quarta-feira, 30 de setembro de 2020
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA COMENTA LIVRO DE MARK TWAIN AS AVENTURAS DE TOM SAWYER

Linguagem simples e que inovou na literatura norte-americana com estilo próprio distanciando-se do romantismo europeu
14/09/2020 às 13:03
 A narrativa de Mark Twain em "As Aventuras de Tom Sawyer" (Editora Autêntica, BH, 236 páginas, R$25,00 tradução de Márcia Soares Guimarães, ilustrações de True Williams, 2019) mostra as peripécias de um garoto que vivia numa vila São Petesburgo (nome ficcional), às margnes do Rio Mississipi, EUA, que deixa sua tia Polly sempre aflita vivendo entre o amor e o ódio, não necessariamente aquele ódio pavoroso e permanente de uma pessoa contra outra, mas, algo passageiro que findava assim que o jovem voltava para casa nas intermináveis peripécias que fazia na escola, no rio, na caverna e em busca de um tesouro perdido.

   Apresenta-se como uma escrita para infanto-juvenis com as belíssimas ilustrações de True Williams, a bico de pena, a cada página com um ou mais desenhos do que se lê, porém, é muito mais do que isso, um livro que marca o registro de um tempo em que os EUA estavam vivendo a Guerra da Secessão entre Norte e Sul, da unificação e fim da escravidão. É preciso, pois, entender a escrita nesse contexto.

  Twain é considerado um dos grandes autores dos Estados Unidos, nascido no Missouri (1835/1910) se chamava Samuel Langhorne Clemens, um típico jovem norte-americano que perde os pais cedo, mora em Hannibal com tios uma cidadezinha à beira rio (local que serviu de inspiração para criar o vilarejo de São Petesburgo).

  Foi aprendiz de tipógrafo, impressor e assistente editoral, trabalhou como piloto fluvial onde adquiriu conhecimentos de navegação e tornou-se escritor publicando vários livros, entre eles, "A Vida no Mississipi" (1883), "O príncipe e o mendigo" (1880), "As aventuras de Huckleberry Finn" (1885), por sinal, amigo de Tom Sawyer, todos ambientados na bacia do Missouri-Mississipi.

  Admite-se que a literatura moderna nos EUA começou com Twain, uma maneira de descrever as narrativas sem o rebuscamento dos românticos europeus, russos e asiáticos, uma linguagem mais direta, mais simples, no estilo jornalítico (Twain trabalhou num jornal que era do seu irmão), no modelo a vida como ela é, e o faz em Tom Sawyer com uma leveza tão singular que os leitores acompanham o texto sem a mínima dificuldade de entendimento. Como se as pessoas estivessem conversando, entre si.

   A leveza do texto usada por Twain impressiona se lembrarmos que se trata de um escritor que atuou na segunda quadra do século XIX onde havia uma forte influência das narrativas rebuscadas europeias e ninguém escrevia livros como se fossem textos para um jornal, ou histórias contadas na forma mais simples, como o povo falava e encarava a realidade da vida. 

   Se fosse escrito nos dias atuais, a história de Tom certamente não causaria tanto impacto como causou na época em que foi contextualizada, uma narrativa local, bem norte-americana, bem típica de um vilarejo, das brincadeiras das crianças na escola, do culto religioso, do fascínio pelo Mississipi, de um nativo assustador (o índio Joe), um detetive, o professor, o xerife, um bêbado, coisas bem típicas de uma vila.

   O enredo é o mais pitoresco com brincadeiras do cotidiado, a cola na escola, o gato preto, a paquera das meninas, as brigas de ciuminhos dos garotos, as aventuras no rio e numa caverna, morcegos, medo de bruxas, perdidos na noite, a descoberta de um tesouro, a fuga de casa para dormir fora uma ou mais noites deixando as familias apavoradas, tudo de uma graça bem singular, típica da época, tão simples que, olhando-se numa perspectiva dos dias atuais, das crianças de hoje, não assustam a ninguém.

    A forma como Mark Twain descreve as cenas, o desespero da Tia Polly, a mãe adotiva de Tom, da familia de um dos seus amigos considerado 'ovelha negra', o Huckleberry, que brinca de 'pele vermelha' e de pirata, atrai o leitor e o leva a acompanhar a narrativa como se estivesse participando dela e lembrando do seu tempo de infância. 

   O livro é comovente, especialmente, para leitores, hoje, adultos na faixa acima dos 60 anos de idade, pois, muitas dessas peripécias também praticaram e temeram como Tom e seus colegas, do professor durão, da palmatória da escola e das chineladas da mamãe.