segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA COMENTA livro de José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira

Só não enxerga aquele que não quer
21/12/2018 às 10:52
 Atravessando esses obscuros tempos em Pindorama reli a obra "Ensaio sobre a Cegueira", do genial escritor português José Saramago, prêmio Nobel de Lieteratura, em 1998, que é considerada sua obra prima embora o autor a achasse violenta e brutal. E é mesmo. Haja estômago e racionalidade para acompanhar o texto de Saramago por sua dramacidade, amargor e desesperança. 

   Aos poucos, no entanto, o leitor vai entendendo o recado trasmitido pelo autor, uma revelação dura e cruel da realidade do dia-a-dia, do egosimo das pessoas, do salve-se quem puder nas cidades, da correria e dos atropelos uns sobre os outros, não com veiculos ou motos, mas, com a ganância, a falta de compreensão, a inexistência de amor e de solidariedade.
 
   "Ensaio sobre a Cegueira" é tudo isso junto e misturado e numa das suas raras entrevistas, em 1995, quando do lançamento desta obra que teve muita repercussão nos segmentos mundiais da literatura advertia: "Não somos bons e não temos coragem de reconhecer isso". 

   Esse não ser bom representa uma análise ampla e mundial dos humanos, com exceções, é claro, mas, no geral, uma realidade que se vê no dia-a-dia o que faz com que, na luta pela sobrevivência o 'sapiens' tome atitudes irracionais e inimagináveis distantes do que seria um apego ao próximo. Uns engolindo os outros.

   Saramago expõe esse drama no "Ensaio sobre a Cegueira" transformando a comunidade em que vive, e que poderia ser qualquer grande cidade ou país, num agrupamento de cegos e com isso vai revelando as dificuldade inerentes a todos quando se perde a visão. Um mundo de cegos! Como seria isso, sem governo, sem controle do trânsito, sem alimentos adequados`à sobrevivência, sem esperança, toda uma situação que reduz cada personagem a sua insignificância. 

   O autor é genial em sua narrativa misturando o discurso direto com o indireto, dispensando parágrafos, travessões e aspas, e usando letras maiúsculas para diferenciar o indireto.

    Para nós, brasileiros, o português escrito dessa maneira parece confuso, mas é muito agradável. É preciso ler com calma e atenção redobradas, às vezes repassando os olhos sobre um mesmo texto, uma vez que Saramago é detalhista e usa expressões que não são próprias do nosso cotidiano, tanto no falar; quanto no escrever.

   A narrativa começa com um motorista parado num semáforo , o qual subitamente descobre que está cego. A epidemia da cegueira - uma luz branca - se espalha pela cidade e ninguém é poupado, salvo a mulher de um oftamologista que atuava na cura das doenças da visão. 

   Trata-se de uma ficção das mais brilhantes pois dá sequência a uma narrativa dessa natureza, além de exigir do autor conhecimentos sobre a cegueira, vivência e experiência sobre o âmago da narrativa que é revelar ao mundo a necessidade de abrirmos os olhos à compreensão do homem e suas necessidades, sem atropelar o próximo com autoritarismo, o egosimo, o poder desenfreado, a ambiação, a corrupção, o devaneio e todos esses mecanismos que permeiam a sociedade, não é tarefa fácil.

   Saramago faz um alerta geral do que seria uma sociedade de cegos, sem comando, sem comida, uns matando os outros para sobreviverem, uma guerra fraticida, aliás, como se vê hoje em dia em algunas sociedades com os poderosos de olhos abertos e enxergando com a ótica vesga dominadora.

   Agora veja esse detalhe na linguagem saramanguiana: "A rapariga dos óculos escuros também foi levada a casa de seus pais por um policia, mas o picante das circunstâncias em que a cegueira, no seu caso, se declarara, uma mulher nua aos gritos num mhotel, alvorotando os hóspedes, enquanto o homem que estava com ela tentatava escapulir-se enfiando atabalhoadamente as calças, moderava, de certa maneira, o dramatismo óbvio da situação". 

   É uma linguagem bela e admirável, com erudição e sem pieguismo ou citações de autores nobelíssimos. Aos personagens principais do livro ele não atribui nomes e cita-os com o médico, a mulher do médico, a rapariga dos óculos escuros, o cão em lágrimas, o rapazinho estrábico, o cego da pistola, o ladrão, o soldado, a velha do primeiro andar e assim por diante.

   Com isso, o autor mostra que não é preciso dar nomes num coletivo de egoismo e ganância e que todos sofrem: dos mais simples dos homens às autoridades. O livro é denso, fortissimo e chocante. O prazer da leitura está no saboroso texto de Saramago, porém, o contexto é arrepiante e ninguém escapa do alvorço na sociedade dos cegos onde, ainda assim, surgem os malvados, os maus, os corruptos, os que exigem dinheiro e sexo em troca de comida, tudo sob o olhar lúcido e paciente da mulher do médico, a qual, embora a única com visão se comporta como cega até o final da narrativa ainda que alguns dos seus amigos mais chegados desconfiassem que ela enxergava. 

   E ela comete um crime para matar o homem cego da pistola que comandava a gang dos malvados que retinha a comida oferecida pels autoridades num asilo em que se encontravam, isolados. Uma morte a tesouradas com muito sangue escorrengo pelo chão que os outros cegos não viam, mas, que ela enxergava e a atormentava. Um crime para salvar a boca da fome dos outros cegos.

   No final do livro, Saramago vai, aos poucos, retornando a visão de cada personagem numa simbologia de que toda a socidade, já exaurida pela fome e pela desorganização, voltava a vida real. Um alerta. 

   E, de repente, a mulher do médico vê-se cega, momentaneamente, porém, quando seus olhos abrem enxerga a cidade e as pessoas em movimento. Genial esse livro de Saramago. É o mínimo que se pode dizer.