quarta-feira, 23 de outubro de 2019
Colunistas / Política
Tasso Franco

CARIMBOU: Neto vai ter que mudar perfil de sua gestão para reeleger-se

O prefeito precisa sair mais do gabinete e estabelecer um cronograma de obras e ações nos bairros de população mais pobre da cidade
02/05/2015 às 12:07
   1. A tragédia anunciada com a morte de 15 pessoas em Salvador decorrente das chuvas e do deslizamento de terras em dois bairros - Barro Branco/San Martin; Marotinho/Bom Juá - vai obrigar o prefeito ACM Neto fazer mudanças no perfil de sua gestão, até agora mais voltada para a classes média e média-alta, direcionando ações para as áreas mais carentes de infra-estrutura da cidade. Evidente que a Prefeitura não atua só para as classes citadas e tem uma ação espacial mais abrangente e até instalou algumas Prefeituras nos bairros.

   2. Acontece que a visibilidade dada pela midia as obras das orlas Atlântica e Baía de Todos os Santos, especialmente a Barra, a Ribeira, São Tomé de Paripe, Ondina e Itapuã - lá vem o Rio Vermelho por aí, cujo lançamento foi atropelado pelas chuvas - e uma quantidade enorme de festas - Copa, Carnaval, Festival da Cidade, Revéillons, etc -, bem como os investimentos feitos na requalificação do asfalto dos corredores principais de tráfego - Avs ACM, Juracy Magalhães Jr, Luiz Viana, Centenário, etc - fizeram com que a gestão ACM Neto, até agora, ficasse mais conhecida como festeira e para a classe média.

   3. Além disso, os procedimentos administrativos da Prefeitura - aumento exagerado do IPTU - ordenamento de parte dos ambulantes do centro comercial da Avenida Sete, os debates sobre Lous, PDDU e Outorga Onerosa, a rigidez da Sefaz em alguns procedimentos - a TFL subiu assustadoramente - fez com que a cidade se organizasse mais, embora, sempre dando a impressão que esses procedimentos beneficiam as áreas mais ordenadas - que a oposição midiaticamente chama de áreas nobres - e voltadas para as classes mais favorecidas.

   4. Isso tudo fez com que, ações da Prefeitura para os mais necessitados - e aí destaca-se o trabalho da SMS (Saúde) com reativação e ativação dos PS, as UPAs e Policlinicas; a regularidade mediana e razoavelmene eficiente da rede de ensino municipal que são os pilares do social ficassem fora do foco. As pessoas sabem que a saúde melhorou mas isso não é passado para o conjunto da sociedade e a Prefeitura não expõe isso como mais avidez na midia institucional porque obras - iluminação, calçadão, etc - são mais charmosas.

   5. A Prefeitura também faz obras nesses bairros mais pobres, porém, aquém do esperado e do merecido. E o que se faz também é pouco divulgado. Essa é uma tarefa dificil para a Agecom. Lembro que na gestão Imbassahy - 8 anos - foram pavimentadas mais de 250 ruas no Subúrbio Ferroviário, o Alto da Terezinha, o Rio Sena, a Av São João, as principais avenidas de Paripe, Glória, Tamandaré, mas, mesmo assim, as pessoas fora desse circuito não acreditavam. 

   6. ACM Neto está com 2 anos e 4 meses de governo, muito já fez, mas, agora, com esse carimbo das 15 mortes e de prefeito que só olha para as áreas nobres - bandeira da oposição - vai ter que mudar. Ou muda, ou dançará os 33 anos da Axé Música fora do governo. Não se reelejerá. Veja que, agora, o governo do estado está nos seus calcanhares exatemente atuando nas áreas mais carentes, quer com a ajuda como aconteceu no caso do rompimento da adutora e agora nas chuvas, com atuação firme junto aos pobres. Além disso, seus projetos estruturantes passam pela ampliação do metrô e vias transversais que vão da Orla Atlântica ao Subúrbio.

   7. Ademais, a Secom tem sido mais eficiente do que a Agecom na sua formulação da midia paga, por ser mais abrangente e ter mais recursos, e por ser mais democrática e inteligente. Vimos isso no Carnaval - que deixou de ser dominio da Prefeitura - e estamos vendo isso agora.

   8. Em outras épocas, a pobreza derrubou prefeitos. Na década de 1970, Roberto Santos nomeado pela ditadura militar governador da Bahia (1975/79) nomeou Jorge Hage prefeito da capital. A Igreja Progressita e a esquerda clandestina incentivaram as invasões urbanas. Aí surgiu Marotinho. Hage era um professor universitário que só conhecia as ruas que davam ao Canela, sede da Reitoria, e quando chegou a Prefeitura e passou a andar pelos bairros se assustou com a falta de planejamento e as invasões. Caiu porque começou a fazer criticas a esse modelo e porque cobrou o IPTU de um veiculo de comunicação que não pagava e se achava dono da Bahia.

   9. É esse mesmo Marotinho que está aí. Barro Branco no Largo do Tanque e adjacências é ainda mais antigo. Depois vieram outros prefeitos nomeados - Edvaldo Brito, Fernando Magalhães, Manoel Castro, Mário Kértész - todos bem comportados. MK caiu quando se rebelou e reelegeu-se no voto. Fernando José foi eleito pela pobreza. E Lídice da Mata, em parte, também. JH foi o pai dos descamisados e das multas do trânsito. Um desastre administrativo com apoios do PT e do PMDB.

   10. De lá pra cá - de Hage a Neto - a cidade saltou de 1 milhão de habitantes para 3 milhões e só inchou em todas encostas e baixadas. Prefeito nenhum conseguiu remover as familias das áreas de risco. Teve até um veredor histórico Agenor Oliveira (falecido em 2009) que era o 'rei das invasões' com apoio da esquerda e da igreja. Agora, a solução encontrada foi chamar o Exército, instituição de credibilidade e que está fora do circuito do poder Estado/Município. Foi uma boa solução, mas, traumática.

   11. Alguém vai protestar? O PT? A esquerda caviar? A igreja das bases eclesiais? O PCdoB? Duvida-se.

   12. Portanto, passada a borrasca, Neto vai ter que mudar sua gestão e não adianta os deputados da oposição ao governo Rui ficarem dizendo que esse não é o momento de critica, que se deve respeitar os mortos, etc, porque isso em politica e no marketing não existe. O que mais se criticou no governo Wagner, inclusive na última campanha que elegeu Rui foram as mortes no sistema se saúde e as 40.000 da violência que tomou conta do estado.

   13. Ninguém espere por alivio porque vai ser pau na moleira e ACM Neto, mais do que ninguém, sabe disso. Essas 15 mortes vão aparecer na campanha de 2016, preferencialmente as manchetes de A Tarde e filmetes que estão sendo produzidos agora. Essa é a realidade.

   14. Primeiro estágio na mudança: ACM Neto tem que ir mais às ruas, sair do gabinete.