quarta-feira, 20 de janeiro de 2021
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA DESFRUTA DO LIVRO 'VOLTO JÁ', DE HAPE KERKELING

Uma narrativa bem humorado do Caminho de Santiago, o tradicional. A venda em vários portais de literatura.
14/01/2021 às 14:45
 Hans Peter Kerkeling é um comediante alemão intérprete de personagens bem populares na TV do seu país - com alcance na Áustria, República Theca, Hungria e outros países mais ao Norte - que se tornou ainda mais famoso ao escrever um livro de sua trajetória pelo Caminho de Santiago, o tradicional, francês, saindo de Saint-Jean-Pied-de-Port nos alpes atravessando as comunidades autônomas de Navarra, Rioja, Aragão, Leon e Galiza - até a cidade de Santiago de Compostela onde se encontra, supostamente, a arca contendo os restos mortais do apóstolo Santiago, Iacob, em latim.

  Vocês poderiam ma perguntar se tem sentido um comediante, 40 anos de idade, cético, fora de forma e sobrecarregado de trabalho escrever algo de interessante sobe um caminho religioso. Ora, diria que sim.
   
   O livro "Volto Já" - minha viagem pelo caminho de Santiago de Compostela - escrito em 2001 por Hape Kerkeling, 40 anos de idade (Editado no Brasil pela Amarilys, 370 páginas, tradução de Bibiana Almeida, R$55,00 vários portais) é diferente de tudo que já havia lido sobre essa jornada da Via Láctea ou da chuva de estrelas donde vem o nome compostela.

   O autor não se detém - como na maioria das publicações desse trajeto - sobre questões religiosas milagreiras, sobre análises do eu interior ou da descoberta de aspectos do inconsciente coletivo e trata as coisas, os encontros, os desencontros, com humor. Muito humor e observações pessoais e coletivas que tornam sua viagem e a dos leitores bem agradável e diferenciada.
 
  Outra questão interessante de sua narrativa é que Kerkeling, sendo alemão, traz ao conhecimento dos leitores de outras nacionalidades - como é o meu caso e dos meus leitores - de aspectos da cultura alemã, comparativos de paisagens com áreas da Espanha, os relacionamentos no percurso com a visão anglo-saxônica, o que é bem diferenciada dos latinos.

  "Volto Já" não é um guia com anotações de lugares por onde andar, descansar, dormir, distâncias, bares e restaurantes ao longo do trajeto, hotéis e abrigos, embora o autor siga a ordem cronológica do Códex Calixtinus - primeiro roteiro escrito no século XIII sobre o caminho - e cite alguns desses locais até porque teve que fazer paradas para descansar, comer e dormir.

  Mas, como o próprio título do livro diz, Kerkeling determinou que faria a viagem de forma despretensiosa, algo como ir ali e voltar logo, sem, necessariamente, fazer todo o percurso de 800 km a pé. Tanto que tomou uma carona num determinado trecho e usou o trem em outro.

  No geral, no entanto, o alemão - como acontece com a maioria dos peregrinos - foi se entusiasmando com a jornada, foi conhecendo pessoas que se tornaram seus amigos, alguns confidentes, e encarou o caminho com muita determinação, obviamente sem perder o humor que é a sua matriz filosófica e laboral. E faz revelações curiosas sobre sua vida: "Durante algum tempo cheguei a pensar seriamente em ser pastor ou ao menos teólogo. Quando criança, nunca cheguei a ter a menor dúvida quanto à existência de Deus, mas agora que estou adulto e supostamente mais esclarecido, coloco claramente em questão. Deus existe?

  Ele partiu para o caminho com esse sentimento e até sem saber porque decidira a fazê-lo, percorrer a rota da Via Láctea rumo Oeste no Norte da Espanha para visitar o túmulo de Santiago. Talvez, por isso mesmo, o livro de Kerkeling seja tão interessante. Tem momentos em que ele deixa de lado o caminho e começa a falar de si, de sua carreira artística, de sua família, e depois retorna o fio da meada do caminho relacionando-se com os pensamentos. 

  Em Pamplona, ele narra: "Encontro uma vaga no pequeno hotel de San Nicolas. A janela do meu quarto no segundo andar, dá diretamente para uma claraboia cuja acústica se assemelha a de uma catedral. Um bebê começa a berrar desesperado em algum lugar do hotel. Um verdadeiro concerto por apenas dezessete marcos por noite. O que poderia esperar? O albergue é limpo, fica no meio da cidade e é um albergue oficial de peregrinos.
 
  O leitor pode ver que o autor alemão não está somente preocupado em analisar os momentos de fé cristã pura, longe disso, ou de criar uma história de ficção como fez Paulo Coelho na sua narrativa do caminho, mas mostrar as coisas do dia a dia, os taberneiros, as pensões, a comida em alguns lugares 'bolorenta', 'mal feita', as assombrações reais que as pessoas encontram no trajeto e ele dá o exemplo de um peruano xamã que o seguiu por alguns momentos, as amizades - fez ao menos com duas mulheres, uma inglesa e outra neozelandesa, as paqueras, o sexo na jornada, os imprevistos, a chuva, a determinação, o enfado, o riso, o vinho, a água, o papo desagradável e indesejado que é possível enfrentar na rota. 

  Ou seja, Kerkeling prometeu 'voltar já' para seu país, mas quando o fez após cumrrir a missão de receber o selo compostelano em Santiago produziu uma ora superinteressante, criativa, repleta de tiradas de humor, um livro agradável de ser lido e com muitos ensinamentos. Há, determinados momentos que o autor se questiona e sua relação com Deus e o faz sem pieguismo ou sem agressões dos crédulos. 

  Kerkeling faz piadas de si e dos outros e se trata de um peregrino fora da curva, bem diferente de milhares de outros que abraçam a fé e tentam encontrar respostas e milagres para seus problemas. O alemão, ao contrário, até encontrou muitas respostas no caminho e mostra tudo isso no seu livro, mas, de uma maneira diferenciada, a vida como realmente ela é.