segunda-feira, 03 de agosto de 2020
Colunistas / Esportes
Zé de Jesus Barrêto

“MARACANAZO” 70 ANOS E FESTANÇA DO REAL EM MADRID, p ZÉDEJESUSBARRÊTO

O Real Madrid é o campeão espanhol da temporada repleto de brasileiros
17/07/2020 às 12:11
 O futebol, maior dos esportes do planeta, é feito de glórias e ‘catástrofes’, conquistas e debacles muitas vezes inexplicáveis, incompreensíveis. Este 16 de julho é exemplar.
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   Real Campeão Espanhol

   Eufórica, em festejos nas ruas, mesmo com as preocupações da pandemia, está madrugando Madri, a capital da Espanha, com a conquista na tarde dessa quinta-feira, do título de Campeão Espanhol pelo Real Madrid, vencendo por 2 x 1 a equipe do Villarreal, no estádio Alfredo Di Stéfano (CT do clube), arquibancadas vazias. Algo inédito na história do clube que chega aos seu 34º título espanhol, dessa vez com uma rodada antes do final da competição, superando em 7 pontos na tabela de classificação o rival Barcelona, de Messi (que perdeu, também de 2 x 1 para o Osassuna, no Camp Nou).     

   O time, treinado por Zidane, jogando de forma pragmática e consistente, sobrou na competição. Contou com um goleiro extraordinário (Courtois), o capitão Sérgio Ramos, talvez hoje o melhor zagueiro do mundo, uma meia cancha de dar gosto (Casemiro, Modric e Kross) e o goleador Benzema, na frente – os grandes destaques. Um título mais que merecido.
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     70 anos da tragédia  

     Não importam os 7 x 1 da Alemanha em 2014, no Mineirão, sobre aquela apática e opaca seleção brasileira treinada por Felipão. Virou galhofa aquela vergonha. Bem mais sofrida do que aquela goleada foi aquele 3 x 2 contra a Itália, em 1982, no defunto Estádio Sarriá, na Espanha. Foram três gols de Paolo Rossi e um desolo nacional com a volta pra casa, de forma injusta e antecipadamente do bom e carismático time de Telê Santana (de Zico, Sócrates, Falcão, Cerezzo, Leandro, Junior...). Perdeu porque não era para ganhar, ou não soube; os deuses da bola assim quiseram, naquele dia. Vi muita  gente chorando pelas ruas. 
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   Mas nada, nada mesmo se compara em termos de tristeza e, digamos, tragédia ao que aconteceu no dia 16 de julho de 1950, um domingo, no Maracanã – o Estádio Mário Filho, maior do mundo, recém inaugurado e lotado, com 200 mil pessoas lá dentro, espiando – na final da Copa do Mundo, a derrota de virada, 2 x 1 para o Uruguai. Enlutou o país e nos deixou profundas cicatrizes, amarguras mesmo. Até expondo nosso camuflado e perene (?) racismo.   
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  Foi mais terrível porque estávamos com o título ganho, bastava-nos um empate. O otimismo e a certeza do triunfo eram tanto que os grandes jornais, naquele dia, saíram às ruas com fotos abertas da equipe brasileira, maravilhosa, manchetando: “Os nossos Campeões do Mundo!”.

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  Sim, tínhamos equipe para vencer e jogávamos até ali uma copa irretocável, invictos e com goleadas de 7 x 1 sobre a Suécia e 6 x 1 sobre a Espanha. Os valentes uruguaios, nossos vizinhos do Sul, chegaram à final na marra, sofrendo. 

  Pra se ter uma ideia da superioridade brasileira, naquele fatídico jogo, criamos 30 chances de gol, finalizando o arco do grande goleiro Máspoli, em dia de graça. Os Uruguaios chutaram apenas 12 vezes contra o gol do bom e desafortunado Barbosa. Depois do gol de Ghiggia, aos 34 minutos do segundo tempo, eles mal passaram da linha de meio campo, acuados, resistindo. E venceram. 
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  O primeiro tempo foi todo nosso, buscando o ataque, fustigando, dominando, mas o gol não saiu. Friaça abriu o placar logo no começo da segunda etapa. Tranquilo. Mas, aos 21 minutos, após uma arrancada pela direita de Ghiggia, explorando correria em cima do duro lateral Bigode, o cruzamento rasteiro da linha de fundo para trás pegou nossa zaga desarrumada e o artilheiro Schiaffino acertou o chute de prima, de frente, assustando, balançando nossa certeza, igualando o placar. Ainda estávamos com o título nas mãos, o empate nos favorecia. Mas ...

  Repetindo a mesma jogada do gol, Ghiggia foi lançado em profundidade nas costas de Bigode, venceu na corrida e quando Juvenal chegava na cobertura, ele, meio sem ângulo, acertou um chute rasteiro entre a trave e o goleiro Barbosa, que esperava um novo cruzamento do ponteiro uruguaio para o meio da área. Gol !, aos 34 minutos, calando de vez as arquibancadas do Maracanã, o país inteiro acompanhando perplexo até o apito final, quando todos os brasileiros desabamos em choro compulsivo, do Oiapoque ao Chuí. Não dava para acreditar. Uruguai, Campeão do Mundo, na nossa casa.
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  Tá, eles tinham uma equipe raçuda, determinada, consciente e com uma tática de jogo que liquidou toda nossa superioridade. Fechada atrás, marcando firme, catimbando, explorando os contragolpes em velocidade quando nossa equipe, fogosa, ia inteira pro ataque. O estrategista era o treinador Juán Lopez e o grande Capitão em campo foi o meia Obdúlio Varela, que berrava com garra a cada disputa de bola. Os uruguaios estavam mordidos com a arrogância dos brasileiros, que já posavam antes da bola rolar como ‘Campeões”.  Exemplar castigo. 
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  Diria Obdúlio, anos depois:  “Jogaríamos dez vezes contra o Brasil e perderíamos nove. Mas aquela partida tínhamos de vencer, e vencemos”. 

  Ghiggia, o grande herói e decisivo no jogo, disse orgulhoso, anos depois : “ Só três pessoas calaram o Maracanã. O Papa, Frank Sinatra e eu”. 

   Na verdade, naquele dia, Ghiggia silenciou foi o país inteiro. Mas, mesmo eufóricos com o triunfo e o título, nossos hermanos da “Celeste Olímpica” não tripudiaram, foram humildes e consolavam nossos atletas em lágrimas com abraços, afagos e palavras, ainda no gramado.  
 

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-  O Brasil de 1950 era governado pelo General Eurico Dutra; Getúlio seria eleito meses depois.
- Tínhamos uma população de 52 milhões de pessoas e nossa inflação era de 13% ao ano.
- A ‘grande imprensa’, que festejou antecipadamente, elegeu como culpados o goleiro Brabosa, negro, para muitos o melhor que o Brasil já teve; o lateral Bigode, negro, forte, duro na marcação mas vencido na velocidade; e o grande zagueiro Juvenal Amarijo (que depois veio encerrar a carreira no Bahia, e morreu em Itapuã, há alguns anos). No mais, condenaram a nossa camisa branca, como azarada, nunca mais usada. 

 - E a perda da Copa nos gerou, segundo o cronista Nelson Rodrigues (irmão de Mário Filho, que deu nome ao Maraca) a tal síndrome de ‘cachorro vira-latas’; síndrome essa que só foi superada em 1958 com a geração Pelé, Garrincha, Didi ...  vencendo a Copa do Mundo na Suécia, assombrando o planeta com um jeito de jogar bola diferente. 
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 As equipes da final:

  Uruguai, Campeão -  Máspoli, Matias Gonzalez e Tejera; Gambotta, Obdúlio Varela e Rodriques Andrade; Ghiggia, Julio Perez, Miguez, Schiaffino e Morán. 
  O Brasil do treinador Flávio Costa – Barbosa, Augusto e Juvenal; Bauer, Danilo e Bigode; Friaça, Zizinho, Ademir (artilheiro da competição com 9 gols), Jair da Rosa Pinto e Chico. 

  Assim diz a História : Futebol se ganha em campo, nunca de véspera; tampouco no nome, na camisa.