu mercadinho mensal no Carrefour, arredores de Paris, na compra de umas coisinhas que minha esposa, filhos e netos adoram - champagne Chandon, vinhos da Provence y Roussilon, queijos Camembert e Roquefort, biscoitinhos e brioches do Languedoc - e assim por diante.

   Ultimamente, no entanto, o pessoal da alfândega tem implicado com a minha imagem, esses humanos franceses são broncos, y ficam tentando vetar meu acesso ao saguão do Aeroporto de Orly, quando não, brutamontes brasis, em retorno à pátria, revistam minhas bagagens como se estivesse trazendo algum contrabando, quando, na realidade as botellas de champagne e os queijos são para meu consumo familiar.

   Na última viagem a Europa levei comigo a minha santa esposa e esticamos até Londres, e foi aquela implicância em Doover, no Canal da Mancha, uma inglesa sardenta e feiosa como a deusa do Tracupá, querendo saber o que fazia no Brasil, quanto ganhava, sem entender que sou o maior exportador de tachos de cobre para o Mercosul, e ainda ficou tirando lero com a minha esposa, a qual é contabilista e ela, a sardenta, só queria classificá-la como financsista.

   Lendo o glorioso A Tarde, o que faço regularmente desde os tempos de Simões Filho, há 100 anos, vi que o nobre governo tupiniquim está concedendo passaportes diplomáticos a pastores de igrejas evangélicas, e a comunidade gay também está a reivindicar, portanto, nada mais justo que também queira um passaporte diplomático.

   Diante de tal fato convoquei a nossa força política aqui na Serra, o vereador Reizinho, o empresártio Alirio Vermelho e botequier Teco para fazermos uma avaliação preliminar de minha reivindicação e decidimos que, se for o caso, podemos arregimentar os préstimos do nosso alcaide Cardozão, do parlamentar estadual e um dos nossos parentes, o Penedão; do agora nosso representante no médio clero, o Colberzão; e também pedir ajuda a Durvalão na Câmara Alta, que é um politico de poderes divinatóriois.

   Dito isto, por sugestão de minha esposa, a qual também participou do encontro para fazer a ata, sugeriu que reunisse a nossa comunidade dos Lobisomens da Regional NE/BA - os colberzões, de Feira; os Lapões, de Quinjingue; os Liozões, do João Vieira do Araci; os Penedões, de Tucano; os Culhões, de Canudos; os Cedrazões, de Valente; os Mirandões, do Lamarão - no sentido de fazer uma reivindicação mais ampla, uma vez que, em termos históricos somos pioneiros nesta região desde a época dos kiriris, do bando de Silas e de Antonio Conselheiro, de Apolonio de Todi, e assim o ministro Compatriota  se sentiria mais pressionado e não negaria.

   E que fosse feito um arrazoado de cada um dos feitos dessas famílias em prol da Pátria, nossos serviços prestados, porque nossa riqueza, de todos juntos, não daria a metade do dinheiro do bispo citado pela Forbes como o mais rico da Pátria, o qual possui divisas de R$1.9 bilhão, quiça também um quinto do capilé da bispa, pois a gente nunca ouviu falar em bilhão, no máximo em milhão, as espigas de milho grande do Armazém de Sêo Zipriano.

   Foi lembrado também que se acrescentássemos aos nossos bens, a frota de veículos de Alírio Vermelho, compostas por 4 chevetes e duas C10, importando algo em torno de R$100 mil nada resolveria, valendo mesmo é que temos história e temos honra

   Quando a gente estava fechando a reunião, minha esposa fazendo os últimos aviamentos da ata e deixando um espaço em branco para que zelosas testemunhas pudessem assinar ad encontro, nosso grupo ecumênico - Dona Pombinha, dona Suzana do Detran, Ósanta de Oxaguiã, um representante de Silvio Cachoeira, recém falecido, Givaldo do Centro Deus Cristo e Caridade, o vereador Reizinho sugeriu que apensasse na ata um pedido de ajuda ao governo federal para combater a seca, o que concordei, e que se procedesse uma oração uma oração a São Pedro, por chuvas já, chuvas imediatas.
E quando a gente estava orando, todo mundo de olhos fechados, ouviu-se um pipoco enorme, parecendo que tinha estourado um transformador de energia. 

  Teco então se levantou e colocou o rosto pela janela para verificar o acontecido, quando um raio cortou o céu, queimou a aba do seu chapéu e o arremessou de volta à sala, lançando-o sobre uma cristaleira, minha esposa gritou valha-me Deus e pegou lençóis para cobrir os espelhos da casa, sendo que, imediatamente faltou luz da Coelba e a trovoada comeu no centro, cada trovão que mais parecia o fim do mundo e raios que estalavam mais do que a chibata do Demo.

   Nisso, Reizinho começou a cantar uma ladainha em louvor a São Sebastião, "o rei vai voltar/ a chuva vai durar/ os tanques vão encher/ é o milagre do lobisomem", e tudo isso foi registrado em ata como aqui descrito, consignado como milagre e fim da seca, o que certamente vai ajudar na liberação do meu passaporte diplomático.