sexta-feira, 19 de julho de 2019
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

O Bebedor de Horizontes, de Mia Couto, um tapa na cara

Livro retrata a prisão e viagem para o exílio em Açores, do imperador do Reino de Gaza, Sul de Moçambique, por tropas portuguesas
18/04/2018 às 12:18
No último volume da trilogia "As Areias do Imperador" intitulado "O Bebedor de Horizontes" (Cia das Letras, 328 páginas, Ed. Schwarcz, SP, 2018, R$35,00) o vencedor do Prêmio Camões 2013,  moçambicano Mia Couto, narra a epopéia da captura do imperador Ngungunyane, do Reino de Gaza, final do século XIX, por tropas portuguesas e sua trajetória entre Chaimite até a antiga Lourenço Marques (atual Maputo), depois Lisboa e em definitivo exílio na Ilha dos Açores, acompanhado de 7 de suas mais de 30 esposas.

O livro completa o ciclo de dois outros trabalhos, "Sombras da Água" e "Mulheres de Cinzas" que abordam o mesmo tema - o Reino de Gaza - o amor de um sargento português por uma nativa africana, o papel das mulheres no reino, a dominação portuguesa nessa parte do país à beira do Oceano Índico, na região sul, onde existia o Reino de Gaza e um senhor absoluto com suas crenças, virtudes e defeitos; seus aliados e inimigos no próprio reino.

Em "O Bebedeor de Horizontes" Mia Couto fecha a trilogia exatamente com a captura de Mundunngazi Ngungunyane e sua viagem até Açores, um romance apaixonante onde o autor mescla termos da linguagem do Reino de Gaza em txiyxope com as expressões da língua portuguesa praticada em Moçambique e toda uma trama de cartas enviadas pelo sargento português Germano de Melo a africana Imani Nsambe, personagens centrais do segundo livro da trilogia "Sombras da Água", neste último livro, uma personagem que, sem ser uma das esposas do rei é embarcada grávida do sargento como intérprete entre os africanos e os comandantes portugueses que tinham a missão de levar Ngungunyane como um troféu até Lisboa.

Segundo o autor não era apenas um imperador vencido que os portugueses iriam exibir na capital lusa, mas, toda uma África, humilhada, acorrentada e rendida. Nesse contexto, o rei preso não esboça resistência e segue com seu filho Godido, as esposas e o guerreiro Nwamatibjane Zixaxa, seu adversário, extremamente abatido, sofrido, trôfego, às vezes bêbado, mostrando o viés perverso da dominação portuguesa neste país.

O livro é uma ficção no estilo romance-histórico com fotos de algunsa dos personagens, o comandante da corveta Capello, Álvaro Andrea (mensageiro das cartas de Germano a Imani) que conduziu os prisioneiros no estuário do Limpopo, no estado de Gaza/ou reino de Gaza, o capitão Mouzinho de Albuquerque, seu capiturador, o navio Neves Ferreira que conduziu o rei entre Lourenço Marques (Maputo) até a África do Sul e depois até o porto de Lisboa, as sete esposas do rei, a lendária Dabondi a mais influente das sete mulheres do rei, visionária, quase uma feiticeira; o forte de Monsanto de Lisboa - o primeiro local da deportação - e os prisioneiros vestidos com roupas à moda européia nos Açores.

No contexto mais amplo, a trilogia de Mia Couto revela-nos traços da dominação européia na África, tendo como exemplo Moçambique, sua terra natal, mas, numa visão mais alargada e por tabela o que aconteceu no continente africano com ingleses, franceses, holandeses e belgas com seus regimes coloniais destruidores das culturas locais desde o século XVI até o século XX quando, finalmente, as nações africanas se tornaram independentes, politicamente. 

A força dos dominadores foi de tal ordem que, hoje, em Moçambique, ainda que se falem várias línguas nativas de tribos, o português é a lingua oficial; assim como na África do Sul, no Quênia, na Nigéria e outros é o inglês; e em Camarões, Marrocos e Argélia, o francês. A independência cultural foi atrofiada para sempre, assim como a econômica, com muitos desses países ainda negociando suas riquezas com os ex-colonizadores.

A obra de Mia Couto tem um valor inestimável. É um brado, uma voz ouvida longe sobre a colonização portuguesa em Moçambique, que ou tinha o domínio de Gaza ou a perdia para outro explorador. Diz o autor que Lisboa precisava fazer essa conquista e de uma encenação (a captura e a exibição de um troféu, o rei preso) para desencorajar novas revoltas entre os africanos.

E o autor, ao narrar a epopéia revela aos leitores algumas dessas tradições culturais do povo vatxopi quando Dabondi manda avisar ao capitão do navio que 'o vento foi um pássaro que fugiu para fora de si mesmo quando os homens o quiseram capturar. Deixou de ter corpo, fez ninho nas nuvens e viaja com elas para pousar quando se cansa. É por isso que o vento canta". 

Noutra passagem uma conversa entre o comandante Andrea e Zixaxa, o guerreiro diz que fala com as estrelas, as esposas da lua. "É isso o que elas são para nós, os da nossa raça. São demasiadas as esposas, é por isso que emagrecem. A lua nbão lhes dá de comer".

"O Bebedor de Horizontes" é um tapa na cara, um grito, uma memória de um tempo que passou e deve ser, sempre analisado como uma reflexão, um chamamento a igualdade, para que cenas de dominação dos povos não aconteçam nunca mais.