ter?a-feira, 20 de agosto de 2019
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA comenta livro de ROBERTO R. MARTINS sobre Porto Seguro

Excelente trabalho de Roberto R. Martins depois de longos anos de pesquisas e estudos
16/06/2019 às 21:29
   A literatura documental nos estados é feita por obras sobre os municípios, sua história, o pioneirismo dos primórdios da colonização, o desenvolvimento das comunidades e assim por diante. São milhares de livros nos mais de cinco mil municípios e muitos deles, como é o caso de "Porto Seguro - história de uma esquecida capitania", de Roberto R. Martins (ALBA, 475 páginas, ed. EGBA) são trabalhos memoráveis de pesquisa e merecem toda a atenção por seu valioso conteúdo, análise de dados e revelações inéditas. 

    Baiano de Ipiaú e morador de Eunápolis desde a década de 1980, Martins produziu um trabalho sem o formalismo do contexto acadêmico quase sempre hermético, navega pela história com um texto jornalístico e compreensível a todos, e aponta dados dessa importante capitania hereditária que data dos primórdios do Brasil, antes mesmo da colonização como Governo Geral, o que é de uma preciosidade enorme para estudiosos da história nacional.

    Porto Seguro, aos olhos atuais um enclave turístico no Extremo Sul da Bahia, é riquissimo em história desde a descoberta casual do Brasil por Pedro Álvares Cabral e sua frota, até os desdobramentos que se passaram com a Capitania, sua integração a Bahia (quase uma grande parte desse território pertenceria ao Espírito Santo, incluindo Mucuri), seu esquecimento por muitos anos, sua redescoberta no século XX e seu estágio atual de desenvolvimento.

  Em vários anos de pesquisa, Martins revela novos fatos desde os primórdios da capitania com a presença nativa dos tupiniquins, não os pataxós como se vende aos turistas essa assertiva, a organização social desse povo encontrado por Pedro Álvares Cabral e descrito na carta de Caminha e a chegada do donatário Pero de Campo Tourinho mais de 30 anos depois da aventura cabralina. A frota do capitão hereditário desembarcou na foz do rio Buranhém em começos de 1535, fundou 6 vilas ao longo dos anos, em especial, Porto Seguro, e estabeleceu um regime de paz com os tupiniquins, daí que esta capitania no início foi uma das mais prósperas do país. Tourinho, no entanto, foi denunciado e acusado de heresia e blasfêmica contra a Santa Madre Igreja e sua inquisição impiedosa.

   Uma das acusações contra Tourinho feitas por Pero de Barbosa Paes era de que não guardava os dias santos, que dissera ser papa e rei, sendo este afastado e a capitania passada a seu filho Fernão de Campos entrando em decadência com seu falecimento e a ascensão de sua irmã Leonor de Campo. Em 1559, esta vende a capitania ao Duque de Aveiro, o qual morre em 1571 e passa a capitania ao seu filho D Pedro Dinis, que sofre com o ataque dos Aimores, os nativos e ferozes botocudos da região.

   A descriação do autor é minuciosa em especial com a capitania sobre o domínio dos Aveiros, sendo o último deles D. José de Mascarenhas Lencaster, marquês de Gouveia e depois Duque de Aveiro, é executado em 13 de janeiro de 1759, acusado de regicídio. Teria participado da conspiração dos Távora conrtra Dom José I. Com tantos dissabores seria esta uma capitania ou maldita ou mal administrada? O autor deixa claro que os problemas estão relacionados mais a má gestão do que ao destino divinatório. 

E é com este rei, Dom José I que o poderoso marquês de Pombal expulsa os jesuitas do Brasil e liquida o sistema de capitanias hereditárias incorporando as terras à Coroa. Martins comenta, ainda, o ciclo extrativista da madeira na Mata Atlântica desta região e a corrida em busca do ouro o sonho portugûes inspirado nos espanhóis, assim como as expedições que aconteceram a partir de Porto Seguro.

Chega-se ao século XVIII com as reformas pombalinas e o longo reinado de 27 anos de Dom José. O decreto de criação da Comarca e Ouvidoria de Porto Seguro data de 2 de abril de 1763 e a nomeação do ouvir Thomé Couceiro de Abreu. É, no entanto, o segundo ouvidor, Xavier Machado Monteiro, 1767, que foi considerado o construtor ou o grande urbanista da antiga capitania. É em sua gestão de 10 anos que vários povoados são elevados à condição de vilas - Alcobaça, Nova Viçosa e Porto Alegre (Mucuri).

o livro tem uma enorme quantidade de dados históricos que não podemos relacioná-los todos numa crônica, daí a importância de lê-lo em sua íntegra, o que denota-se o extensivo longo trabalho de pesquisa realizado pelo autor. Vale relatar, por posto, que os limites da Bahia e Espírito Santo em conflito armado durante o período do Império só são definidos na República quando se estabelece em definitivo a divisória dos estados, que fica ao Sul do Rio Mucuri, este pertencendo por inteiro a Bahia, porém bem a Norte do Rio São Mateus. 

Martins narra viagens de expedições estrangeiras à região, em especial do principe austríaco Maximiliano Weid Neuwied (1915/1817), do médico alemão  Robert Avé-Lallemant, autor de viagens da Provincia da Bahia; do francês Saint Hilaire (1816-1822), autor de oito livros; de Rugendas, de Jean Baptiste Debret; do inglês Thomas Lindley e outros. Esses e outros estrangeiros deixaram um valioso legado sobre o Brasil desde a época da Coloônia até a República obras que são fundamentais para se entender o Brasil e sua gente e servem de objetos para pesquisa até os dias atuais e para sempre. Alguns delas, como era próprio das épocas com gravuras e ilustrações dos autores e de desenhistas.

 Porto Seguro - História de uma esquecida capitania - é um livro completo, um dos mais documentados que já li sobre esta localidade e região. O autor vai comentar sobre a redescoberta de Porto Seguro já na segunda quadra do século XX, a partir do incremento ao turismo nos governos de Antonio Carlos Magalhães e com a aberta da Rio-Bahia litorânea, os estudos que se realizaram, os novos negócios em hotelaria e turismo, as comemorações pífias dos 500 anos da descoberta do Brasil já com FHC no governo e o momento atual do município com seus erros e acertos.