quarta-feira, 20 de janeiro de 2021
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA APRECIA LIVRO O DIARIO DE UM MAGO, DE PAULO COELHO

Narrativa romanceada e ficcional da viagem de Paulo Coelho ao Caminho de Santiago, em 1986
17/12/2020 às 09:34
Cada autor tem uma visão diferenciada de outro sobre o Caminho de Santiago. E são muitas rotas, muitos caminhos de várias partes da Europa até a Galícia, em direção a Santiago de Compostela a parada final.

  Há centenas de autores que trataram do mesmo tema. Nada, no entanto, iguala-se a narrativa de Paulo Coelho na sua caminhada repleta de ensinamentos, de criatividade, de religiosidade, de misticismo, e tudo o que um grande autor pode oferecer aos seus leitores.

  Paulo é genial, incomum, envolvente e oferecer-nos uma narrativa diferente de tudo o que já li sobre os caminhos para compostela.

 É próprio de Paulo Coelho esse tom de magia de quem está vivendo um momento especial e que nos remete ao antigo, como se fosse no tempo da existência do apóstolo Santiago, de São Francisco de Assis, de Santo Domingos.

  Em "O Diário de Mago" (Editora Schwarcz, SP, 286 páginas, R$27,00) livro escrito na década de 1980 o autor conduz o leitor a uma peregrinação fantástica ele tendo como interlocutor o guia Petrus, um mestre orientando o mestre. Não saberia dizer o papel que representa o guia como orientador, como mestre, e o caminhante autor como mestre dando lições ao guia. 

  Há um permanente diálogo entre ambos durante todo o percurso (todo o enredo do livro), ora Petrus funcionando como professor, indicador das trilhas e das lições filosóficas ao seu pupilo, e o autor, experiente, cumprindo o ritual de uma ordem religiosa (RAM) a procura de uma espada se revela superior em sabedoria ao mestre, às vezes rebelde, pois, desde o inicio da série de exercícios a que é submetido, o primeiro deles da velocidade, cumpre suas determinações, faz os exercícios e tira de cada um deles lições que vai repassando aos leitores.

Por isso mesmo, o livro prende a atenção dos (as) leitores (as) alguns sendo seduzidos a fazer o caminho, outros praticando os exercícios em casa na sua compostela particular, em sua chuva de sonhos, e ao mesmo tempo fica curioso em saber quando o autor vai encontrar a sua espada e em quais condições.

Até lá, enfrentar adversidades, entre elas, o demônio personificado num cigano e depois num cão, com quem luta e sai vitorioso, e os enfrentamentos relacionadas a fome, ao frio, as privações, a sede, a angústia, a intuição, a paciência.

  A procura da espada torna-se um jogo de paciência, de concentração, de aceitação, de incorporação de valores e isso tudo só é conseguido no decorrer do caminho, no caminhar, no respirar, no apreciar as estrelas e ir aprendendo os passos da vida.

  Nesse aspecto, Paulo Coelho é um mestre e sua narrativa. Quem imaginar que 'O Diário de um Mago' é um guia ou roteiro de viagem - muito comum em narrativas de outros autores - com descrições dos locais onde se passa, as vilas, os povoados, as pontes, os rios, os monastérios, os templos religiosos, os albergues, as bodegas, as montanhas e planícies, os campos de trigos e os pastos para ovelhas, esqueça. 

  Não é misso. O roteiro está implícito com algumas citações desses locais, mas o livro tem um enredo próprio, uma ficção, e o autor mistura os ingredientes do real com o ficcional dando uma conotação toda especial ao texto, uma peregrinação peculiar, diferenciada.

  Por isso mesmo ou diante dessa inovação 'O Diário de um Mago' é um dos livros mais traduzidos e vendidos de Paulo Coelho e foi o trabalho que alavancou sua carreira internacional de escritor. Editado inicialmente em 1986 por uma pequena editora cariocas o livro se tornou um 'best-seller', uma referência na obra do autor, a ponto dele quando fez uma segunda visita ao caminho vinte anos depois por onde passa (não mais caminhando e sim de carro) eram imensas as filas de pessoas nas tardes noites de autógrafos.

  Há, ainda hoje, quem faça todos os exercícios (ou alguns deles) recomendados por Coelho, no Diário, e eu própria gosto muito dos exercícios das sombras e da dança, já os pratiquei, e também aprecio os ensinamentos do mensageiro, cada qual com o seu, e as lições de vida que são ministradas pelo autor, com sua vivência - hoje, bem maiores e expostas noutros livros - sua filosofia, o bom combate - muito citado em vários trechos - ainda mais agora nesses tempos sombrios da humanidade com pandemia e a irracionalidade de alguns dirigentes.

  'O Diário de um Mago' é uma lição. Bom de ler, leve e saudável para a alma.