quarta-feira, 14 de novembro de 2018
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA analisa o LIvro do Jô, uma autobiografia desautorizada I

Livro que representa uma aula sobre a cultura brasileira
01/11/2018 às 10:37
O "Livro do Jô - uma autobiografia desautorizada" apresentado por Jô Soares e Matinas Suzuki, Volume 1 (Ed Companhia das Letras, 466 pág, R$51,90 pela internet) é uma aula sobre a cultura do teatro no Brasil independente do contexto autobiográfico em sí que também é muito interessante. Jô tem uma longa história de vida com formação inicial em estudos na Suiça, o que representa uma oportunidade para poucos brasis, e lhe deu conferiu embasamento cultural e de vivência internacional ao seu grande talento.

Digo isso porque uma personalidade outra qualquer poderia ter estudado na Europa, mas, não teria os atributos pessoais de humorista nato que representa o Jô Soares cujo nome de batismo é José Eugênio Soares, nascido no Rio de Janeiro, em 1938, portanto, hoje, aos 80 anos de idade. 

Neste primeiro volume, os autores narram a trajetória do Jô nas fases entre seu nascimento no Rio, sua vida de criança na então capital da República, uma parte no Copacabana Pálace, estudante adolescente na Europa, retorno ao Brasil após a familia não ter mais condições de bancá-lo no exterior alisando bancos em Lausanne, Suiça, colégio da elite do saber internacional, os primeiros passos na sua carreira como músico e humorista, a fase de ouro do teatro onde atuou como ator e diretor, e os primórdios de sua atuação na TV.

Jô nasceu em plena ditadura getulista do Estado Novo e o relato incial do livro contém muitas informações políticas da ancestralidade de sua familia paraibana e de como seus pais migraram para o Rio de Janeiro. Diga-se de passagem que, para se entender o conteúdo da autobiografia é preciso ter conhecimento da história do Brasil, pelos menos os dados essenciais, sob pena de ficar 'boiando' sem compreender o que se passa. Requer ao leitor uma cultura geral não só no campo da política mas também no segmento cultural uma vez que são relembrados muitos momentos do cinema, da música e do teatro do Brasil e do mundo ocidental, além da comunidade televisiva.

Quem não possui os conhecimentos básicos da cultura nacional, portanto, terá dificuldades em entender os enunciados do livro e certamente não seguirá em frente até completar os ditos neste primeiro volume.
Uma outra situação bem peculiar na autobiografia é que Jô, além de narrar a sua vida, em sí, também narra passagem da vida de várias personalidades, desde os seus familiares, os amigos, os artistas e as tendências da época em que deu os primeiros e segundos passos em sua carreira como músico, humorista, artor e diretor teatral e os primórdios na TV, décadas de 1950/1960.

Sobre seu pai Orlando Soares comenta num dos trechos do livro: "Quando eu trabalhava na Globo, nos anos 1970, Roberto Marinho me surpreendeu com a frase - 'Eu conheci o Garoupa'. Nunca soube que o empresário de comunicações mais importante do país a partir daquela década tinha conhecimento do meu pai. Sem que Orlando Soares sequer imaginasse em que momento e por que o apelido nasceu, o Rio inteiro o chamava de Garoupa.

Jô resgata os primeiros passos no mundo dos espetáculos nas décadas de 1950/1960, sua infância dourada no Copacabana Pálace e a dureza que foi sair da condição de jovem rico para ser um classe média normal e enfrentar a conquista de um espaço no mundo das artes, no show bizz, no teatro e na televisão, o que exigiu um esforço enorme, muito trabalho e deidicação, e o aperfeiçoamento do seu talento nato como humorista e como show-man.

Jô conquistou cada degrau sem apadriamentos no modelo 'vamos dar uma força a este jovem' ou 'é filho de gente importante e abram-se as portas' e sim graças ao seu trabalho, ao seu talento a sua determinação em ser um artista, o que nunca foi fácil no Brasil, nem hoje; nem naquela época, a partir de 1964, anos da ditadura militar que durou mais de 20 anos.

Outra recordação posta no livro: "Voltando a nossa estada em Paris, em 1951. Fomos a um café, cujo nome não me recordo, onde estava Orson Wells, no maior porre. Quando ele passou pelo Rio, em 1942, eu tinha apenas quatro anos, não conseguia me lembrar de nada. Mas, dos treze para os quatorze anos em Paris, já o admirava, e ao longo de minha vida essa admiração cresceu. Tarde da noite, tomei coragem, fui falar que era fã dele e um pedi um autógrafo. Welles olhou para mim e perguntou: - Brazillian? Respondi que sim e ele então falou: - Não vou te dar autógrafo, leva meu passaporte. Wells estava de porre e o pai de Jô fez com que ele não levesse o passaporte como lembrança.

A linguagem adotada no livro não é linear.Ou seja, não há uma discrição cronológia primária e os autores vão e voltam no tempo o que exige atenção dos leitores e Jô, por ser um humorista intelectualizado nem sempre nós, os mortais, conhecemos um Will Eisner ou um Gerbardh Sbnobble, renomados cartunistas que Jô, fã deles, peregrinou por NY para encontrá-los. Sua passagem inicial pelo teatro com a força de Cacilda Becker é emocionante no livro, assim como o amor que dedicou ao filho Rafinha, autista savant, e a esposa Terezinha, numa época em que se tinha pouco conhecimento no Brasil sobre esta doença.

Diria que essa autobiografia desautorizada do Jô Soares, primeiro volume, é uma grande aula e os leitores que se dedicarem a ler o livro até o final certamente vão acrescentar aos seus conhecimentos muitas informações preciosas, especialmente para as pessoas que são dessas áreas do teatro e da televisão. É um livro muito interessante, bom de ler, com tiradas de humor em alguns momentos, com passagens de carinho e amor às pessoas e a arte, com lembranças do Brasil das épocas de duas ditaduras, da censura pós 1964, isso posto no livro de forma simples, de quem não foi um 'revolucionário', mas esteve envolvido em passagens perigosas na época do regime militar.