segunda-feira, 20 de janeiro de 2020
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA ANALISA O LIVRO 1889, DE UM BRASIL QUE NÃO EXISTE MAIS

Um Brasil em que o presidente (Floriano Peixoto) pagava do próprio bolso a passagem do bonde para ir à casa
15/12/2019 às 12:15
  O historiador Laurentino Gomes dispensa apresentações. No Brasil da atualidade é o autor "best-seller" da série "Escravidão" que está no topo dos mais vendidos do país e que conta esse episódio dos mais importantes da história do Brasil. O primeiro volume engloba fatos que aconteceram entre os primórdios da escravidão e ele remete a história antiga, ao Egito, para mostrar que não foi um fenômeno restrito as Américas e vai até a morte de Zumbi dos Palmares, em 1695. O segundo e o terceiro volumes sairão em 2020 e 2021, certamente narrando a escravidão até a Lei Áurea, a abolição; e a partir daí até os dias atuais.

   Nosso comentário de hoje, no entanto, será sobre o livro "1889" que retrata o episódio da Proclamação da República que aconteceu em 15 de novembro de 1889 (Editoria Globo Livros, 401 páginas, 2019, R$29,00) e foi recentemente não comemorado, mas, segue como feriado nacional. O relevante nesta obra é entender que este fato não aconteceu de uma hora para outra, como muita gente supõe, e diferencia do golpe militar de 1964, embora 1889 também tenha sido um golpe militar, porque até chegar a República o movimento pelo fim do Império durou dezenas de anos e envolveu, inclusive a Guerra do Paraguai (1864/1870).

  É como pronuncia Laurentino no portifólio do seu livro: "como um imperador cansado (Dom Pedro II), um marechal vaidoso (Manoel Deodoro da Fonseca) e um professor injustiçado (Benjamin Constant) contribuiram para o fim da monarquia e a Proclamação da República". 

  Entender essa história é o que nos brinda Laurentino com o saber de sua pena, de forma jornalística, linguagem compreensível, bem pesquisado e uma narrativa gostosa, primorosa. 

   E, o que é mais curioso, também próprio de vários episódios da história do Brasil, deu-se idem-idem com a independência do Brasil de Portugal, 1822, na passagem da Colônia para Império, não aconteceram mortes no 15 de Novembro. Mas, os pré-movimentos pela República e os posteriores à sua implantação, sobretudo a Revolução Federalista no Rio Grande do Sul entre "pica-paus" e "maragatos"; e a "Guerra de Canudos", na Bahia, foram sangrentos com milhares de mortos. 

   Estima-se que, somente no sertão da Bahia, a guerra messiânica de Antonio Conselheiro deixou um rastro de 25 mil mortes inclusive do coronel Moreira Cesar que havia praticado um massacre em Desterro, atual Florianópolis, nome dado em homenagem ao marechal Floriano.

  Ainda assim, e isso fica claro no livro de Laurentino, o Brasil só não teve uma fase do Terceiro Império, com a princesa Isabel como rainha, porque dom Pedro II, considerado um bom governante (56 anos no poder), modernizador das estruturas econômicas, intelectual antenado com seu tempo e as novas tecnologias no mundo, (foi ele que trouxe para o Brasil o telefone) querido do povo, estava doente, macambúzio e sem inspiração e forças para manter o Império. 

  E, Isabel, tinha no marido o conde D'Eu, um estrangeiro antipatizado e impopular. Além disso, ela própria, mais apegada aos santos e a igreja católica do que aos afazeres do governo, a política e a economia, não possuia o perfil da resistência para dar continuidade ao Império.

   Registre-se, o fato, bem colocado no livro de Laurentino que o marechal Manoel Deodoro da Fonseca era um monarquista convicto, herói da Guerra do Paraguai, fiel ao rei e não participara dos movimentos pré-revolucionarios em defesa da República, da Fundação do Partido Republicano em São Paulo, da Convenção de Itu, de 1873, quando os fazendeiros do Vale do Paraiba, do café, se insurgiram contra a monarquia após sinais da abolição da escravatura o que aconteceria em 13 de maio de 1888.

  O marechal só entrou no desfecho pra valer, já adoentado, quando Dom Pedro II nomeou Gaspar Silveira Martins para chefiar o ministério ele que era inimigo fidagal de Deodoro e disputaram, entre si, o amor da baronesa de Triunfo, filha do general gaúcho Andrade Neves.

   Segundo o historiador Hélio Silva, Deodoro levara a pior, pois a condessa preferira os braços e o amor de Silveira Martins, revolucionário republicano, galanteador, viajado e mais atraente do que o marechar. Ficou a mágoa. Deodoro, quando soube da nomeação de Martins para chefe do governo, no ápice da pré-revolução comandada por Benjamin Constant e outros, aderiu ao movimento republicano e dom Pedro foi exilado.

   Laurentino narra os últimos momentos da família real no poder, já um poder que não existia, a calma e depois o desespero de dom Pedro II quando foi obrigado a embarcar num navio a vapor e ser exiliado em Portugal, depois na França, onde morreu, e uma princesa Isabel apavorada com a possível perda dos três filhos que se encontravam em Petropolis e desceriam a serra de trem para pegar a embarcação no cais do porto do Rio de Janeiro. 

   São momentos emocionantes do fim do reinado, com choro e velas, mas, que em nada constrangeu o velho marechal que compactuou com todos essas ações finais, como missão de soldado.

   Deodoro, a rigor, nem sabia como comandar a República a partir da destituição do imperador. Coube a Benjamin Constant esse papel principal de articular as lideranças civis com os militares, Benjamin que era tenente-coronel e comandava os 'moços" da Escola Militar da Praia Vermelha, celeiro da Mocidade Militar, um positivista apreciador do filosofo francês Auguste Comte, inspirador da ditadura republicana. 

   Outra figura proeminente nesses primórdios republicanos foi Ruy Barbosa nomeado ministro da Fazenda, o qual acabou manchando sua biografia ao permitir e até patrocinar o episódio conhecido como "encilhamento" da venda de ações de empresas que investiriam neste novo Brasil, muitas das quais nunca existiram e levaram a falência várias familias, num golpe de espertalhões.

   Coube ao segundo presidente da Republica, outro alagoano que seguiu a carreira militar para se livrar da pobreza, tal qual Deodoro, o austero Floriano Peixoto, conhecido como "Marechal de Ferro" arrumar a casa e consolidar a República na base da espada e dos canhões e metralhadoras. 

   Segundo Laurentino é uma das figuras mais enigmáticas da história republicana no Brasil, donde não se esperava muita coisa, porém, sairam determinações que levaram a República à frente, além de enfrentar e derrotar as revoltas que aconteceram no Brasil, em especial, no Rio Grande do Sul, estado que, por pouco, não se desgarra do Brasil. 

   Aos olhos dos dias atuais saber que o Brasil já teve um presidente (Floriano) que saia do palácio e pegava o bonde pagando a passagem do seu próprio bolso para ir à sua residência suburbana é desolador. E que morreu, como também aconteceu com Deodoro, vivendo com o soldo de militares, sem mordomias, sem pensões, sem seguranças pagos pelos cofres públicos e outros salamilaques.

   Após Floriano assumiu a presidência o paulistano Prudente de Morais (eleito pelo voto a bico de pena) o qual usou a diplomacia para enfrentar revoltas e ocupações de áreas por nações estrangeiras e saiu-se bem. Prudente chegou ao Rio para a posse de trem, sozinho, sem comitiva. 

   É um Brasil que não existe mais.