segunda-feira, 22 de abril de 2019
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA comenta MEMORIAL DO CONVENTO livro que consagrou Saramago

O rei Dom João V queria ter filhos e ergueu um enorme convento a pedido a esposa austríaca
22/03/2019 às 10:06
José Saramago é fascinante. Sou aparentemente suspeita de comentar seus livros por minha origem portuguesa tal qual o autor, ficcionista que se utiliza de uma linguagem encantadora tanto na colocação dos pronomes; quanto nas citações e modos e dizeres populares de Portugal, da ordenação das frases e das histórias que nos conta com sua pena iluminada.

Memorial do Convento - publicado pela primeira vez em 1982 - (Ed Companhia das Letras, 2018, 390 páginas, R$47,00) é um livro apaixonante desses que o leitor não desgruda as vistas até que a narrativa seja concluída. Em Saramago é impossível prevê-se um final por mais que o leitor possa colocar em sua cabeça várias situações, uma vez que ele sempre surpreende, para melhor, o que é muito bom e fica ainda mais saborosa a leitura dos seus textos.

A narrativa de Memorial é linear no estilo "era uma vez" dos romances históricos tão difundidos em Portugal, país de grandes memorialistas.

Trata-se da descrição romanceada de uma promessa do rei Dom  João V de construir o Palácio Nacional de Mafra, conhecido como Convento de Mafra, para atender o desejo de sua esposa dona Maria Ana Josepa de ter filhos, ela uma austríaca de nascimento que chegara a Portugal já havia 2 anos e ainda não lhe dera herdeiros. 

A construção consumiu toneladas de minério brasileiro e o sangue e suor de milhares de operários escravizados em torno do desejo de um rei megalomaníaco e autoritário, próprio da época, início do século XVIII. 

Os personagens criados por Saramago para dar vida a história, especialmente o casal Baltasar Sete-Sóis; e Blimunda Sete-Luas, permeiam o romance de ponta-a-ponta e revela-nos, na sequência, a história de um dos episódios mais pitorescos da nação portuguesa: erguer um convento orando aos céus e cercado de padres para obter herdeiros ao trono português.

O convento ainda existe nos dias atuais em Mafra, agora mais do que nunca consagrado na prosa do prêmio Nobel de Litratura e mais famoso e admirado do que nunca, não só por patrícios como por estrangeiros de outros continentes que o visitam.

Foi Memorial do Convento que tornou Saramago internacionalmente aclamado na literatura contemporânea, isso graças a técnica que utilizou entre a narrativa histórica e a história individual de pessoas comuns - pedreiros, donas de casa, ferreiros, carreiros, etc - os operários que trabalharam para erguer o convento.

O autor trata os poderosos da época com finissima ironia e dá força e valor aos comuns em cada descrição trazendo à luz da contemporaneidade uma visão do ponto de vista social à moda da época, um regime quase escravocata de um Portugal empobrecido e onde as pessoas, especialmente do interior, se sujeitavam a quaisquer trabalhos mesmos os mais duros e humilhantes em troca do pão da sobrevivência.

Em sendo assim, dizem os parentes de Baltasar quando ele chegou para trabalhar na empreitada, a obra é uma dádiva pois vai durar muitos anos e o emprego estará garantido por soldo da corte.

Essa relação pobreza x nobreza Saramago deixa bem claro nesta obra, não a única de sua extensa lavra abordando essa temática, e fica bem exposto no resultado final do romance a dureza do individualismo reinó versus a megalomania autoritária de um governante com sua corte com nobres, barões e marqueses, padres, cozinheiros, mordomos, etc, e no contraste os sonhos individuais do maneta Sete Sóis e do padre voador, as visões encantadoras de Blimunda, todo isso num país à b eira da I Revolução Industrial mas que ainda vivia no medievo.

 O livro de Saramago precisa ser visto com essa ótica e não apenas um romance histórico do tipo "Era uma vez", pois, contém um conteúdo muito mais aprofundado.