sexta-feira, 10 de julho de 2020
Colunistas / Política
Tasso Franco

A TARDE 100 ANOS: Memória da campanha de 1990 e a eleição de ACM

Fatos acontecidos na campanha de 1990
18/10/2012 às 08:58
Vou contar outra história legal para se inserir nas comemorações do centenário de A Tarde, jornal que sou assinante e leitor há 50 anos. 

  
Era editor de politica de A Tarde, em 1990, quando aconteceram as eleições estaduais. Na Bahia, o governador Nilo Coelho havia herdado o governo de Waldir Pires, o qual abandonara a gestão para ser candidato a vice-presidente na chapa de Ulysses Guimarães, e o PMDB estava bastante fragilizado.

   Lançou-se, então, o nome de Roberto Santos a governador, PMDB;  o PFL organizou a candidatura de ACM; o PcdoB lançou Lidice da Mata; o PRN, Luiz Pedro Irujo; o PT José Sérgio Gabrielli; e o PMN, Antonio Mendes.



   Estava trabalhando na editoria uma noite quando me liga o publicitário Geraldo Walter (Geradão) querendo uma conversa comigo na agência de publicidade D&E, onde atuava com Claudio Barreto, Sérgio Amado e Sidney Resende.



    No outro dia fui a agência que funcionava no Rio Vermelho e Geraldão, bem no seu estilo direto, disse-me: - Chamei-lhe  aqui para lhe convidar a fazer a campanha de governador de Luiz Pedro Irujo.



   Assim que completou a frase comecei a dar risadas e respondi: - Você está gozando com minha cara. Essa moço (deputado estadual) não tem a menor chance de disputar a eleição com competitividade - respondi.



   - A questão é que Pedro Irujo (eleito deputado federal no embalo da campanha Collor, 1990) está entusiasmado com o novo, com essa proposta de modernidade "collorida", tem muito dinheiro e a gente pode fazer uma boa campanha e ganhar gordo capilé - arguiu.



   - Se for por esse lado, posso pensar, lhe lembrando que sou editor de Politica de A Tarde e teria, se fechar um acordo, me demitir o jornal - comentei.



   - Pense numa boa proposta, algo que você não ganharia na A Tarde em três anos e pronto - respondeu Geraldão.



   Fui trabalhar na redação com aquilo martelando minha cabeça. Não falei nada a ninguém. Nessa época, além de editor de Politica, editava, também, o A Tarde Cultural e recebia praticamente salários de duas editoriais, bico que Jorge Calmon (editor chefe) havia conseguido para mim, exatamente para me "segurar" no jornal. Eu tinha uma relação de amizade muito forte com Jorge.



   Dias depois, Geraldão volta a me ligar e pergunta se já tinha feito a proposta. Respondi que sim e ele então marcou um encontro com Pedro Irujo.



   Nessa época, o ponto de encontro dos empresários era o Baby Beef no almoço de sextas, à tarde, quando o restaurante fervilhava de homens de negócios, politicos, autoridades e uma mulherada boa de se ver. Era um ponto de paquera, também.


Pedro tinha uma mesa cativa onde frequentavam Marcos Cidreira, Balazeiro, Portugal, Diego, Medrado, Aroldo Cedraz, pessoas amigas e lá fomos nós. Eu sequer conhecia Irujo.

   A conversa foi rapida e objetiva após a apresentação do basco a minha pessoa.


Geraldão foi quem falou: - O homem topa a assessoria e vamos fazer a campanha de Luiz Pedro. Depois, o papo girou sobre um candidato jovem, a exemplo de Collor e por ai seguiu.


   Restava, no entanto, tratar do "saneamento básico", o capilé.



   - Conversaremos em particular em minha casa amanhã - marcou o basco.



   Irujo morava numa enorme casa no horto e lá fui no dia seguinte com a proposta no papel. Ele me atendeu no quiosque. Olhou, olhou, disse que estava "mucho salgada" , mas, topou e assinou em baixo. Havia um sinal a receber e foi imediatamente pago. Negócio fechado, palavra dada.



   - Vamos começar logo, na segunda - frisou Irujo.



   - Tudo bem. Mas, antes, tenho que comunicar ao jornal A Tarde.


Fui para casa com a cabeça quente. A questão, agora, era comunicar a Jorge Calmon a minha saída do jornal. Eu folgava no sábado e trabalhava domingo, à noite. Jorge ligava toda noite para saber as noticias de politica e dar a manchete com Reinyvaldo.


   Aproveitei a deixa e comuniquei-lhe que precisavamos conversar na segunda, com certa urgência.



   No outro dia, cheguei ao jornal por volta das 9h e Jorge chegou aí por volta das 10h. Entrei em sua sala bastante sereno para manter clima de cordialidade e falei: - Dr Jorge (asssim o tratávamos) vim lhe comunicar que vou deixar o jornal para fazer uma campanha política.



   - Você perdeu o juizo meu filho! A Tarde é uma familia. Quem entra aqui e na posição que você está só sai aposentado - arguiu.



   - É, mas, a questão é que vou ganhar um bom capilé e essas chances são rarissimas de acontecer - respondi.



   - Para quem então você vai fazer esta campanha milionária? - questinou.


- Para Pedro Irujo, comentei.


   - Mas esse senhor é nosso concorrente, é nosso adversário...isso não é possível e não posso lhe liberar, completou.



    - É palavra dada Dr Jorge - adiconei - quando vi o editor chefe mudar de fisionomia, fechar a cara e responder: - Então vá, procure o departamento de pessoal.



   Como base nos dados fornecidos pelo departamento bati minha exoneração dando aviso prévio de 30 dias. Quando levei o documento para Jorge ele reagiu: - Você vai pagar os 30 dias trabalhando até eu arranjar novo editor.



   A partir desse momento comecei a trabalhar com Geraldão e Claudio Barreto na formatação da candidatura Luiz Pedro Irujo e indo a A Tarde. Com 15 dias, Jorge indicou Raimundo Machado para meu lugar e desliguei-me do jornal.



   A campanha de Luiz Pedro foi um fiasco. Deu uma boa largada e chegou a liderar nas pesquisas graças aos shows de artistas que faziamos no interior (Amado Batista, Virgilio e outros). Mas, quando ACM entrou no jogo ele afundou.



   Foi uma campanha violentissima, a gente "batendo" em ACM pra valer com o samba da "camisa listrada" e o "rouba mas faz"; e a Propeg, fazendo a campanha de ACM produzindo um filme (sorvetão) no qual mostrava Irujo Filho como "debiloide". Fomos parar na Justiça e Luiz Pedro, responsável pela campanha, acabou sendo condenado em primeira instância.



   No resultado final do pleito deu ACM em primeiro (1.642.726 votos 50.71%); Roberto Santos em segundo (1.039.875 votos 32.01%); Lidice da Mata em terceiro (308.998 votos 9.53%); Luiz Pedro em quarto 113.313 - 3.49%; Gabrielli  em quinto (112.233 - 3.46%); e Antonio Mendes (22.127 - 0.68%). A chapa Rosa Choque com Lidice/Salete e Bete (senadora) quase leva a eleição para o segundo turno. Waldir foi eleito deputado federal mais votado com 147.689 votos.



   Cada qual foi pro seu lado e a convite de Pedro Irujo me mantive em sua assessoria parlamentar (ele foi eleito deputado federal pelo PRN juntamente com Aroldo Cedraz e Marcos Medrado) e com a missão de reorganizar o Feira Hoje, montar um jornal em Salvador (Pedro queria dar o troco em A Tarde que bateu muito em Luiz Pedro) e trabalhar sua campanha a prefeito da capital, em 1992.



   Tudo isso fizemos depois: instalamos as primeiras rotativas goss em Feira, o jornal virou standart; fizemos bela campanha para irujo na capital (teve 100.000 votos) e motamos o Bahia Hoje, o primeiro jornal informatizado do estado.



   Em 1994, retornando ao marketing politico, também a convite de Geraldão e Sérgio Amado fui fazer a pré-campanha de Benito Gama (A Bahia é Benito) a governador do Estado. Foi nessa época, 4 anos praticamente "inimigo" de Jorge Calmon que contei a Benito minhas dessavenças com A Tarde e Jorge e ele me disse: - Deixe comigo que faço suas pazes com Jorge.



  Lá um dia fui a redação com Benito e retomamos nossa amizade. Jorge era um gentelman, me recebeu com todas as honras e ainda gozou com minha cara. - Você imaginar que poderia fazer Luiz Pedro Irujo governador da Bahoia é muita ingenuidade.



   O tempo passou, ACM deu "balão" em Benito e escolheu Paulo Souto candidato a governador, eleito em 1994, e acabei fazendo a campanha de Souto com a Propeg e Fernando Barros. Daí fui nomeado diretor geral da EGBA, a partir de 1995.



  Em 2001, já na Prefeitua de Salvador como secretário  de Comunicação, Jorge Calmon produziu a orelha do meu livro (Catarina Paraguaçu, a Mãe do Brasil) e ficamos amigos até sua morte.



   Escreveu então: "O instinto de repórter, que tem o faro do bom assunto, e o gosto da ficção, que é uma das vertentes de sua vocação de escritor, se juntaram para produzir este livro, cuja boa acolhida prevejo, assim chegue ao alcance do público que lê".



   Quando este livro foi publicado A Tarde deu uma nota criticando a Sec de Cultura que havia patrocinado a edição (sec Paulo Gaudenzi) e dizendo que eu tinha sido beneficado com recursos públicos.



  Aí peguei o telefone e liguei pra Jorge: - Estão criticando nosso livro em seu jornal. Não recebi um real de nada e o acerto foi feito entre a Secult e a Relume, ficando este autor apenas com alguns exemplares.



   - Meu filho, não há de ser nada, isso é coisa de Rios e o do seu repórter pitbull (Marconi). 
                                                           *****
Dos personagens citados neste texto: Jorge Calmon, Geraldo Walter (Geraldão), Rios, ACM e Ulysses já faleceram.

  Nilo Coelho é empresário; Waldir Pires foi eleito vereador na capital; José Sérgio Gabrielli é secretário da Seplan; Luiz Pedro Irujo empresário;  Roberto Santos, aposentado; Lidice da Mata, senadora pelo PSB; Marcos Cidreira, empresário; Balazeiro, advogado; Portugal, emprsário; Diego, empresário; Pedro Irujo, empresário; Marcos Medrado, deputado federal; Aroldo Cedraz, conselheiro do TCU; Claudio Barreto, publicitário atuando no Rio; Sérgio Amado, publicitário atuando em SP; Sidney Resende, empresário; Benito Gama, secretário de Estado no RN; Paulo Gaudenzi, consultor em turismo; Salete, aposentada; Bete, servidora pública; Reinyvaldo, empresário; Fernando Barros, diretor da Propeg; Marconi é advogado; Raimundo Machado, aposentado; e eu continuo batendo tecla.