quarta-feira, 20 de novembro de 2019
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA ANALISA NOVO LIVRO DE LAURENTINO GOMES: ESCRAVIDÃO VOL I

O autor vai escrever mais dois outros volumes. Neste primeiro, ele trata do primeiro leião de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares
15/10/2019 às 12:50
   O historiador Laurentino Gomes dispensa apresentação. Seu novo livro "Escravidão" - Volume 1 - Do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares (Editora Globo, 476 páginas, R$45,00) é uma das narrativas mais completas desse movimento mercantil que não surgiu no Brasil nem nas Américas espanhola e inglesa mas que teve seu ápice entre nós com a dominação portuguesa na África, sobretudo em Angola. Saga que durou 350 anos e trouxe para o Brasil 4.9 milhões de escravos, em 14.910 viagens, quase a metade de todos os negros que vieram povoar as três Américas.

    Uma das maiores epopéias trágicas da história registrada entre os séculos XVI e XIX que envolveu uma gigantesca máquina de negócios estabelecida em Portugal, na Holanda, na Espanha, na Inglaterra e na África e resultou num movimento migratório de pessoas estimado em 25 milhões de seres humanos, dos quais, mais da metade morreu nas travessias a pé dentro da própria África e/ou foram engolidos pelo Atlântico, a ponto dos navios com negreiros serem também conhecidos como "tumbeiros". Ou seja, 60% deles perderam a vida nos caminhos entre as suas localidades de nascimento e os portos da África, no Atlântico e também nas Américas.

   Pela primeira vez um autor brasileiro que tem penetração no grande público - seu livro já está relacionado como o mais vendido nas listas dos jornais e revistas que tratam do tema literatura - aborda sem rodeios a participação dos sobas africanos nessa engrenagem que, é verdade, desuniu famílias e comunidades imensas, mas, ao mesmo tempo, contribuiu para florescer uma civilização miscigenada e rica em cultura no Brasil, na Colombia, na República Dominicana e outros países, e também nos Estados Unidos, ainda que sua abordagem sobre este país seja superficial. O livro, o primeiro da trilogia, foca com mais atenção o Brasil, objeto central do seu estudo e do seu público.

  Laurentino é brilhante na linguagem jornalística de escrever, um cronista pop, o que permite aos leitores um interesse maior pelo escrito, de forma agradável e compreensível a qualquer aluno de segundo grau. E, para os mais letrados, o paranaense de Maringá seis vezes premiado com o Jabuti, traz novas informações sobre a escravidão no Brasil, em especial no que diz respeito ao interesse da Holanda, as invasões de Salvador e Recife, e as negociações que foram feitas na Europa mesmo depois que os holandeses foram expulsos do Brasil e muitas mortes ocorreram nos campos de batalha. Negociações que envolveram personalidades da África, em Angola, a corte de Lisboa e os financistas de Amsterdam com ramificações em Londres. 

   Eu mesmo não sabia disso e creio que a maior parte dos leitores não sabe. Mas este não é o único episódio oculto na história brasileira que sempre ressaltou o nativismo pátrio, em Pernambuco e na Bahia, sobrepujado a capacidade e a engrenagem do capitalismo global. 

   Há inúmeros outros fatos narrados neste primeiro volume da triologia, como a escravidão em Portugal ainda no reinado de infante Dom Henrique, as narrativas e o modo de vida dos africanos que retornaram a África e se estabeleceram em Angola, Luanda, maior porto exportador de escravos para as Américas; no bairro Tabons, em Acra, capital da República de Gahna e na Guiné; e a escravidão praticada pela igreja católica através dos seus agentes jesuitas que aqui chegaram em primeira leva com Tomé de Souza, fundador da capital colonial em Salvador, 1549.

  Há fatos e fatos muito bem documentados e analisados. Este livro, inclusive, deveria ser enviado ao papa Francisco e ao arcebispo de Aparecida para eles entenderem melhor o Brasil e deixarem de ficar falando, hoje, sobre temas brasileiros sem conhecimento de causa. 

  E, coitados de nós do Nordeste. Eis como decidiram a nossa sorte segundo a pena de Gomes: "Uma das transações imobiliárias mais fabulosas de todos os tempos foi celebrada em Haia, na Holanda, no dia 6 de agosto de 1661. De um lado da mesa de negociações, no papel de vendedor, sentava-se John de Witt. Era um dos dirigentes das Provincias Unidas, ambiciosa coligação de sete pequenas nações protestantes calvinistas - Holanda, Zelândia, Utrech, Frísia, Groninga, Guéldria e Overissel - cujos membros atrariam para a história com o nome genérico de holandeses. Do outro lado, na condição de comprador, estava Dom Henrique de Souza Tavares, conde de Miranda do Corvo, governador de armas do Porto e embaixador da rainha regente de Portugal, a espanhola Luísa de Gusmão, viúva do recém falecido dom João IV. O objeto do negócio era o Nordeste brasileiro.

  Ou seja, o destino do Nordeste não se decidiu na ponta da espada e na boca do canhão embora não se possa subestimar as lutas em Guararapes e os papéis dos comandantes luso-brasileiros em armas, Falipe Camarão, Henrique Dias e João Fernandes Vieira. 

  Mesmo depois da ocupação de Recife o bloqueiro holandes passou a ser dado no Tejo e nas Índias, e envolveu a guerra pelos cativos na África. É aí que entra a famosa frase do Feliciano Dourado, membro do Conselho Ultramarino, em Lisboa, "O Brasil sem Angola não se pode sustentar". E vai se destacar a figura de Salvador de Sá, ex-governador do Rio entre 1637 e 1661, que ataca os holandeses em Angola em 1641 com 45 naus e a liberta do jugo batavo.

  O livro de Laurentino é primoroso e não trata apenas da tragédia humanitária de grande proporção que foi a escravidão em sí, não fica somente nesse aspecto do sofrimento e da dor. Revela, também, a capacidade de resistência dos negros e das comunidades kilombolas nas Américas, o papel de Ganga Zumba e Zumbi dos Palmares no Brasil e toda a engrenagem global da época em que Portugal representava uma espécie de cabeça do Ocidente e Oriente, mas teve seu império corroido pelo avanço de outros povos que se organizaram para conquistar o Novo Mundo, a maior descoberta da história e que modificou para sempre o mapa mundi. 

   Agora é aguardar o II Volume da série que vai tratar da escravidão no Brasil a partir da descoberta do ouro das Gerais e que dá uma sobrevida a Portugal e sua Corte combalida, século XVII, com a Inglaterra se tornando uma potência nos mares e nas finanças.