sexta-feira, 03 de julho de 2020
Colunistas / Política
Tasso Franco

O dia em que A Tarde "colloriu" e "descolloriu"

Episódio que aconteceu em 1989
17/10/2012 às 11:49
Dediquei alguns momentos de minha vida profissional ao jornal A Tarde. Fiz inúmeros "free" nos anos 1970, produzi vários carnavais com Jorge Calmon, seu redator chefe, criamos A Tarde Cultural, produzi textos de cultura de Londres (1987) e fui editor de Cidade e Política, entre 1988 e 1990.
   Tem um episódio curioso e que conto agora no centenário do jornal. Era editor de política, ano 1989, quando Waldir Pires deixou o governo da Bahia para entrar na aventura de ser vice candidato a presidente da República na chapa com Ulysses Guimarães, PMDB.



   Nessa eleição, onde também disputavam Mário Covas (PSDB), Leonel Brizola (PDT), Fernando Collor de Mello (PRN), Luis Ignácio Lula da Silva (PT), Paulo Maluf (PDS), Guilherme Afif (PL), Roberto Freire (PCB), Aureliano Chaves (PFL), Enéas Ferreira (Prona) houve uma polarização entre Collor x Lula com Brizola nos calcanhares.



   Na editoria de política trabalhavam comigo os repórteres Raimundo Machado, David Oliveira e Valmir Palma e fazíamos a nossa parte dando espaços a cada um dos candidatos, com mais destaque, pela densidade eleitoral, a Collor, Lula, Brizola e Ulysses, nessa ordem.



   A direção empresarial do jornal era (não se dizia isso explicitamente) um candidato que não fosse Lula, até então, um "temor" para o empresariado.

   A direção jornalística tinha uma posição de neutralidade com o editor chefe, Jorge Calmon, sempre muito discreto e cuidadoso, e o secretário de redação, J.A.da Cruz, este, nitidamente, um "collorido", torcendo por Collor de Mello, um "fenômeno" que nascia no combate aos "marajás".



   Na Bahia, as forças políticas no 1º turno estavam assim alinhadas: Collor com o apoio do empresário Pedro Irujo; Lula com o nascente PT e seus militantes; ACM com Aureliano Chaves; Brizola com antigos brizolistas; os waldiristas com o PMDB.



   Certo dia, já durante a campanha propriamente dita, Collor fez uma visita ao jornal ao lado de Irujo e foi recebido com toda mesura pela direção da casa. A direção detestava Irujo (também empresário do ramo da comunicação), mas, deu tratamento "respeitoso" ao basco.



   Colocamos, com o devido destaque na matéria, uma ampla foto de Collor e as observações do candidato. Pouco tempo depois foi a vez de Lula vir a Salvador e fizemos o mesmo na editoria, dando destaque ao metalúrgico com ampla foto.
 
   Ao chegar à redação, à noite, o editor da primeira página, Reinyvaldo Brito, jornalista experiente, bastante sarcástico, chegou próximo a minha mesa e confidenciou-me:


   - Rapaz, o velho (Cruz Rios) não gostou desse destaque que você deu a Lula.   



   - Natural que assim fosse, demos Collor e agora Lula e se Brizola vier por aqui terá o mesmo tratamento - respondi.



   - É, mas Dr. Rios (era assim que o chamávamos) acha que você é do time dos barbudinhos. Portanto, tenha mais cautela.



    A campanha seguiu em frente e acentuou-se a polarização Collor x Lula com a editoria equilibrando os destaques.



   Mais adiante, já no final do primeiro turno, Lula fez um daqueles comícios emocionantes e sapecamos uma foto enorme na página com um texto pró-lulista.



   A gente tinha hábito de, "fechado" o jornal, (fechado no sentido de concluído o trabalho do dia) ir ao Baby Beef tomar chopp, especialmente eu, Machado, Valmir e David.

   E, claro, o papo era sobre política, Lula x Collor. Os garçons ficaram chateados quando a gente chegava no Baby aí por volta das 11 da noite, porque só saiamos no lixo, a casa já sem receber clientes e a turma pedindo a saideira.



   Dia seguinte, quando chego à redação, lá vem Reinyvaldo já dando risadas:

   - Você está é lenhado. O velho disse que vai lhe devolver pra Serrinha depois dessa foto de Lula na página e todo destaque. Pede pra ir conversar com ele amanhã. Ele acha que você "lulou" de vez.



   - Gelei, pensei com meus botões, vou perder o emprego.



    De vez em quando Reinyvaldo dava uma volta na redação pedindo os destaques para a primeira e gozava comigo: - V ta é f....



    Lá fui conversar com o secretário, no dia seguinte, o qual era também o editor de opinião do jornal. Dr. Rios chegava em A Tarde por volta das 9h30min e quando entrei na redação já estava no "aquário" (apelido de sua sala envidraçada que dava visão para redação).



   - Pronto, comandante, estou aqui para saber o que se passa? - me apresentei.



   - Pensando bem, não vou lhe mandar de volta pra Serrinha, como comentei com Reinyvaldo, era só uma brincadeira. Mas, vou lhe transferir da editoria. Você está muito "lulista". A partir de amanhã você vai trabalhar aqui comigo fazendo o editorial e Velame (Aurélio Velame) vai para seu lugar, à noite, comandar a editoria de política.



    Sem ter saída, salvo pedir demissão e cuidar dos meus bodes, aceitei.



    E assim foi feito: passei a escrever o editorial e Aurélio foi ser editor de política.



    Do ponto de vista do expediente sai até ganhando porque passei a trabalhar pela manhã, das 9 às 13h, no máximo, enquanto na editoria de Política o trabalho era a noite das 17h até quase meia noite, e mais um plantão de editor, uma vez por semana, até as 2 da matina.



    Concluído o primeiro turno deu Collor x Lula, em novembro, com segundo turno para o dia 17 de dezembro com vitória apertada de Collor 49.94% dos votos (35 milhões) contra 44% de Lula (31 milhões).



   Dr. Rios era só euforia e produzimos um editorial daqueles, de enaltecer a figura do jovem presidente, destemido, valoroso e assim por diante.



   Um dia depois estávamos no Baby quando a televisão anunciou que Collor iria fazer o confisco da poupança dos brasileiros, especialmente "daqueles que mais têm", "dos marajás", "dos ricos" e por ai seguia com toda empáfia.



   - Hic! Comentei com a galera. Já tenho o editorial de amanhã.



     E começamos a fazer as contas das perdas. Salvo engano foi Machado que disse: - Meu dinheiro na poupança não dá nem pra comprar uma bicicleta.



    - E o meu, poxa, pensei em usar para melhor meu Fiat (Fiat 147 comprado na mão do diagramador Roberto Vicente) que está caindo aos pedaços.



    Dia seguinte cheguei à redação com o editorial na cabeça e encontro Dr. Rios "vermelho" (era uma personalidade branca, baixinho e que o sangue subia a face quando ficava nervoso, jornalista de temperamento forte e que não levava desaforo para casa).



    Assim que entrei no "aquário" lhe disse: - Já tenho o assunto do editorial: -  o confisco da poupança".



   - Muito bem. Quero que você faça um texto sentando à pua neste f...da...puta que confiscou nossa poupança, que quebrou a nossa confiança, que está dando este presente de Natal a população brasileira - quase fazendo um discurso na sala.



    Sai do "aquário" com uma vontade enorme de dar risada, mas, me contive. E aí meti a zorra em Collor.



    Uma semana depois, Dr. Rios me chama ao "aquário" e diz: - Conversei com Jorge (Jorge Calmon) e vou lhe devolver a editoria de política. A Tarde tinha descolorido.



    E assim foi feito para alegria geral da editoria e do nosso chope noturno do Baby.


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    Três dos personagens dessa história já faleceram: Jorge Calmon, J.A. da Cruz Rios e Aurélio Velame.Raimundo Machado aposentou-se do jornalismo e Reinyvaldo Brito, idem. David Oliveira mora em Brasília e segue no jornalismo institucional. Valmir Palma continua em A Tarde e é o repórter (editorialista) mais velho da casa. Roberto Vicente, salvo melhor juízo, tem uma casa de material de construção no interior. E eu continuo batendo tecla e lembrando dessas figuras fantásticas do jornalismo baiano.