ter?a-feira, 19 de janeiro de 2021
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA ANALISA BIOGRAFIA DE WALDIR PIRES, POR EMILIANO JOSÉ

Biografia de Waldir Pìres tem dois volumes e foi editado pela Versal
12/12/2019 às 09:48
 Francisco Waldir Pires foi um dos políticos baianos mais importantes do Estado da Bahia, no século XX, com passagens pela política nacional em dois momentos diferenciados: no governo João Goulart, presidente que foi apeado do poder por um golpe de estado; e no governo do presidente eleito, Lula da Silva, onde chegou a ocupar a Controladoria Geral da União e o Ministário da Defesa. Ironia do destino! Waldir foi para o exílio, em 1964, fugindo da perseguição dos militares; e Ministro da Defesa, em 2006, comandando os militares.

  São tantos os episódios na vida política de Waldir que o jornalista Emiliano José ao escrever sua biografia o fez publicando dois livros (Versal Editores, 2018, Volume 1, 392 páginas; Volume 2, 418 páginas, R$36,10 cada vol. pelo Portal Amazon, sem contar o frete).

  No primeiro volume, aborda a vida do politico a partir do golpe de 1964 e sua fuga para o exílio nas asas de um  teco-teco, a vida de exilado no Uruguai e na França, a familia, os primórdios em Acajutiba, Amargosa e Nazaré, estudante de direito em Salvador, Yolanda e José Avena, o vô Pepino, os Pires (Zeca e Lucíola) o ingresso na política e a formação do pensamento; e no segundo volume, o retorno à Bahia, a memorável campanha de 1986 quando elegeu-se governador, a renúncia para tentar ser presidente da República, o confronto com ACM, a derrota fraudada para o Senado, deputado, ministro e vereador da capital onde encerrou a jornada passando dos 90 anos de idade.

   Emiliano fornece aos leitores com esses dois volumes sobre Waldir a mais completa biografia, das que conheço, sobre um político baiano. Vai além disso, pois, insere no contexto sobre o biografado passagens da história política e econômica da Bahia e do Brasil, o que permite ter-se conhecimento desses fatos na ótica do autor, um militante de esquerda, ex-preso político, ex-deputado e herdeiro (em parte) de votos waldiristas. 

  Não há nenhum demérito nisso. Mas, como a história comporta análises diferenciadas sobre um mesmo fato, o viés utilizado por Emiliano sobre Waldir é, sempre, de engrandecimento de sua personalidade, um democrata nato, lutador pela boa política, avesso a qualquer tipo de corrupção ou clientelismo, personalidade marcante que começou assim, inspirado em Ruy Barbosa, João Mangabeira e Harold Joseph Laski; e terminou da mesma forma embora tenha mudado de partido 5 vezes. Mudou de partidos; mas, não mudaram seus princípios éticos e sua visão do mundo.

  A tarefa de Emiliano foi árdua e demorada para compor esse perfil de Waldir, personagem polêmico que aos olhos dos seus oposicionais era um molenga, um dorminhoco que não gostava de trabalhar e por isso mesmo depois de eleger-se governador com uma esplendorosa votação, em 1986, abandonou o barco e entregou o leme do governo a Nilo Coelho, água x vinho, considerado o maior erro político de Waldir em toda sua vida. 

  Emiliano não escamoteia esse episódio e mostra, com todas as tintas, quanto os seus alidos do PMDB autêntico da época e grupos agregados sentiram esse golpe e isso está expresso no livro de forma clara, em especial, o depoimento de Domingos Leonelli, outra figura extraordinária da política baiana. 

  Como compreender a trajetória de Waldir? Assemelha-se a uma tragédia grega. Altos e baixos impressionantes. Um enredo que à luz da razão, da lógica, parecia que seria um personagem da história do Brasil além do que foi, mas, sua estrada para Damasco tinha mais pedras do que se imaginava. Jovem, brilhante advogado, deputado estadual precoce (1955/1963) que disputou o governo da Bahia, em 1962, contra Antonio Lomanto Jr, vencendo os caciques do seu partido, o PSD, os humores de Antonio Balbino e as força internas de Tarcilio Vieira de Melo e Oliveira Brito, perdendo o pleito, mas, saindo fortalecido.

  Enfrentou, em 1962, uma campanha sórdida do cardeal Augusto Álvaro da Silva com panfletagem nas portas das igrejas católicas taxando-o de vermelho (coministra) com o apoio do mais poderoso veículo impresso de comunicação da época, o jornal A Tarde. A ação foi tão violenta de uma associação familiar criada pelo arcebispo primaz do Brasil que tirou Sêo Zeca (pai de Waldir) do sério, ele que era um cristão dos mais ardorosos.

  Daí seguiu para os braços de João Goulart e uma ascensão meteórica para um derrotado eleitoral. E de Goulart e suas reformas de base, apoiadas pelo baino intrépido, para o exílio no Uuruguai e na França com uma familia constituida por 5 filhos e uma esposa resoluta, destemiada, mãe apaixonada, que representou Yolanda Avena. Incrível! É cena de tragédia grega uma viagem dos meninos num fusca da Bahia para o Uruguai, daí para a França, Paris, e Dijon onde tornou-se professor de Direito Constitucional. Os Avenas irmaos de Holanda tiveram papéis importantes no amparo a familia Waldir/Yolanda nessas travessias.

  Como assim! Waldir não falava francês! Devorou livros e aprendeu. E quando estava firme na Universidade de Dijon decidiu nos anos 1970/1980 que seu destino era a política, a Bahia. Todos de volta para o Rio de Janeiro, onde se torna empresário, e depois para a Bahia, onde se elege governador.

  Toda essa trajetória com muitos detalhes, até pessoais, Emiliano conta em seus livros. Tim-tim por tim-tim ele que conviveu muitos anos com Waldir, sua familia, seus amigos e aqueles que participaram de jornadas politicas ao seu lado. 

  Não dá pra narrar neste texto todos os detalhes. Seria impossível fazê-lo numa crônica literária em trabaho organizado sistematicamente em quase 800 páginas e uma extensa bibliografia. Diria que o leitor se engrandecerá ao ler esses dois volumes da biografia de Waldir. Primeiro porque se trata de um personagem admnirável que conseguiu uma trajetória de vida que poucos políticos que já foram ministros e governadores conseguem, de chegar ao topo e voltar à plamice e ser admirado por seu povo, não ser achincalhado, xingado e chamado de ladrão ou outros adjetivos; e depois porque há um legado a ser apreciado da história do Brasil, muitos ensinamentos, relatos de vários episódios das politicas da Bahia e do país. 

  O autor conseguiu essa proeza de colocar o personagem dentro dos contextos políticos, econômicos e sociais de sua época, e estamos falando de 50 anos de jornada com um golpe de estado, uma campanha exitosa de redemocratização, vida, mortes, torturas, censura, bravura e luta. 

  Esses dois livros de Emiliano são fundamentais para quem deseja conhecer e analisar a história política da Bahia (e do Brasil). São de leituras fáceis, textos jornalísticos, parágrafos curtos, enxutos, de ótima compreensão.