segunda-feira, 24 de setembro de 2018
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA comenta o livro de Cezar Motta sobre a história do JB

Uma série de erros familiares e a construção de uma sede megalomaníaca levaram o jornal à falência
16/08/2018 às 12:20

Até a última página
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   Sabem aquele enredo do livro de Marshall Berman dando conta de que "Tudo que é sólido se desmancha no ar", a história do Jornal do Brasil, o prestigioso JB tem esse enredo. Vai do céu ao inferno entendendo-se o céu como o azul, o extraordinário paraíso, a força, a valoração do mais influente meio impresso do país em décadas; e o inferno, o vermelho, o malogro, a decadência própria de uma empresa familiar que não soube se renovar e enfrentar os novos tempos da comunicação tendo que dialogar com seu maior concorrnete O Globo que, embora também familiar, conseguiu sobreviver e esmagar o adversário.

   Não que as organizações Globo tenham sido fundamentais nesse debalce do JB ou sua direção trabalhado diuturnamente para isso, mas contribuiu na medida em que contratou muitos dos seus profissionais, teria monitorado com ACM então ministro das Comunicações para que a TV JB não prosperasse, e aproveitou-se dos erros em carretilha da direção do JB, sobretudo a construção de uma sede megalomaníaca e a aquisição de uma linha de montagem industrial que estava fora de sintomia com os novos tempos dessa indústria, mais leve e alicerçada na computadorização.

   O livro "Até a Última Página - Uma História do Jornal do Brasil", de Cezar Motta (Objetiva, 564 páginas, 2018, R$56,00) mostra esse cenário dantesco e revela que se pode ir do céu ao inferno diante sequências de erros inimagináveis, até primários. É também uma história do poder de um veículo de comunicação e das relações com o poder institucional governamental quando o naufrágio começou, da excelência no jornalismo durante décadas em meados do século passado, de uma saga de insensatez e do deslumbre, falta de visão empresarial e egoismo familiar. 

   Uma série de fatores que levaram o JB à falência com uma dívida astronômica a pagar e sem recursos para isso, justamente quando a roda da comunicação mudou e o JB ficou para trás.

   O jornalista Cezar Motta é primoroso, detalhista, coloca no texto situações bem pavimentadas em análises, depoimentos de colegas, entrevistas, vivências, daí que o livro é uma preciosidade sobretudo para quem atua nesse segmento - o jornalismo - e fica a conhecer alguns dos 'craques' desse mercado e como foi o enfretamento da redação, a sua autonomia, sobretudo quando o JB começou a definhar e sua direção tentou se apoiar nos governos militares pós março de 1964, e nos governo da redemocratização a partir de 1984 com Tancredo Neves, José Sarney e a dupla Fernando Collor e PC Farias. 

   Trata-se de uma narrativa bem documentada, certamente não a única porque existem outros trabalhos sobre o tema, mas, a mais completa versão do JB e sua história.

  Um livro ótimo para jornalistas. Uma pauta. Motta revela algumas das muitas mudanças na redação do JB, a ascensão e queda de Alberto Dines, a trajetória do impetuoso Ricardo Noblat, o papel da direção redacional do JB ajudando a tentar salvá-lo do naufrágio junto aos governos militares e a renegociação das dívidas com o BB, a participação do colunista Carlos Castelo Branco, o Castelinho, o JB Cultural com seu histórico Caderno B, os classificados na primeira página, os prêmios Esso que o veículo conquistou. 

   São muitas informações para os leitores todas bem fundamentadas com algumas revelações que senão inéditas estão agora agregadas num único documento, o que torna o livro também uma fonte de pesquisa para estudiosos da comunicação no Brasil. 

   Motta descreve com serenidade e sem carregar nas tintas como os herdeiros da Condessa destruiram o JB a partir da tomada de decisões equivocadas, sem um planejamento mais apurado e sem entender que as comunicações no mundo estavam mudando e os processos industriais também mudariam. A construção da megalomaníaca sede foi a maior insensatez na imprensa brasileira de todos os tempos. No livro há relevantes citações aos egos familiares entre os filhos de Nascimento Brito, a morte da condessa, a doença do segundo patriarca e as mordomias familares.

   Não é um trabalho para se ler de um fôlego até porque tem mais de 550 páginas e algumas fotografias mas que dá vontade dá, uma vez que o leitor (a leitora) fica torcendo para que o JB saisse do buraco, há momentos de esperança que se imagina vai dar certo, porém, como disse o autor, o JB virou um zumbi e naufragou como o Titanic. Para o que representou à imprensa escrita brasileira, hoje, não é mais nada.

   Fica a história. Uma belíssima história e Cezar Motta dá enormes dicas e caminhos para que outros livros sejam publicados sobre o JB afinal, por lá passaram os mais destacados jornalistas deste país, alguns já falecidos, outros vivos.